Conhecer o solo com IA: menos custos, mais rentabilidade

IA na Agricultura Portuguesa: Campo DigitalBy 3L3C

Conhecer o solo em detalhe, com sensores, mapas e IA, reduz custos de fertilização e rega e aumenta a rentabilidade das explorações agrícolas portuguesas.

agricultura de precisãointeligência artificialgestão do solofertilizaçãorega inteligenteInovTechAgroInovEnsino
Share:

Featured image for Conhecer o solo com IA: menos custos, mais rentabilidade

Porque é que o solo decide o lucro da sua exploração

Em muitas explorações portuguesas, o adubo ainda se aplica “a olho” ou por hábito: a mesma fórmula, a mesma dose, ano após ano. O resultado vê‑se na conta bancária: custos elevados, produtividade instável e solos cada vez mais desequilibrados.

Aqui está o ponto-chave: quem conhece bem o solo gasta menos e produz melhor. E hoje esse conhecimento já não depende apenas de análises pontuais; depende de dados, de cartografia digital do solo e, cada vez mais, de inteligência artificial (IA).

Foi esta a mensagem central sublinhada por Luís Alcino da Conceição, professor da Escola Superior de Biociências de Elvas e coordenador do Centro de Competências InovTechAgro. A partir do trabalho que está a ser feito em Agricultura de Precisão e na cartografia digital dos solos, há um salto claro: passar de decisões genéricas para decisões cirúrgicas, parcela dentro da parcela.

Este artigo integra a série “IA na Agricultura Portuguesa: Campo Digital” e focar‑se‑á num ponto concreto: como o conhecimento detalhado do solo, apoiado em tecnologia e IA, pode reduzir custos de fertilização, rega e operações, ao mesmo tempo que aumenta a rentabilidade e a sustentabilidade.


O que mudou: da amostragem clássica à cartografia digital e IA

A grande viragem está na forma como recolhemos e interpretamos informação do solo. A amostragem tradicional (uma amostra composta por talhão ou até por várias hectares) já não chega para quem quer competir num contexto de margens apertadas.

Hoje, a abordagem moderna combina:

  • Amostragem georreferenciada – cada ponto de amostragem tem coordenadas GPS;
  • Sensores de condutividade elétrica aparente (ECa) – montados em reboques ou equipamentos específicos;
  • Modelos digitais de solo – muitas vezes apoiados por algoritmos de IA;
  • Dados de produtividade, imagens de satélite/drones e histórico de maneio.

“A partir do mapa de condutividade elétrica é possível gerar diversos mapas relevantes para a gestão agrícola — pH, fósforo, potássio ou outros parâmetros.”
Luís Alcino da Conceição

Na prática, o sensor mede variações na condutividade elétrica do solo, que estão associadas a diferenças de textura, teor de argila, humidade, teor de sais e matéria orgânica. A seguir, modelos matemáticos e algoritmos de IA relacionam esses valores com:

  • pH;
  • teor de fósforo (P);
  • teor de potássio (K);
  • outras propriedades relevantes (capacidade de retenção de água, risco de compactação, etc.).

O resultado é um conjunto de mapas temáticos de alta resolução, que mostra como o solo varia dentro de cada parcela. Em vez de um número médio para 10 hectares, passa a ter dezenas ou centenas de “pequenas parcelas virtuais”, cada uma com o seu perfil.


Três decisões-chave que mudam com o conhecimento do solo

Conhecer o solo com este nível de detalhe não é um luxo tecnológico; é uma forma prática de mudar decisões que têm impacto direto na fatura e na produção.

1. Dose fixa, dose variável ou aplicação localizada?

Perante um talhão aparentemente homogéneo, a prática habitual é aplicar:

  • a mesma dose de fertilizante em toda a área;
  • com a mesma fórmula, na mesma data.

Com os mapas de solo e os modelos de IA, o cenário altera‑se:

  • em zonas com níveis já elevados de fósforo ou potássio, pode reduzir ou mesmo suspender a aplicação;
  • em zonas deficitárias, ajusta a dose em alta para evitar que a parcela limite o rendimento;
  • em áreas com pH muito ácido ou muito alcalino, a prioridade pode passar por corrigir o solo (calcário, gesso, matéria orgânica) antes de aumentar o adubo.

Na prática, surgem três estratégias possíveis:

  1. Fertilização de dose fixa otimizada – usa o conhecimento do solo para definir uma dose média mais racional (nem a mais, nem a menos).
  2. Aplicação localizada em zonas específicas – atua apenas onde o solo “pede” correção, por exemplo, faixas com pH baixo ou teores muito baixos de P.
  3. Dose variável em toda a área – com máquinas de taxa variável (VRT), controladas por GPS, ajusta dose e, nalguns casos, também o tipo de produto, em tempo real.

Esta última opção é onde a IA na agricultura ganha mais expressão: os algoritmos conseguem transformar rapidamente toneladas de dados (mapas de solo, imagens NDVI, histórico de colheitas) em prescrições de fertilização prontas a carregar no trator ou no pulverizador.

2. Planear a rega e o uso de água

Solo não é só nutrientes. A capacidade de retenção de água varia muito entre zonas mais arenosas e zonas mais argilosas.

Com cartografia digital do solo e ferramentas de IA, consegue:

  • identificar zonas de maior risco de stress hídrico;
  • adaptar a setorização da rega (em rega localizada ou pivôs);
  • ajustar calendário e lâminas de rega, combinando mapas de solo com previsões meteorológicas e modelos de evapotranspiração.

Na realidade portuguesa, com anos cada vez mais secos e restrições de uso de água, este ponto já não é opcional. Quem souber onde o solo aguenta mais tempo a água, rega menos e no momento certo.

3. Definir estratégias de sementeira e rotação

Conhecer a variabilidade do solo também ajuda a adaptar densidades de sementeira, variedades e rotações culturais:

  • aumentar a densidade em zonas com maior potencial produtivo;
  • escolher variedades mais rústicas em zonas limitantes;
  • planear rotações que ajudem a corrigir desequilíbrios (por exemplo, introduzir leguminosas em áreas pobres em matéria orgânica).

Vários modelos de recomendação, baseados em IA, já cruzam dados de solo, clima e histórico de pragas para sugerir rotações mais resilientes e menos dependentes de insumos externos.


Porquê recorrer a serviços especializados (e não comprar todos os sensores)?

Luís Alcino da Conceição sublinha um ponto muitas vezes esquecido: estes equipamentos e sistemas não foram pensados para serem comprados por cada agricultor individualmente.

Há três razões claras para recorrer a prestadores de serviços especializados:

  1. Custo do equipamento

    • Sensores de condutividade elétrica, GPS de alta precisão, software de processamento, drones e estações de recolha de dados representam um investimento significativo.
    • Para explorações pequenas ou médias, o retorno deste investimento é mais eficiente quando o custo é partilhado, via empresas de serviços ou cooperativas.
  2. Metodologia de utilização

    • Os levantamentos de solo detalhados não precisam de ser repetidos todos os anos. O solo muda, mas não ao ritmo de uma campanha para outra.
    • Um bom levantamento de base, bem feito, pode servir de referência durante vários anos, ajustando‑se pontualmente com novas amostragens e dados de produtividade.
  3. Interpretação dos dados

    • O verdadeiro valor está menos no mapa bonito e mais na tradução desses dados em decisões práticas: doses, produtos, datas, rotações.
    • Equipas técnicas com experiência em Agricultura de Precisão e IA agrícola conseguem transformar mapas complexos em planos simples para o produtor.

Na série “Campo Digital”, este modelo aparece cada vez mais: o agricultor não precisa de ser programador nem engenheiro de dados. Precisa, sim, de escolher bem os parceiros tecnológicos e saber fazer duas perguntas essenciais:
“Quanto é que isto me faz poupar?” e “Quanto é que me ajuda a produzir mais e melhor?”


IA na agricultura portuguesa: como ligar o solo ao “cérebro digital” da exploração

O conhecimento do solo é um dos pilares da agricultura de precisão com IA. Quando integrado com outros sistemas digitais, gera um verdadeiro “cérebro” da exploração.

Integrações mais comuns hoje em Portugal

Cada vez mais explorações e cooperativas estão a ligar:

  • Mapas de solo + mapas de produtividade das colhedoras;
  • Imagens de satélite e drones com índices de vegetação;
  • Sondas de humidade do solo e estações meteorológicas;
  • Registos de aplicações de fertilizantes e fitofármacos;
  • Modelos de previsão de pragas e doenças baseados em IA.

Quando estes dados comunicam entre si, surgem aplicações muito concretas:

  • Previsão de colheitas mais fiável, cruzando potencial do solo com dados meteorológicos;
  • Rega inteligente, que ajusta automaticamente as dotações por setor;
  • Deteção precoce de pragas ou deficiências nutricionais, comparando o comportamento actual da cultura com padrões históricos;
  • Rastreabilidade e certificação com base em dados reais de solo, água e fertilização.

O ponto em comum? Tudo começa no solo. Sem saber que solo tem, qualquer modelo de IA fica “meio cego”.


Quanto pode realmente poupar e ganhar com melhor conhecimento do solo?

Os valores variam consoante a cultura, o tipo de solo e o nível de intensificação, mas a experiência em explorações portuguesas e europeias aponta para ordens de grandeza claras:

  • Redução de 15–30% no custo de fertilizantes, em média, ao fim de 2–3 campanhas, mantendo ou aumentando a produtividade;
  • Aumento da produção em 5–20% em zonas onde o solo estava a ser sub‑fertilizado ou mal corrigido;
  • Melhor uniformidade das culturas, o que facilita colheita, classificação de fruta, qualidade de uvas para vinho, entre outros;
  • Menor risco ambiental, com menos lixiviação de azoto e fósforo e melhor gestão do pH.

Do ponto de vista económico, muitas explorações recuperam o investimento em serviços de cartografia digital do solo e consultoria de IA no curto e médio prazo, exatamente como referiu Luís Alcino da Conceição.

Em Portugal, onde os custos de fertilizantes dispararam nos últimos anos e a volatilidade dos preços à produção é elevada, qualquer 10% de poupança consistente em adubo tem impacto direto na margem bruta da exploração.


Como dar o primeiro passo no “campo digital” do solo

Para quem ainda está longe desta realidade, o processo não precisa de ser complicado. Um caminho realista pode seguir estes passos:

  1. Mapear necessidades e objetivos

    • Que culturas pesam mais no seu negócio?
    • Onde sente que está a gastar demasiado em fertilização ou rega?
    • Que parcelas têm maior variabilidade visual (manchas, diferenças de vigor)?
  2. Contactar um prestador de serviços de Agricultura de Precisão

    • Pedir um levantamento com amostragem georreferenciada e mapas de condutividade elétrica.
    • Definir logo à partida o objetivo: reduzir custos, corrigir pH, otimizar P e K, planear rega, etc.
  3. Integrar os resultados com quem faz a recomendação técnica

    • Envolver o técnico que o acompanha (cooperativa, empresa de rega, casa agrícola) na interpretação dos mapas.
    • Exigir planos de fertilização e rega diferenciados por zona.
  4. Começar por 1–2 talhões‑piloto

    • Testar a aplicação de dose variável ou localizada em parte da exploração.
    • Comparar custos, produção e qualidade com o maneio tradicional.
  5. Digitalizar os registos

    • Guardar tudo em formato digital (ficheiros, apps de gestão agrícola, plataformas de IA).
    • Estes dados serão a base para modelos de previsão cada vez mais robustos.

Campo Digital: o solo como ponto de partida da IA agrícola

Na série “IA na Agricultura Portuguesa: Campo Digital”, há um fio condutor claro: os dados valem tanto quanto as decisões que permitem tomar. No caso do solo, a mensagem é direta:

Quanto melhor conhece o solo, menos adubo desperdiça, mais água poupa e mais estável se torna o seu negócio.

A tecnologia – sensores, mapas, modelos de IA – não serve para complicar o dia a dia na exploração. Serve para tirar peso das decisões repetitivas e aumentar a precisão onde os erros saem caros: fertilização, rega, escolha de culturas.

Se a sua exploração ainda gere o solo com base em médias e em “sempre fiz assim”, este é provavelmente o ponto de viragem mais rentável que pode dar nos próximos anos.

O próximo passo? Escolher um talhão, um parceiro tecnológico e um objetivo claro — e começar a transformar o conhecimento do solo no verdadeiro motor digital da sua exploração.