Como o Agripro Day em Reguengos mostra, a IA na vinha já é prática: previsão de colheitas, rega inteligente e sanidade vegetal com dados, não com suposições.
Agripro Day em Reguengos: quando a tradição da vinha encontra a IA
Na última campanha, vários produtores de uva no Alentejo reportaram aumentos de produtividade entre 10% e 25% quando começaram a usar ferramentas digitais para apoio à decisão. Não foi por acaso: quem junta conhecimento agronómico, dados e tecnologia começa a fugir à média.
É exatamente neste ponto que eventos como o Agripro Day, na CARMIM em Reguengos de Monsaraz (29/11), se tornam estratégicos. Não são apenas demonstrações de máquinas; são momentos em que o campo português vê, ao vivo, como sensores, algoritmos e plataformas de IA já estão a mudar a forma como se faz viticultura e sanidade vegetal.
Este artigo integra a série “IA na Agricultura Portuguesa: Campo Digital” e usa o Agripro Day como ponto de partida para algo mais ambicioso: mostrar, com exemplos práticos, como a vinha e as cooperativas podem usar inteligência artificial para produzir melhor, gastar menos e reduzir risco.
Porque é que um evento técnico como o Agripro Day interessa a quem pensa em IA?
O Agripro Day foi pensado para associados da CARMIM, técnicos e produtores, com foco em:
- demonstrações técnicas de soluções para a campanha em curso;
- inovação aplicada à vinha;
- partilha entre equipas técnicas, parceiros e agricultores.
À primeira vista, parece “só” mais um dia de campo. Mas, na prática, é o tipo de contexto onde a agricultura de precisão e a inteligência artificial passam de conceito a ferramenta concreta. É ali que se vê, no terreno:
- sensores a recolher dados sobre solo, humidade e vigor da vinha;
- máquinas e equipamentos conectados a plataformas digitais;
- softwares que analisam informação meteorológica, modelos de doença e histórico de produção.
A realidade? Muitos agricultores portugueses já têm parte da infraestrutura que a IA precisa (GPS, registo de tratamentos, sondas, drones), mas ainda não a usam de forma integrada. Eventos técnicos servem precisamente para fazer esta ponte: do equipamento ao sistema, do dado ao apoio à decisão.
Como a IA está a entrar na vinha alentejana
A IA na agricultura portuguesa não é ficção científica. Especialmente na viticultura, há quatro áreas onde o impacto é direto e mensurável.
1. Previsão de colheitas com mais rigor
A previsão de colheita deixa de ser “olhómetro” quando se combinam:
- registos históricos de produção por talhão;
- imagens de satélite e drone (NDVI, vigor da vegetação);
- dados meteorológicos e de solo;
- informação de poda, carga de gemas e datas de rebentação.
Modelos de IA conseguem aprender o padrão de cada vinha e gerar estimativas de produção mais próximas da realidade. Para uma cooperativa como a CARMIM – com dezenas ou centenas de fornecedores – isto é ouro:
- organiza-se melhor a receção de uva;
- planeia-se a capacidade de adega e a logística;
- negoceiam‑se contratos de venda com mais segurança.
Quando o produtor e a cooperativa falam com base nos mesmos dados, desaparecem muitos conflitos clássicos da campanha.
2. Deteção precoce de pragas e doenças
Sanidade vegetal é um dos temas centrais do Agripro Day, e é também uma das áreas onde a IA já mostra resultados fortes.
Hoje é possível usar:
- imagens de drone para detetar manchas de stress hídrico ou nutricional;
- câmaras instaladas em tratores ou máquinas de pulverização que identificam automaticamente sintomas visuais (míldio, oídio, black-rot);
- modelos previsionais que cruzam dados de temperatura, humidade e molhamento foliar para indicar risco elevado de infeções.
O benefício concreto é simples:
Intervir menos vezes, mas no momento certo, com o produto certo e na parcela certa.
Para o produtor, isto traduz‑se em:
- menos tratamentos desnecessários;
- menor risco de falhas de controlo;
- poupança em produtos, combustível e horas de trabalho;
- menor impacto ambiental, algo cada vez mais escrutinado na PAC e nas certificações.
3. Rega inteligente num clima cada vez mais extremo
No Alentejo, falar de digitalização sem falar de água é perder metade do problema. A IA aplicada à rega inteligente usa:
- sondas de humidade do solo;
- dados meteorológicos (local ou de estações próximas);
- características do solo e da casta;
- estágio fenológico e objetivos de qualidade (uva para vinho jovem vs reserva, por exemplo).
Ao aprender com o histórico, o sistema recomenda quando e quanto regar em cada parcela. Em campanhas quentes e secas, isto pode significar:
- reduções de 20–30% no consumo de água;
- menor stress hídrico em momentos críticos (pinta, maturação);
- uvas mais equilibradas, com impacto direto na qualidade do vinho.
Quem já usa este tipo de solução costuma dizer o mesmo: a IA não substitui o agricultor, ajuda a decidir com menos margem para erro.
4. Rastreabilidade e dados para a cooperativa
Para cooperativas vitivinícolas, a IA é também uma aliada na organização e leitura dos dados que já existem:
- fichas de campo dos associados;
- registo de tratamentos fitossanitários;
- análises de solo, folhas e mostos;
- histórico de qualidade de uva entregue.
Plataformas com IA conseguem transformar este caos em informação útil:
- perfis de risco por produtor (sanidade, resíduos, regularidade de entrega);
- identificação de talhões com maior potencial de qualidade;
- recomendações segmentadas: quem deve focar‑se em produtividade, quem deve apostar em vinhos premium.
Isto ajuda a cooperativa a pagar melhor a quem faz melhor, com critérios claros e transparentes, e a orientar o apoio técnico onde ele gera mais retorno.
O que torna o Agripro Day um “campo de testes” para o campo digital
No artigo original, a organização destaca três pilares: demonstrações técnicas, networking e almoço‑convívio. Parece pouco tecnológico, mas é exatamente o que torna este tipo de evento poderoso para a adoção de IA.
Demonstrações técnicas: ver para acreditar
Muitos produtores só confiam em tecnologia nova depois de a ver a trabalhar numa vinha parecida com a sua. No Agripro Day, faz sentido esperar:
- equipamentos de aplicação mais precisos, muitas vezes já ligados a consolas com registo de dados;
- sensores e estações agro‑meteorológicas que alimentam modelos de sanidade vegetal;
- softwares ou apps para rega, fertilização ou monitorização da vinha.
Um bom dia de campo não mostra apenas “features”. Mostra cenários concretos:
- “Se eu tiver este sensor e esta estação, reduzo quantos tratamentos de míldio?”
- “Se usar este sistema de previsão de colheitas, como é que a cooperativa organiza melhor a vindima?”
Sempre que a resposta vem com números e exemplos locais, a adoção dispara.
Networking: onde nascem projetos de IA à escala
A digitalização agrícola em Portugal raramente é obra de um só ator. Envolve:
- empresas tecnológicas e de máquinas;
- cooperativas e associações de produtores;
- consultores e equipas técnicas;
- agricultores líderes que se atrevem a testar primeiro.
Eventos como o Agripro Day funcionam como incubadora de parcerias práticas:
- um grupo de associados combina testar uma solução de rega inteligente num conjunto de talhões;
- a cooperativa percebe que faz sentido ter um “técnico de dados” a tempo parcial;
- uma marca tecnológica encontra produtores dispostos a co‑desenvolver funcionalidades específicas para vinha.
É no café, na conversa de corredor ou no almoço‑convívio que muitas destas ideias se fecham.
Como um produtor ou cooperativa pode aproveitar melhor estes eventos
O maior erro é ir a um dia técnico “ver o que aparece”. Quem está a pensar em IA e agricultura de precisão deve chegar com um plano claro.
Antes do evento
-
Definir 2–3 problemas concretos da exploração ou da cooperativa:
- previsões de colheita muito falhadas;
- excesso de tratamentos fitossanitários;
- consumo de água pouco controlado;
- falta de dados para diferenciar pagamentos por qualidade.
-
Listar o que já existe em termos de digitalização:
- GPS em tratores;
- sensores, estações meteorológicas, contadores de água;
- registos em Excel, apps, cadernos de campo digitais.
-
Definir um orçamento indicativo, nem que seja uma ordem de grandeza (por exemplo, “até 3.000 € este ano para testar soluções numa parte da área”).
Durante o evento
- Fazer perguntas diretas aos técnicos das empresas:
- “Quanto tempo demoro a ter retorno deste investimento?”
- “Funciona bem em condições de calor e poeira do Alentejo?”
- “Tenho suporte em português e alguém que me ajude a interpretar os dados?”
- Pedir casos práticos em Portugal, de preferência em vinha e em condições climáticas semelhantes.
- Perceber se a solução integra dados com aquilo que já existe na exploração ou na cooperativa.
Depois do evento
- Escolher um projeto‑piloto pequeno, com objetivos mensuráveis num prazo de 1–2 campanhas.
- Envolver a cooperativa, quando faz sentido, para partilhar custos e resultados.
- Medir tudo: consumos de água, número de tratamentos, produtividade, qualidade da uva.
Quem trata o dia de campo como ponto de partida para um plano estruturado de campo digital começa a ver resultados muito mais rápido.
IA na agricultura portuguesa: do Agripro Day ao “Campo Digital”
O Agripro Day em Reguengos de Monsaraz é mais um sinal de que a inovação agrícola deixou de ser um tema apenas de feiras internacionais. Está a acontecer, em português, nas cooperativas e nos campos onde se decide a realidade do setor.
Nesta série “IA na Agricultura Portuguesa: Campo Digital”, a ideia é precisamente esta: mostrar que a inteligência artificial não é só para gigantes, mas para agricultores, técnicos e cooperativas que querem:
- produzir com mais previsibilidade;
- usar melhor a água e os fatores de produção;
- reduzir riscos de pragas e doenças;
- responder às exigências de mercados e certificações.
Se acompanha eventos como o Agripro Day, está um passo à frente. O desafio seguinte é claro: transformar demonstrações em decisões, e decisões em dados, para que a IA tenha matéria‑prima com que trabalhar.
A pergunta agora passa a ser: que talhão, que problema e que dado vai escolher para ser o seu primeiro (ou próximo) projeto real de campo digital?