Robôs humanoides com IA já estão a entrar no fulfilment. Veja o que muda no armazém, nos KPIs e como preparar um piloto com segurança.

Robôs humanoides com IA no armazém: o que muda
No dia 17/12/2025, o Mercado Libre confirmou que vai colocar um robĂ´ humanoide — o Digit, da Agility Robotics — para trabalhar num armazĂ©m em San Antonio, Texas. NĂŁo Ă© “demo para vĂdeo”: Ă© operação real, com foco em tarefas de apoio ao fulfilment (separação, movimentação e abastecimento de fluxos internos).
Para quem acompanha a sĂ©rie “IA no Transporte e LogĂstica”, esta notĂcia Ă© um daqueles sinais claros de mercado: a automação deixou de ser sĂł esteiras, sorters e AMRs. A prĂłxima camada Ă© a de sistemas que andam em corredores existentes, pegam em contentores (totes) e aprendem rotinas com IA, sem obrigar a redesenhar o armazĂ©m do zero.
O que interessa aos decisores de logĂstica nĂŁo Ă© o “formato humanoide” por si sĂł. O que interessa Ă© isto: quando a IA e a robĂłtica entram em funções com alta rotatividade e baixa atratividade, a operação ganha fĂ´lego — e isso repercute-se em prazos, custo por encomenda, segurança e atĂ© na capacidade de absorver picos (como Natal, Black Friday e saldos de janeiro).
Porque Ă© que um robĂ´ humanoide faz sentido (e quando nĂŁo faz)
Um robĂ´ humanoide sĂł faz sentido quando resolve um problema concreto: variabilidade. ArmazĂ©ns tĂŞm variabilidade todos os dias: mudanças de SKU, layouts “vivos”, urgĂŞncias, rework, devoluções, faltas de pessoal e exceções que um sistema rĂgido nĂŁo lida bem.
A promessa do Digit — e de outros humanoides industriais que estão a entrar em testes — é simples: operar em ambientes desenhados para humanos, usando corredores, portas, áreas de staging e contentores existentes. Segundo a Agility Robotics, o Digit já moveu mais de 100.000 totes em operações comerciais ao vivo, e integra-se com software de gestão de frotas robóticas.
O “ponto doce” de uso
Na prática, o melhor encaixe inicial tende a ser:
- Movimentação repetitiva de contentores entre zonas (receção → buffer → picking → pack)
- Reposição interna e alimentação de linhas (abastecer postos de trabalho)
- TransferĂŞncias curtas e frequentes que consomem muitas horas de marcha do operador
É trabalho essencial, mas muitas vezes:
- cansa,
- gera lesões por repetição e esforço,
- tem alta rotatividade,
- e Ă© difĂcil de escalar em picos.
Onde eu teria cuidado
Most companies get this wrong: tentam começar pelo “mais difĂcil” para provar tecnologia. Humanoides ainda podem falhar em:
- manuseamento de itens soltos muito variados (objetos frágeis, deformáveis, irregulares)
- ritmos extremos sem estabilidade operacional
- ambientes com piso irregular, molhado ou muito congestionado
O acerto do Mercado Libre aqui é começar com tarefas de suporte ao fulfilment, onde o impacto é grande e o risco é controlável.
O que o caso Mercado Libre diz sobre IA na logĂstica
A decisĂŁo de testar o Digit nĂŁo Ă© apenas “automação”. É uma peça de uma estratĂ©gia maior: IA como motor de eficiĂŞncia na cadeia logĂstica.
Quando falamos de IA no transporte e logĂstica, a conversa costuma ficar em roteirização, ETA, otimização de rotas e gestĂŁo de frotas. Tudo isso continua crĂtico. SĂł que há um detalhe: o armazĂ©m Ă© o coração do tempo de ciclo. Se o armazĂ©m atrasa, o transporte sĂł “carrega” o atraso.
Uma regra que funciona: a melhor otimização de rotas não compensa um fulfilment lento.
A ponte armazém–transporte (onde a IA realmente paga)
Humanoides e outros robôs ganham valor quando conectados a decisões de IA que orquestram a operação ponta a ponta:
- PrevisĂŁo de procura para dimensionar turnos e buffers
- Otimização de ondas (waves) e prioridades de picking com base em SLAs
- Alocação dinâmica de tarefas (humanos vs robôs) em tempo real
- Gestão de pátio (yard) e docas para reduzir tempos mortos
- Planeamento de carga e cut-off alinhados com transportadoras
O Digit é “corpo”. A IA é “cérebro” — e o ROI aparece quando cérebro e corpo trabalham no mesmo plano operacional.
O que muda na operação do armazém (métricas que importam)
O impacto real de um humanoide nĂŁo se mede por quantos vĂdeos virais ele gera. Mede-se por KPIs de chĂŁo de armazĂ©m. Eu olharia para cinco, nesta ordem:
- Custo por encomenda (cost per order)
- Throughput por hora (encomendas/hora, totes/hora, linhas/hora)
- Tempo de ciclo (pedido → expedido)
- Taxa de incidentes de segurança (quase-acidentes, ergonomia, afastamentos)
- Qualidade (erros de separação, danos, devoluções por falha)
O ganho menos Ăłbvio: previsibilidade
ArmazĂ©ns sofrem quando o desempenho varia muito entre turnos, equipas e perĂodos do dia. Robots trazem uma vantagem prática: ritmo estável. E previsibilidade Ă© ouro para transporte:
- melhor sequenciamento de docas,
- menos espera de camiões,
- menor risco de perder janelas,
- ETAs mais fiáveis.
É aqui que a narrativa “IA no transporte” encaixa perfeitamente: um armazĂ©m previsĂvel alimenta um transporte inteligente.
Como preparar um armazém para robôs humanoides (sem reinventar tudo)
A notĂcia destaca que o Digit consegue encaixar em instalações padrĂŁo “sem mudanças caras”. Eu concordo, mas com uma ressalva: sem mudanças estruturais nĂŁo significa sem preparação.
Checklist prático para um piloto bem feito
Se eu estivesse a desenhar um piloto de humanoides (ou AMRs avançados) para 2026, eu exigiria:
- Mapeamento de processos: onde existe marcha desnecessária? onde há gargalo recorrente?
- Definição de tarefas com fronteiras claras: inĂcio/fim, exceções, regras de segurança
- Padronização de contentores e pontos de pickup/drop: menos variação, mais estabilidade
- Dados operacionais limpos: WMS atualizado, localização confiável, cadastros consistentes
- Integração mĂnima com WMS/WES: nĂŁo precisa ser “perfeito”, mas tem de ser robusto
- Métricas de sucesso desde o dia 1: baseline antes do piloto, metas semanais, governança
Segurança não é “compliance”, é produtividade
Robôs em corredores com humanos exigem disciplina: rotas, sinalização, regras de ultrapassagem, zonas de cruzamento, e procedimentos de paragem.
O ponto é simples: se a equipa não confiar no robô, a operação trava. E aà o projeto morre por atrito, não por tecnologia.
“E os empregos?” A conversa que lĂderes precisam ter
Há um jeito honesto de abordar isto: robĂ´s nĂŁo chegam porque “faltam pessoas”, chegam porque faltam pessoas para certos tipos de trabalho, a certos preços, com certas exigĂŞncias fĂsicas.
O prĂłprio discurso de mercado tem sido focado em funções “difĂceis de preencher” e “alta rotatividade”. Na prática, o que costuma acontecer nos projetos bem geridos Ă©:
- menos pessoas em marcha e carga repetitiva,
- mais pessoas em qualidade, exceções, supervisĂŁo, melhoria contĂnua,
- necessidade maior de formação técnica (operações + tecnologia).
Se a sua empresa está a pensar em automação com IA, trate isto como um programa de transformação, não como compra de equipamento.
O que esperar em 2026: do piloto ao portfĂłlio de casos de uso
O Mercado Libre disse que vai explorar casos adicionais para ampliar o uso em armazéns da América Latina. Faz sentido por três motivos bem concretos:
- Escala: mais sites = mais dados = melhor curva de aprendizagem operacional.
- Repetição: as tarefas “de totes” e movimentações internas repetem-se em quase todo armazém.
- PressĂŁo sazonal: fim de ano Ă© prova de stress. Se ajuda em picos, vira prioridade.
Eu aposto que a evolução natural (para Mercado Libre e para o mercado) vai passar por:
- humanoides a operar em turnos estendidos (noite e madrugada)
- coordenação com frotas de AMRs (humanoide para zonas mistas; AMR para rotas dedicadas)
- IA a fazer orquestração em tempo real (tarefas, filas, prioridades, energia, manutenção)
A empresa que ganhar aqui não é a que tem “mais robôs”. É a que tem melhor sistema de decisão.
PrĂłximos passos: como transformar esta tendĂŞncia em projeto (e leads)
Se a sua operação está a considerar IA aplicada Ă logĂstica, este caso Ă© um bom gatilho para fazer trĂŞs perguntas internas, ainda este mĂŞs:
- Onde o armazém está a “quebrar” nos picos? (mão de obra, fluxo, docas, exceções)
- Que tarefas têm alta rotatividade e baixa estabilidade? (as candidatas naturais à automação)
- Quais decisões hoje são “no feeling” e podiam ser suportadas por dados? (prioridades, waves, alocação)
Se quiserem, eu recomendo começar com um diagnĂłstico rápido de 2 semanas: baseline de KPIs, mapeamento de fluxo e desenho de um piloto com metas objetivas (custo por encomenda, throughput, incidentes). A partir daĂ, sim, faz sentido discutir robĂ´s humanoides, AMRs, WES, visĂŁo computacional e a camada de IA.
O recado final para quem acompanha a sĂ©rie IA no Transporte e LogĂstica Ă© direto: o transporte inteligente precisa de um armazĂ©m inteligente. E, em 2026, “armazĂ©m inteligente” vai significar cada vez mais IA a coordenar pessoas, robĂ´s e transporte como um sĂł sistema.
A pergunta certa para 2026 não é “vamos ter robôs humanoides?”. É: qual parte do nosso fluxo ainda depende de improviso?