IA na logística: como ler o TCI e decidir melhor

IA no Transporte e LogísticaBy 3L3C

Entenda o TCI e aplique IA na logística para otimizar rotas, capacidade e custos. Decida melhor entre spot e contrato e ganhe eficiência.

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IA na logística: como ler o TCI e decidir melhor

Em janeiro de 2023, o Trucking Conditions Index (TCI) da consultoria FTR subiu para -1,71, depois de -6,1 em dezembro e -7,94 em novembro. Continua negativo, mas a melhora mensal foi clara. Esse tipo de virada “menos ruim” é exatamente o momento em que muita empresa escorrega: relaxa demais nos custos, ou fica conservadora demais e perde janela de compra de frete.

Eu gosto de pensar no TCI como um termómetro de pressão do mercado de transporte rodoviário. Quando ele sai de um fundo do poço e começa a recuperar, a pergunta prática não é “o mercado está bom?”. É outra: o que eu faço agora para capturar eficiência antes que o pêndulo volte?

Neste artigo da série “IA no Transporte e Logística”, vou traduzir o que o TCI sinaliza (mesmo sendo um índice dos EUA) e, principalmente, mostrar como IA e analytics ajudam a transformar sinais do mercado em decisões melhores de roteirização, gestão de frotas, contratação de transportadoras, uso de spot vs. contrato e controlo de custos (diesel, ociosidade e financiamento).

O que o TCI mede (e por que um número negativo ainda pode ser útil)

O ponto central é simples: TCI acima de zero indica um ambiente “adequado” para transportadoras; acima de 10 sugere volumes, preços e margens confortáveis para o transportador. Já valores negativos mostram pressão — normalmente combinação de demanda fraca, excesso de capacidade, custos altos ou baixa utilização.

No recorte citado, o índice teve o pior momento em outubro de 2022 (-11,25), o nível mais baixo desde abril de 2020 (período de choque pandémico). Em janeiro de 2023, a melhora foi atribuída pela FTR a:

  • Volumes e taxas mais fortes,
  • parcialmente compensados por utilização mais fraca,
  • e um ambiente de custos de combustível menos favorável do que em dezembro.

Leitura prática para embarcadores, 3PL e operadores

Mesmo que a tua operação seja em Portugal ou no Brasil, a lógica do índice é universal: ele descreve o equilíbrio entre capacidade, preço, custo e utilização.

  • Se o índice melhora, mas segue negativo, normalmente existe capacidade disponível e espaço para negociar.
  • Se a melhora vem com taxas a subir e utilização a cair, o mercado pode estar a “reprecificar” antes de recuperar de verdade — e isso pede atenção nos contratos.

Um índice negativo não é “boa notícia” automaticamente. É um aviso: dá para ganhar eficiência agora, mas o mercado continua instável.

O “novo normal” do frete: por que a volatilidade virou regra

A própria FTR sinalizou, à época, uma expectativa de leituras consistentemente negativas até o 3º trimestre de 2024, com um detalhe crucial: oscilações no preço do diesel podem criar “outliers”. Traduzindo para o dia a dia: o teu custo pode mudar sem que o teu volume mude, e isso desmonta budgets e SLAs.

Além disso, o texto chama a atenção para um fator que muitas equipas de logística subestimam: custo de financiamento. Juros altos apertam caixa e encarecem capital de giro, e isso tende a afetar transportadoras menores mais do que grandes frotas. Quando pequenas saem do mercado, a capacidade “seca” de um mês para o outro.

O erro comum: gerir transporte só por preço do frete

Most companies get this wrong: olham apenas para a tabela (spot/contrato) e ignoram as variáveis que mexem no resultado final:

  • Ociosidade (tempo parado custa, e custa muito)
  • Reentregas e falhas de janela
  • Kilometragem vazia
  • Diesel e pedágios
  • Risco de ruptura (falta de camião na semana crítica)

É aqui que IA no transporte deixa de ser “tema de inovação” e vira higiene operacional.

Como a IA transforma sinais do mercado em decisões operacionais

A resposta direta: IA conecta indicadores externos (como tendências de taxas, diesel e capacidade) com dados internos (OTIF, ocupação, tempos, recusas, custo por rota) para decidir melhor todos os dias — não só no RFP anual.

1) Previsão de demanda e planeamento de capacidade

Quando o mercado melhora “por etapas” (como o TCI mostrou), a empresa que planeia com antecedência reduz dependência do spot nos piores momentos.

O que funciona na prática:

  • Modelos de previsão de volumes por região/cliente/SKU (com sazonalidade)
  • Sinais de risco de pico (fim de ano, campanhas, feriados, Black Friday, pico alimentar e farmacêutico)
  • Simulações de capacidade: “se eu crescer 12% em janeiro, onde rebenta primeiro?”

Em dezembro de 2025, isto é ainda mais relevante: muita operação entra em janeiro com ressaca de pico, devoluções e replaneamento de malha. IA ajuda a evitar que janeiro vire “mês do improviso”.

2) Otimização de rotas e redução de quilómetros vazios

A resposta direta: roteirização com IA reduz custo total quando considera restrições reais (janelas, tempos de carga, trânsito, paragens, docas e limites de condução).

Um bom otimizador não “desenha rotas bonitas”; ele minimiza custo total ponderando:

  • tempo de espera por CD/cliente
  • risco de atraso por faixa horária
  • probabilidade de recusa/insucesso
  • custo de diesel (e variação por região)

Resultado típico (quando a base de dados está minimamente limpa): redução de quilómetros, aumento de ocupação e melhoria de OTIF.

3) Gestão de frota e manutenção preditiva

Quando o ambiente é negativo para transportadoras (margem pressionada), qualquer paragem inesperada vira prejuízo. Manutenção preditiva com IA cruza telemetria (temperatura, vibração, consumo, erros) com histórico de oficina para:

  • antecipar falhas
  • programar paragens fora do pico
  • reduzir quebras em rota

E aqui há uma vantagem indireta: mais confiabilidade operacional melhora negociação com embarcadores e reduz custo de “apagar incêndio”.

4) Precificação inteligente e escolha spot vs. contrato

A pergunta que aparece sempre: “Devo travar contrato agora ou aproveitar spot?”

A melhor resposta é quantitativa: depende da volatilidade do teu lane e do teu risco de ruptura. IA ajuda a decidir com regras claras:

  • Lanes estáveis + alta criticidade → mais contrato
  • Lanes voláteis + baixa criticidade → mix com spot
  • Pico sazonal → capacidade reservada (mesmo pagando um pouco mais)

Um modelo simples (mas poderoso) é criar um score de lane combinando:

  • variância histórica de preço
  • taxa de atraso
  • incidência de devolução/reentrega
  • elasticidade de demanda
  • custo de stockout (quanto custa ficar sem entregar)

Isso é “IA aplicada” do jeito certo: decide onde gastar energia de negociação.

Um playbook rápido (90 dias) para aplicar IA no transporte

A resposta direta: dá para começar pequeno e gerar resultado rápido, desde que o projeto tenha dono e métricas.

Semana 1–2: base de dados e métricas mínimas

  • Padroniza cadastro de origem/destino e janelas
  • Fecha definições: custo por entrega, custo por km, OTIF, tempo de doca, taxa de reentrega
  • Garante integração (nem que seja por exportação diária) do TMS/ERP

Semana 3–6: pilotos de alto impacto

Escolhe 1–2 casos de uso:

  1. Roteirização IA numa região específica
  2. Detecção de anomalias (fretes fora da curva; cobranças duplicadas; desvios de km)

Define metas objetivas, por exemplo:

  • -5% no custo por entrega
  • -8% em km vazios
  • +2 p.p. em OTIF

Semana 7–12: escala e governança

  • Cria rotina semanal de “war room” com logística + compras + operação
  • Automatiza relatórios de performance por transportadora
  • Negocia com dados: remunera melhor quem entrega melhor (não só quem cobra menos)

A melhor tecnologia do mundo falha se a empresa não tiver disciplina de decisão.

Perguntas que líderes de logística fazem (e respostas objetivas)

“Se o mercado está negativo, por que eu preciso de IA agora?”

Porque ambiente negativo costuma mascarar ineficiências. Quando o ciclo virar, a conta aparece. IA serve para melhorar custo e serviço antes da pressão voltar.

“IA substitui TMS?”

Não. Na maioria dos casos, IA complementa o TMS: otimiza, prevê, recomenda e monitora. O TMS executa e registra.

“Qual o primeiro indicador que mostra que está a funcionar?”

Eu iria de custo por entrega e tempo de doca. São difíceis de maquiar e normalmente explicam boa parte da margem.

O que a melhora do TCI ensina (e como aproveitar em 2026)

O TCI melhorando de -7,94 (novembro) para -1,71 (janeiro) mostra um mercado a respirar, mas ainda longe do conforto. Para quem opera transporte, isso é um convite a agir com precisão: renegociar onde faz sentido, proteger capacidade onde dói, e cortar desperdício operacional sem cair no “corta-corta” cego.

Na prática, a vantagem competitiva em transporte rodoviário já não vem só de ter mais camiões ou mais fornecedores. Vem de decidir melhor, todos os dias, com IA na logística, otimização de rotas, gestão de frotas, previsões e um controlo de custos que não dependa de feeling.

Se queres levar esta agenda para 2026, a pergunta que eu deixo é direta: na tua operação, o frete ainda é tratado como compra de preço — ou como engenharia de performance?

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