Parcerias no carga aérea: onde a IA dá retorno

IA no Transporte e LogísticaBy 3L3C

Parcerias em carga aérea pedem previsibilidade. Veja como IA melhora handling, SLAs e otimização de rotas com ganhos práticos em eficiência.

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Parcerias no carga aérea: onde a IA dá retorno

Em carga aérea, 2 minutos no armazém viram horas na cadeia. Na semana passada (17/12/2025), a Saudia Cargo renovou o contrato de handling com a Worldwide Flight Services (WFS) em oito gateways internacionais — seis na Europa (Amsterdam, Bruxelas, Frankfurt, Paris CDG, Londres Heathrow e Manchester) e dois nos EUA (Nova Iorque JFK e Washington Dulles). Para quem vive operações, isto não é “só” um acordo comercial: é uma decisão que mexe em SLA, previsibilidade, custos e capacidade de escalar.

A minha leitura é direta: parceria longa e renovada só funciona quando o processo é medido e melhorado continuamente. E, em 2026, melhorar sem usar dados e IA é deixar dinheiro (e serviço) em cima da mesa. Neste artigo da série IA no Transporte e Logística, vou usar o caso Saudia Cargo + WFS como ponto de partida para explicar onde a IA realmente ajuda em cargo handling, planeamento de rotas aéreas, gestão de capacidade e controlo de qualidade — com ideias práticas para aplicar já.

O que uma renovação destas diz sobre eficiência operacional

Uma renovação multi-gateway diz uma coisa: o desempenho foi consistente o suficiente para justificar continuidade. Em carga aérea, consistência é o nome do jogo porque a operação é uma sequência de handoffs: receção, pesagem, triagem, raio-X, ULD build-up/breakdown, transferência para placa, e depois o inverso na chegada.

Quando um handler cobre hubs críticos como Heathrow, CDG, Frankfurt ou JFK, o impacto vai além do aeroporto:

  • Menos variabilidade no tempo de manuseamento reduz o risco de “perder o voo” e pagar reacomodação.
  • Padrões de qualidade repetíveis diminuem avarias, claims e incidentes de segurança.
  • Integração operacional (processos e sistemas) acelera ramp-up quando há expansão para novos destinos.

E há um detalhe que muita gente subestima: o pico de fim de ano. Em dezembro, há mais pressão em capacidade, mais urgência (e-commerce, reposições rápidas, itens de alto valor) e mais sensibilidade a atrasos. Um contrato renovado nesta altura normalmente reflete uma prioridade: não mexer no que está a funcionar — mas também não ficar parado.

O ponto cego das parcerias: “funciona” não significa “está otimizado”

Eu já vi operações em que o SLA “bate”, mas o custo por quilo (ou por ULD) está a crescer sem ninguém perceber porquê. Sem instrumentação e analítica, a parceria fica refém de perceções.

A IA entra aqui como mecanismo de disciplina: ela obriga a operação a responder a perguntas concretas como:

  • Quais são os voos com maior probabilidade de offload por falta de tempo em armazém?
  • Em que janelas o gargalo é segurança/raio-X vs. build-up vs. transferência para placa?
  • Quais rotas e dias têm mais no-shows e porquê?

Onde a IA gera ganhos reais em cargo handling (sem promessas vagas)

A IA não substitui o armazém. Ela tira fricção: decide melhor, mais cedo, e com base em padrões difíceis de ver “a olho”. Em cargo handling, os casos de uso que mais dão retorno costumam cair em quatro blocos.

Previsão de volumes e dimensionamento de equipas

A primeira vitória é simples: prever volume com granularidade (por companhia, destino, tipo de carga, dia da semana, faixa horária). Isso melhora:

  • Escalas e turnos
  • Alocação de docas e zonas de armazenamento
  • Planeamento de equipamentos (empilhadores, ULD dollies, balanças, scanners)

Modelo prático: previsão baseada em histórico + sazonalidade + eventos (feriados, promoções, restrições de capacidade). O objetivo não é “acertar sempre”; é reduzir surpresa.

Frase que eu gosto de usar internamente: “previsão não elimina pico, elimina pânico.”

ETA/ETD operacional e previsão de atrasos no armazém

No armazém, o “horário” do voo é um referencial. O que manda mesmo é a sequência operacional. IA/ML ajuda a prever:

  • Probabilidade de atrasos por tipo de carga (perecíveis, farmacêuticos, DG)
  • Tempo de processamento por etapa
  • Risco de perda de cut-off

Com isso, dá para implementar uma fila inteligente:

  1. Identificar expedições com maior risco de falhar cut-off
  2. Priorizar inspeção/triagem/build-up
  3. Replanejar recursos antes do gargalo “estourar”

Otimização de ULD build-up e utilização de capacidade

ULD é onde o dinheiro “aparece” (ou desaparece). IA pode sugerir combinações de carga para:

  • Melhorar cubagem/peso respeitando limites e regras
  • Minimizar manipulações (menos rework)
  • Reduzir offload por má planificação

Isto conversa diretamente com otimização de rotas e rede: quando o build-up é mais eficiente, a companhia ganha flexibilidade para aceitar mais carga premium e gerir melhor overbooking.

Qualidade e segurança com visão computacional

Visão computacional tem um papel muito concreto:

  • Verificação de integridade de embalagens e paletes
  • Leitura automática de etiquetas e reconciliação com manifesto
  • Deteção de anomalias em áreas restritas

Não é “fiscalizar pessoas”. É reduzir falhas repetitivas e criar rastreabilidade.

Gateways múltiplos: a complexidade que a IA ajuda a domar

O acordo Saudia Cargo + WFS cobre hubs na Europa e EUA, e ainda há suporte em outros pontos como Liège, Bengaluru, Bangkok, Joanesburgo e Los Angeles. Este desenho cria um desafio clássico: a operação não é uma operação — são várias operações com variações locais.

A diferença entre um gateway e outro pode incluir:

  • Regras de segurança e tempos de inspeção
  • Restrições de slot e congestionamento de placa
  • Perfil de carga (mais e-commerce num, mais pharma noutro)
  • Maturidade de digitalização

Como padronizar sem engessar

A abordagem que funciona é ter um “core” de KPIs globais e permitir ajustes locais. A IA ajuda porque aprende padrões locais sem obrigar processos 100% idênticos.

Um pacote mínimo de KPIs para handling multi-gateway:

  • Tempo de ciclo (receção → pronto para build-up; break-down → disponível)
  • % de expedições processadas antes do cut-off
  • Taxa de rework (paletes refeitas, documentação corrigida)
  • Avarias e incidentes
  • Precisão de rastreabilidade (scan compliance)

E aqui vai um detalhe que traz resultado: não use só médias. Use percentis (p50/p90/p95). A média esconde o dia em que tudo correu mal.

Do contrato ao valor: SLAs “inteligentes” com analítica e IA

Muita empresa ainda escreve SLA como se fosse 2010: tempos fixos e penalidades genéricas. Dá conflito e pouco aprendizado.

SLAs modernos (e mais justos) incorporam duas ideias:

  1. Medição transparente e partilhada (mesmas definições, mesma fonte de dados)
  2. Gestão por risco, não só por resultado final

O que muda quando você põe IA no centro da parceria

Quando se cria um “painel comum” (companhia + handler), a conversa muda de “culpa” para “causa”. Exemplos de métricas acionáveis:

  • Top 10 causas de atraso por etapa (com tendência semanal)
  • Mapa de calor por hora/doca/zona
  • Previsão de backlog para as próximas 6–12 horas
  • Alertas de risco de cut-off por voo

Na prática, isso reduz reuniões intermináveis e aumenta ações pequenas, constantes.

Checklist: como começar com IA em carga aérea sem travar o projeto

Se o objetivo é eficiência e leads (e não um piloto eterno), eu começaria com um roteiro de 30 a 60 dias.

1) Escolha um problema com dono e métrica

Exemplos bons:

  • Reduzir falhas de cut-off em X%
  • Reduzir tempo de ciclo em Y minutos
  • Aumentar utilização de ULD em Z%

Sem dono e sem métrica, vira “projeto de dados”.

2) Faça inventário de dados operacionais

Normalmente você já tem:

  • Eventos de scan (timestamps)
  • Manifests e AWB (estrutura e conteúdo)
  • Registos de exceção (rework, incidentes)
  • Dados de voo (ETD/ETA, alterações)

A lacuna mais comum é qualidade de timestamp e padronização de eventos.

3) Entregue valor com um produto simples

Um bom primeiro “produto” é:

  • Dashboard de fluxo + previsão de backlog
  • Alertas de risco de cut-off
  • Recomendações de priorização (fila)

Depois, sim, você evolui para otimização avançada (ULD e rede).

4) Integre com a rotina do armazém

Se a recomendação não aparece onde o operador decide, ela não existe. Integração típica:

  • TMS/CTS do armazém
  • Dispositivos móveis de scan
  • Painéis na área operacional

O que este caso ensina para 2026 (e o que eu faria a seguir)

A renovação Saudia Cargo + WFS sinaliza uma aposta clara em fiabilidade operacional em gateways críticos. Isso é estratégico, especialmente num mercado em que capacidade e pontualidade continuam a separar operações boas de operações excelentes.

Mas a próxima camada de eficiência vem de outro lugar: IA aplicada ao fluxo real, com dados de eventos, previsões e decisões automatizadas (ou semi-automatizadas) em tempo útil. A parceria fica mais forte quando ambos os lados partilham um “sistema nervoso” comum: métricas, alertas e melhoria contínua.

Se você gere transporte, logística ou operações de carga aérea, a pergunta prática é: o seu SLA mede o que realmente antecipa falhas — ou só descreve o que já aconteceu?

Quer transformar handling e rede aérea em vantagem operacional? Comece por um caso de uso de previsão e priorização. É o tipo de IA no transporte e logística que paga a conta rapidamente e cria base para otimização de rotas e capacidade.