Hermes na manufatura: base para IA e linhas flexíveis

IA no Transporte e LogísticaBy 3L3C

Hermes padroniza a comunicação entre máquinas e prepara dados para IA na manufatura. Veja como reduzir integrações, acelerar projetos e ganhar rastreabilidade.

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Hermes na manufatura: base para IA e linhas flexíveis

A maior parte dos projetos de IA na indústria não falha por falta de algoritmo. Falha por falta de dados confiáveis, padronizados e rastreáveis entre máquinas.

Num momento em que cadeias logísticas estão mais sensíveis a atrasos (e 2025 fechou com pressão forte por entregas mais rápidas e previsibilidade, especialmente em setores como mobilidade e transporte), a eletrónica industrial virou um gargalo silencioso: se uma linha de SMT para, o impacto chega ao planeamento, ao armazém e ao cliente final.

É aqui que entra o Hermes Standard (comunicação máquina-a-máquina em linhas de eletrónica). Ele não é “só mais um protocolo”. Na prática, Hermes funciona como um idioma comum para que equipamentos diferentes troquem informação de forma consistente — e isso cria a base para IA aplicada a qualidade, manutenção preditiva e otimização de fluxo, temas centrais desta série IA no Transporte e Logística.

Hermes resolve um problema real: dados de linha que não conversam

Resposta direta: Hermes reduz atrito de integração ao padronizar a comunicação entre máquinas em linhas de fabrico eletrónico (por exemplo, SMT), melhorando rastreabilidade e fluxo — pré-requisitos para IA funcionar bem.

Em muitas fábricas, a integração entre impressoras de pasta, pick-and-place, fornos, AOI e células de manuseamento ainda depende de:

  • integrações ponto a ponto feitas “à medida”
  • parametrizações que mudam de fornecedor para fornecedor
  • sinais e estados interpretados de formas ligeiramente diferentes

O resultado é conhecido: paragens na integração, ajustes de última hora, e dados “quebrados” para analytics. Se o objetivo é usar IA para prever falhas, detetar deriva de processo ou reduzir refugos, a base precisa ser estável.

Uma frase que eu uso muito em projetos industriais: IA sem standard vira um projeto de ETL infinito.

O caso haprotec: quando o standard poupa tempo (e fecha projetos)

Resposta direta: para um construtor de máquinas, Hermes diminui esforço de desenvolvimento e acelera comissionamento — o que reduz custo e risco de prazo.

No artigo original, o construtor de máquinas haprotec descreve a implementação de Hermes numa solução de manuseamento para processo de envernizamento e secagem de PCBs (placas de circuito). O cenário é típico: um integrador/maquinista precisa ligar o seu equipamento a máquinas de diferentes marcas numa linha.

O ponto mais interessante não é “Hermes funciona”. É como isso se traduz em valor:

  • Em vez de programar a interface do zero, a haprotec optou por usar uma biblioteca pronta para PLC (SIMATIC).
  • Houve desafios normais (por exemplo, memória disponível na CPU e pequenos ajustes com máquinas de outros fabricantes).
  • Ainda assim, o saldo foi claramente positivo: menos esforço, mais rapidez, e menor custo.

O depoimento é pragmático: ao evitar reprogramar a interface, o projeto ficou mais fácil de cumprir no prazo. E prazo, em automação industrial, é dinheiro — e reputação.

“Não tivemos de programar a interface do zero, poupou muito esforço… e ajudou a cumprir o cronograma.”

Onde a poupança aparece de verdade

Resposta direta: a poupança vem de reduzir desenvolvimento, testes e retrabalho na integração.

O entrevistado aponta que, em aplicações mais simples (por exemplo, uma linha SMT com uma célula robótica), usar Hermes ao nível de PLC pode representar economias na ordem de quatro a cinco dígitos quando comparado com soluções mais pesadas via sistemas supervisórios/“leit-system”.

Mesmo sem entrar em valores absolutos (que variam por país e escopo), o raciocínio é sólido:

  • menos código customizado
  • menos ciclos de validação
  • menos risco de “surpresas” no comissionamento
  • mais previsibilidade para orçamentos e propostas

Para um integrador, isto também é vantagem comercial: fica mais fácil apresentar uma alternativa que cabe no budget do cliente.

Por que Hermes é combustível para IA (e não só para automação)

Resposta direta: Hermes melhora a qualidade e consistência do dado de produção; isso aumenta a precisão de modelos de IA e viabiliza casos como manutenção preditiva e controlo de qualidade.

A maioria das iniciativas de IA em manufatura depende de três coisas:

  1. Dados certos (sem lacunas e sem “gambiarras” de interpretação)
  2. Contexto (qual placa, qual receita, qual estado da máquina, qual evento ocorreu)
  3. Rastreabilidade (linha do tempo do produto e do processo)

Hermes ajuda principalmente em (1) e (2) porque padroniza eventos e troca de informação máquina a máquina — especialmente útil em linhas com mix de produtos e mudanças frequentes.

Exemplos práticos de IA habilitados por Hermes

Resposta direta: com comunicação padronizada, fica mais simples alimentar modelos e criar correlações entre eventos da linha e defeitos, paragens ou atrasos.

Alguns casos onde vejo valor imediato:

  • Qualidade com IA (defeitos correlacionados ao fluxo): cruzar rejeições do AOI com eventos de manuseamento/roteamento, identificando padrões (ex.: determinado caminho de board aumenta microdefeitos).
  • Manutenção preditiva orientada a eventos: usar estados/eventos consistentes entre máquinas para detetar anomalias (ex.: aumento de “esperas” antes de entrada em estação, indicando desgaste mecânico ou desalinhamento).
  • Otimização de throughput: modelos que recomendam ajustes de sequenciamento e roteamento quando há mix alto de produtos.

A ideia central: IA precisa de sinais confiáveis. Hermes não cria IA, mas reduz o caos que impede a IA de escalar.

Integração IT/OT: o caminho curto para MES e rastreabilidade

Resposta direta: Hermes simplifica o lado OT (chão de fábrica), o que diminui complexidade para conectar MES, analytics e aplicações de IA.

Quando a linha fala um “idioma comum”, a conversa com sistemas acima (MES, data lake, monitorização, dashboards) fica mais objetiva. Não significa “plug-and-play” em 100% dos casos — e o próprio artigo reconhece isso — mas a diferença é grande.

O ponto sensível, que muita gente descobre tarde: um standard ainda pode ser implementado com variações. Alguns OEMs adaptam detalhes da especificação às suas máquinas. Resultado: durante a integração da linha, podem surgir ajustes.

Como evitar fricção de compatibilidade na prática

Resposta direta: alinhar escopo de Hermes e casos de uso antes do comissionamento reduz retrabalho.

Um mini-checklist que costuma funcionar bem (e evita dias perdidos na rampa final):

  1. Definir o que “Hermes suportado” significa no contrato: quais mensagens, quais estados, quais exceções.
  2. Validar cedo com um teste de bancada: uma máquina “falante” e outra “ouvinte”, simulando cenários comuns.
  3. Dimensionar PLC/CPU com folga: memória e desempenho não podem ser surpresa.
  4. Padronizar nomenclaturas e IDs: identificar boards, receitas, lotes e eventos de forma coerente.
  5. Planear observabilidade: logs e traces de comunicação para diagnosticar rapidamente.

Este é o tipo de rigor que, honestamente, torna projetos de IA mais “chatos” no início… e muito mais bem-sucedidos depois.

O que isto tem a ver com Transporte e Logística? Mais do que parece

Resposta direta: linhas eletrónicas alimentam produtos de mobilidade e infraestrutura; quando a produção é previsível e rastreável, a logística fica mais estável.

O artigo menciona um grande centro de desenvolvimento e fabrico para automação ferroviária, com milhares de colaboradores, onde a flexibilidade e integração vertical importam. Em setores ligados a transporte (ferrovia, sinalização, eletrónica embarcada), o impacto é direto:

  • Menos paragens → menos replaneamento de expedições
  • Mais previsibilidade de lead time → melhor planeamento de materiais
  • Rastreabilidade → resposta mais rápida a não conformidades (evita recalls amplos)

Na prática, padronizar comunicação no chão de fábrica é uma forma de melhorar também o “upstream” e o “downstream” da logística.

Próximos passos: como decidir se Hermes é para a sua linha

Resposta direta: Hermes faz mais sentido quando há equipamentos multi-vendor, mudanças frequentes de produto e metas de rastreabilidade/IA.

Se eu tivesse de resumir numa decisão simples, eu olharia para estes sinais:

  • A sua linha tem máquinas de vários fabricantes e a integração consome tempo.
  • Você quer ligar MES/analytics/IA e sofre com dados inconsistentes.
  • O mix de produção é alto e precisa de roteamento flexível.
  • Projetos atrasam por “detalhes” de interface e validação.

Quando dois ou mais destes pontos são verdade, Hermes tende a pagar-se rápido — não só por poupança de engenharia, mas por reduzir risco de prazo e facilitar escalabilidade.

A pergunta que deixo para fechar (e que vale para 2026, quando as exigências de rastreabilidade devem apertar ainda mais): a sua estratégia de IA está apoiada em standards… ou em integrações frágeis que só uma pessoa da equipa sabe manter?


Se quiser, posso ajudar a transformar este diagnóstico em um roteiro prático: quais máquinas priorizar, que dados recolher primeiro e como preparar a base para casos de IA como manutenção preditiva e qualidade automatizada.