Stablecoin lastreada no real e na Selic muda o jogo do capital estrangeiro. Veja onde IA e automação entram em risco, compliance e escala.

Stablecoin do real e Selic: o que isso diz sobre IA
A Selic é tão “exportável” quanto a soja. Só que, em vez de embarcar em navio, ela pode viajar como token. Foi essa a aposta de John Delaney, advogado americano que criou uma startup para emitir uma stablecoin lastreada em real e remunerada, na prática, pelo carrego dos títulos públicos brasileiros.
O detalhe que muita gente perde: uma stablecoin baseada em real não é só um produto cripto. Ela é uma peça de infraestrutura que mexe com onboarding de investidor estrangeiro, liquidação, compliance e gestão de risco. E é aí que a conversa fica realmente interessante para quem acompanha a série “IA no Setor Financeiro e FinTech”: sem automação e modelos inteligentes, esse tipo de operação não escala com padrão institucional.
Nos próximos minutos, vou destrinchar o que o caso da BRLV (stablecoin 100% lastreada em real) sinaliza sobre o futuro dos pagamentos e investimentos transfronteiriços — e, principalmente, onde IA entra para reduzir fricção, controlar risco e personalizar produtos financeiros.
Por que uma stablecoin “da Selic” existe (e por que agora)
Resposta direta: ela existe porque o investidor internacional quer exposição ao carrego do Brasil, mas odeia a fricção operacional de entrar no mercado local.
O Brasil tem um histórico conhecido: real volátil, juros altos por longos ciclos e um mercado de renda fixa profundo. Delaney observou algo que gestores brasileiros repetem há décadas: em muitos períodos, vender dólar, comprar real e carregar juros locais entregou retorno em dólar melhor do que ficar em taxas internacionais.
O problema sempre foi o mesmo: para o estrangeiro, “comprar Brasil” costuma significar:
- abrir estruturas locais (custódia, registro, KYC/AML, fiscal);
- lidar com horários e cut-offs de liquidação;
- operar via intermediários e camadas de custo;
- aceitar uma experiência pouco “plugável” com o stack global.
Com stablecoins, o acesso muda de forma. Em vez de “entrar no Brasil”, o investidor pode comprar um token lastreado em real, com regras claras de lastro e resgate, e usar esse token como trilho para alocar em ativos locais.
Esse timing também conversa com o ambiente regulatório. No próprio debate público, o Banco Central vem destacando que o PIX resolveu muito do que stablecoins prometem no varejo doméstico — mas pagamentos e investimentos transfronteiriços continuam sendo um espaço onde há margem para inovação.
O caso Crown/BRLV: o que o modelo tem de “institucional”
Resposta direta: o diferencial não é só emitir um token; é construir uma estrutura de lastro e direitos que aguente auditoria, risco jurídico e exigência de parceiro grande.
Segundo as informações públicas do caso, a BRLV foi lançada em 2025 e já ultrapassou R$ 360 milhões em subscrições, posicionando-se como a maior stablecoin de um mercado emergente. O lastro seria integralmente em títulos públicos brasileiros, com uma arquitetura descrita como bankruptcy remote — uma forma de separar o risco de falência da emissora do direito econômico sobre o lastro.
Esse ponto é central para qualquer tesouraria, gestora ou family office que pense em usar stablecoin como caixa, colateral ou instrumento de liquidação:
- Lastro não é slogan: precisa de governança, segregação, reconciliação e trilha de auditoria.
- Direito sobre o lastro: o investidor quer clareza sobre o que acontece em cenários extremos.
- Liquidez e resgate: precisa existir um mecanismo operacionalmente viável, com regras transparentes.
A Crown levantou US$ 21,6 milhões e, na Série A, foi avaliada em US$ 90 milhões. Mais importante do que o valuation é o sinal: há apetite por “infra cripto” com cara de finanças tradicionais.
E aqui entra um ponto que eu considero inevitável: a próxima fase das stablecoins não vai ser vencida por marketing, mas por controles. Controles que, em 2025, são cada vez mais data-driven.
Onde a IA realmente entra: risco, compliance e operação 24/7
Resposta direta: a IA vira o “motor invisível” que deixa stablecoins operarem com padrão bancário, em escala e com custo viável.
Stablecoin parece simples: emite, lastreia, resgata. Na prática, o que dá errado (e o que regulações tentam evitar) está nos detalhes:
IA para gestão de risco de lastro e liquidez
Se o lastro está em títulos públicos, o risco não some; ele muda de lugar. Você passa a gerenciar:
- risco de liquidez em momentos de estresse;
- risco operacional (falhas de reconciliação, custódia, erros humanos);
- risco de mercado (marcação a mercado, haircuts para colateral);
- risco de concentração (contrapartes, custodiante, corretoras).
Modelos de IA e machine learning ajudam quando a empresa precisa operar com poucos seniors e alta exigência:
- detecção de anomalias em fluxos de emissão/resgate (padrões fora do normal);
- previsão de demanda de liquidez (picos de resgate em datas específicas, notícias, volatilidade);
- otimização de alocação do caixa/colateral (regras de duration, liquidez e custo de oportunidade).
Um jeito simples de resumir: a IA reduz o custo marginal de confiança.
IA para KYC/AML e monitoramento transacional
Stablecoins atraem atenção regulatória por um motivo óbvio: elas podem circular rápido e atravessar fronteiras. Se a tese é ser ponte para capital internacional, compliance não é “departamento”; é produto.
Aplicações típicas de IA aqui:
- screening de listas e mídias adversas com NLP (reduz falsos positivos);
- análise de risco de clientes por comportamento (não só por cadastro);
- monitoramento transacional com modelos que aprendem padrões e alertam exceções;
- priorização inteligente de casos para analistas humanos.
No mundo real, isso se traduz em menos fricção para clientes bons e mais rigor para sinais ruins — exatamente o que bancos e fintechs buscam quando falam de personalização de serviços financeiros com IA.
Automação para reconciliação e trilha de auditoria
Quem já trabalhou em operações financeiras sabe: reconciliação é onde a reputação morre. Em stablecoins, você precisa conciliar:
- registros on-chain (transações do token);
- registros off-chain (custódia e movimentação do lastro);
- contabilidade e relatórios;
- políticas internas e limites.
IA não substitui controle interno, mas acelera tarefas como:
- classificação automática de divergências;
- sugestão de causa raiz;
- geração de relatórios e evidências para auditoria.
Esse é o tipo de “automação chata” que não vira manchete, mas define quem vira parceiro de instituição grande.
Selic, CDI e tokenização: o que muda para fintechs e gestores
Resposta direta: tokenizar a exposição ao real pode reduzir barreiras de distribuição, mas obriga todo mundo a repensar produto, precificação e risco.
A narrativa do caso aponta para um modelo em que fundos compram a stablecoin e são remunerados perto de 100% do CDI, com compromisso de longo prazo. Isso cria uma ponte entre dois mundos:
- DeFi/cripto quer liquidez e composabilidade.
- Mercado institucional quer previsibilidade, governança e conformidade.
Para fintechs, a oportunidade aparece em três frentes:
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Novos trilhos de distribuição internacional
- Um token em blockchain pode funcionar como “API financeira” para investidores globais.
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Produtos de renda fixa programáveis
- Dá para embutir regras de resgate, lock-up, remuneração, limites e reportes.
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Dados em tempo quase real para gestão de risco
- Fluxos on-chain permitem monitoramento contínuo, o que combina bem com modelos de detecção de fraude e risco.
Mas há um alerta: tokenização não elimina risco cambial, risco Brasil ou risco regulatório. Ela muda a experiência de acesso e, com isso, pode aumentar a demanda — o que exige mais disciplina em risco.
Perguntas que decisores deveriam fazer antes de usar stablecoins
Resposta direta: trate stablecoin como infraestrutura financeira e faça as perguntas que você faria a um banco/custodiante.
Se você está em banco, gestora, fintech ou tesouraria corporativa, eu usaria este checklist como ponto de partida:
- Como o lastro é custodiado e segregado?
- Qual é o SLA de resgate em condições normais e em estresse?
- Existe política de liquidez e testes de estresse?
- Quais controles de KYC/AML e monitoramento transacional são usados?
- Como acontece a reconciliação entre on-chain e off-chain?
- Qual é a governança de chaves, smart contracts e mudanças de contrato?
- Que relatórios e evidências existem para auditoria e reguladores?
Repare que quase tudo aqui tem um componente de automação. A IA não é “opcional”; ela é o jeito de fazer isso caber no orçamento e no prazo.
O que a BRLV sinaliza para 2026: a “camada nova” do sistema financeiro
Resposta direta: o caminho mais provável é a convivência — PIX no varejo, stablecoins em rotas internacionais e tokenização em nichos de mercado de capitais.
Delaney fala em uma meta agressiva: levar uma fatia relevante da base monetária brasileira para blockchain ao longo de uma década. Mesmo que a ambição exata não se concretize, o sinal já é forte: o real pode virar um ativo digital com utilidade global, sem precisar ser “dolarizado” no caminho.
Para a agenda de IA no setor financeiro, isso abre uma frente muito pragmática:
- mais trilhas digitais = mais dados de comportamento;
- mais automação = necessidade de modelos de risco e fraude mais robustos;
- mais integração global = mais pressão por compliance eficiente;
- mais produtos programáveis = mais espaço para personalização via IA.
Se a sua fintech ainda pensa em IA só como chatbot, esse tipo de movimento mostra o que realmente paga a conta: IA aplicada a risco, compliance e operação.
Uma stablecoin lastreada em títulos públicos é, na prática, “renda fixa com trilho digital”. O desafio é provar, todos os dias, que o trilho é confiável.
Se você quer avaliar como IA e automação podem fortalecer controles, reduzir custo operacional e acelerar o go-to-market de produtos financeiros (com ou sem blockchain), vale mapear seus fluxos críticos: KYC/AML, monitoramento, conciliação, stress testing e atendimento a auditoria. A diferença entre uma boa ideia e uma infraestrutura de verdade está aí.
O seu time já está preparado para operar finanças em tempo real — e explicar cada decisão para auditor, parceiro e regulador?