Stablecoin atrelada à Selic: o que muda para fintechs

IA no Setor Financeiro e FinTechBy 3L3C

Stablecoin de real atrelada à Selic já atraiu R$ 360 mi. Entenda o impacto para fintechs e onde a IA entra em risco, fraude e macro.

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Stablecoin atrelada à Selic: o que muda para fintechs

R$ 360 milhões em subscrições em poucos meses. Esse é o tamanho do apetite por um produto que, à primeira vista, parece “apenas” mais uma stablecoin — mas que, na prática, é um recado direto para bancos, gestoras e fintechs: o juro brasileiro virou exportável.

A história que circulou no mercado na semana de 19/12/2025 tem um detalhe delicioso: um advogado americano, John Delaney, decidiu que o “carrego” do Brasil era bom demais para ficar preso a burocracias locais e montou uma infraestrutura para estrangeiros acessarem ativos em real via blockchain. A BRLV, stablecoin 100% lastreada em real e, segundo a empresa, integralmente apoiada em títulos públicos brasileiros, já se posiciona como ponte para investimentos e pagamentos transfronteiriços.

E aqui entra o tema desta série “IA no Setor Financeiro e FinTech”: quando você coloca macro (Selic), tokenização (stablecoins) e capital global no mesmo trilho, a conversa inevitavelmente cai em gestão de risco, compliance, fraude e personalização — áreas onde IA deixou de ser “extra” e virou item de sobrevivência.

Por que uma stablecoin de real virou conversa séria

Porque ela transforma um problema antigo (acesso ao Brasil) em um fluxo digital simples de executar. Investidor estrangeiro sempre esbarrou em fricções: conta local, custódia, regras, horários, custos, tributos, intermediários. A promessa de uma stablecoin como a BRLV é reduzir essa fricção ao mínimo, mantendo o ativo em real — sem “dolarizar” no caminho.

A sacada não é ideológica (“cripto vai substituir bancos”). É pragmática: há demanda por exposição a juros altos e por ativos brasileiros (títulos públicos, crédito privado, recebíveis), mas o acesso é chato. Quanto mais chato, menor a base de compradores — e maior o custo de capital para quem capta no Brasil.

Além disso, o debate público mudou. O Banco Central já deixou claro que não compra a narrativa de que stablecoins resolvem pagamentos domésticos melhor do que o PIX. O ponto em aberto — e que importa para empresas — é outro: cross-border. E cross-border é onde spread, tempo e risco operacional ainda doem.

Selic como “produto de exportação”

Delaney verbalizou uma tese que muita mesa já sentiu no P&L: em vários períodos, vender dólar, comprar real e carregar Selic superou ficar em referenciais de juros internacionais. Quando você cria uma “embalagem” digital para isso, você cria também um novo canal de distribuição.

Para o ecossistema financeiro, a consequência é objetiva: o Brasil vira mais acessível para o capital global em formato programável. Programável significa que regras (remuneração, prazos, travas de liquidez, compliance) podem ser automatizadas — e isso abre espaço para IA otimizar decisões em tempo real.

O que a Crown/BRLV sinaliza sobre tokenização no Brasil

Sinaliza que a próxima onda de tokenização não depende de hype; depende de infraestrutura institucional. O que chama atenção no caso é menos “tem blockchain” e mais “tem arquitetura jurídica e governança”. A matéria cita estrutura bankruptcy remote, desenhada para proteger o detentor do token mesmo em cenário extremo de falência do emissor, garantindo direitos sobre o lastro.

Esse tipo de estrutura importa por três motivos práticos:

  1. Gestoras e instituições só escalam o que elas conseguem auditar.
  2. Risco de contraparte não é detalhe; é o produto. Em stablecoin, a pergunta central é “o lastro aguenta?”.
  3. Regulação está chegando mais dura e mais específica. Quem nasceu com arquitetura institucional tende a sofrer menos quando o sarrafo sobe.

Um detalhe que o mercado não deveria ignorar: a tração de investidores

A Crown captou US$ 21,6 milhões e fechou uma Série A que, segundo o fundador, avaliou a empresa em US$ 90 milhões. O grupo de investidores citado é de peso no mundo cripto e também conversa com Brasil (Valor Capital, Norte, investidores com histórico em serviços financeiros).

Tradução: não é experimento de laboratório. É tentativa de construir “trilho” para produto financeiro escalável.

Onde a IA entra de verdade: risco, fraude e macro em tempo real

Stablecoin de real não é só token; é um sistema de risco. E sistema de risco pede IA. Se você é banco, fintech, exchange, gestora ou tesouraria corporativa, as perguntas que surgem são previsíveis:

  • Como precificar risco de liquidez e de resgate?
  • Como monitorar concentração de holders e comportamento anômalo?
  • Como detectar fraude e lavagem em fluxos cross-border?
  • Como estimar impacto de eventos macro (Selic, câmbio, fiscal) em demanda, volatilidade e spreads?

Aqui vão aplicações de IA que eu considero “pé no chão” para esse cenário.

IA para prever pressão de resgates (liquidez)

A melhor defesa contra crise de stablecoin é antecipar corrida antes de ela virar manchete. Modelos preditivos podem usar sinais como:

  • variação de volume por janela (1h, 4h, 24h)
  • concentração por carteira/entidade
  • correlação entre câmbio e picos de saque
  • eventos de calendário (Copom, payroll, eleições, stress fiscal)

O objetivo é simples: prever probabilidade de saque acima do normal e acionar políticas automáticas (reforço de caixa, ajustes operacionais, comunicação, limites dinâmicos para novas emissões, etc.).

IA para AML e detecção de fraude em trilhos on-chain/off-chain

Cross-border amplia o atrito regulatório. Não dá para tratar AML como checklist. Em fluxos tokenizados, o desafio é juntar:

  • dados on-chain (trilhas de transação, clusters de carteiras)
  • dados off-chain (KYC, device fingerprint, comportamento de login)
  • sinais de mercado (mixing services, padrões de “layering”)

Modelos de graph analytics e classificação supervisionada ajudam a priorizar alertas. E modelos de linguagem (LLMs) ajudam a padronizar narrativas de compliance, resumir casos e acelerar investigações internas.

IA para “traduzir” Selic e câmbio em recomendação de produto

Quando o ativo base é real, a decisão do investidor quase sempre passa por duas variáveis: juro e câmbio. O que fintechs podem fazer melhor do que bancos tradicionais aqui é:

  • segmentar perfis de risco (tolerância a drawdown cambial)
  • sugerir estruturas (hedge parcial, prazos, janelas)
  • personalizar comunicação (o que muda após uma decisão do Copom)

A IA entra como motor de personalização: não para “empurrar” produto, mas para encaixar o produto no objetivo e na restrição do cliente.

Stablecoin x PIX: o debate certo é outro

PIX venceu pagamentos domésticos. O ponto. O próprio debate recente no Banco Central vai nessa linha. Eu concordo: tentar vender stablecoin como substituto de PIX é insistir no problema errado.

O mercado deveria focar em três frentes onde stablecoins de moeda local fazem sentido:

  1. Liquidação internacional mais rápida e com menos intermediários
  2. Acesso global a ativos locais sem “quebrar” a experiência do usuário
  3. Produtos programáveis (regras automáticas de remuneração, garantias, prazos)

Se você é fintech, a pergunta estratégica vira: qual parte da cadeia você quer possuir? Onboarding/KYC? Liquidação? Custódia? Motor de risco? Distribuição? Atendimento corporativo?

Checklist prático para bancos e fintechs que querem atuar com stablecoins

A diferença entre piloto bonito e operação escalável está nos detalhes. Este é um checklist que eu usaria em qualquer comitê de produto/risco:

1) Governança e transparência do lastro

  • Política de lastro (quais ativos, duration, liquidez)
  • Rotina de conciliação e auditoria
  • Regras claras de emissão e resgate

2) Arquitetura jurídica e risco de contraparte

  • Estruturas de segregação patrimonial (bankruptcy remote ou equivalentes)
  • Mapeamento de jurisdições e responsabilidades
  • Procedimentos de resolução em caso de estresse

3) Motor de risco com IA (desde o dia 1)

  • Modelos de detecção de anomalias (fraude, AML, picos de saque)
  • Stress testing com cenários macro (Selic/câmbio/fiscal)
  • Monitoramento contínuo com alertas acionáveis

4) Experiência do usuário e “custo do erro”

  • Onboarding simples, mas robusto
  • Suporte operacional (resgate, prazos, status)
  • Comunicação clara em eventos de mercado (Copom, volatilidade)

5) Parcerias: onde faz sentido compor

Nem todo mundo precisa construir tudo. Parcerias com:

  • gestoras (originação e gestão do lastro)
  • instituições financeiras (distribuição e compliance)
  • provedores de AML on-chain

Costumam ser o caminho mais curto para escalar com segurança.

O que esperar para 2026: mais tokenização e mais cobrança por controles

O cenário mais provável é expansão de tokenização com exigência crescente de governança e risco. A meta citada pelo fundador (chegar a 8% da base monetária brasileira em blockchain em uma década) é agressiva, mas funciona como bússola: ele está apostando que a infraestrutura vai ganhar confiança institucional.

Para quem trabalha com IA no setor financeiro, isso cria demanda por soluções bem específicas:

  • IA para risco de liquidez e stress testing contínuo
  • IA para AML com foco em grafos e comportamento
  • IA para atendimento e operações (reduzir erro humano em rotinas críticas)
  • IA para personalização de produto baseada em macro e objetivos

O detalhe que muita empresa subestima: o vencedor não será quem “tokeniza primeiro”, e sim quem operacionaliza melhor.

Uma stablecoin sólida não é um token “estável”. É um conjunto de processos, controles e incentivos que continua de pé quando o mercado está nervoso.

Próximo passo: como transformar isso em lead (sem empurrar produto)

Se você é líder de produto, risco, compliance ou dados em banco/fintech, eu faria um exercício simples nesta virada de ano: mapear onde sua operação ganha ou perde dinheiro por fricção cross-border e por risco mal medido.

  • Onde o seu fluxo internacional demora mais do que deveria?
  • Em quais pontos seu AML gera falso positivo demais?
  • Quanto tempo sua equipe gasta conciliando dados que deveriam estar consistentes?

Se você quiser, dá para transformar esse diagnóstico em um plano de 90 dias: priorizar um caso de uso (AML, liquidez, personalização), escolher métricas (redução de perdas, tempo de análise, custo por alerta) e montar um piloto com governança de dados.

A pergunta que fica para 2026 é direta: quando o “juro brasileiro programável” virar trilho padrão, sua empresa vai operar em cima dele — ou vai assistir outra fintech fazer isso melhor?

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