Crédito para inventário: IA destrava heranças no Brasil

IA no Setor Financeiro e FinTechBy 3L3C

Crédito para inventário com IA destrava patrimônio e reduz vendas apressadas. Veja o que o aporte na LastWish sinaliza para fintechs e bancos.

fintechcréditointeligência artificialgestão de riscoplanejamento sucessórioventure capitalinovação financeira
Share:

Featured image for Crédito para inventário: IA destrava heranças no Brasil

Crédito para inventário: IA destrava heranças no Brasil

Em 2024, o Brasil registrou cerca de 247 mil inventários extrajudiciais — e só no 1º semestre de 2025 já foram 142,9 mil procedimentos. Esse volume não é só um dado de cartório: é um retrato de patrimônio parado, famílias pressionadas por custos imediatos e decisões ruins tomadas com pressa.

É por isso que o anúncio do investimento de R$ 10 milhões da SRM Ventures na LastWish (19/12/2025) chama atenção. Não apenas pelo cheque, mas pelo tipo de crédito que nasce daí: crédito para inventário, com pagamento ao final do processo usando os recursos da própria herança. É um nicho. E, justamente por ser nicho, é onde a tecnologia — e especialmente a IA no crédito — costuma entregar mais impacto.

Na série “IA no Setor Financeiro e FinTech”, a gente fala muito de fraude, underwriting e personalização. Aqui, o caso é um pouco diferente (e, na minha opinião, mais interessante): é crédito ancorado em um evento jurídico, com documentação complexa, prazos incertos e forte necessidade de confiança. Se você trabalha com produtos financeiros, risco, operações, ou com parcerias entre bancos e fintechs, tem bastante coisa para aprender com esse movimento.

Por que crédito para inventário virou oportunidade real

A oportunidade existe porque o problema é recorrente e caro. Inventário custa dinheiro antes de liberar dinheiro. Na prática, famílias precisam pagar ITCMD, emolumentos, taxas e honorários advocatícios enquanto o patrimônio está bloqueado — e isso empurra muita gente para a pior saída: vender bens “no desespero”, abaixo do valor.

A LastWish posiciona o produto como um “adiantamento” para destravar o processo: financia as despesas do inventário e recebe no fim, com recursos do espólio/herança. Segundo a própria empresa, a proposta ajuda a evitar vendas apressadas e pode preservar “no mínimo, 20% de margem de valor” quando a alternativa seria liquidar rapidamente um imóvel, por exemplo.

O que mudou nos últimos anos

O inventário extrajudicial cresceu e o consumidor ficou mais confortável com processos digitais — assinatura, validação de identidade, envio de documentos, atendimento remoto. Isso cria o ambiente perfeito para um produto de crédito especializado:

  • Alto volume de casos (escala)
  • Dor financeira imediata (urgência)
  • Processo documentável (rastro de dados)
  • Garantia indireta (pagamento no final via patrimônio)

O ponto sensível? Risco operacional e jurídico. E é aí que tecnologia bem aplicada faz diferença.

O investimento SRM Ventures + LastWish: o que ele sinaliza no mercado

O sinal é claro: crédito de nicho, com underwriting digital, virou estratégia. A SRM Ventures, braço de venture capital da SRM Asset, afirmou administrar um fundo de R$ 500 milhões, ter 13 empresas no portfólio e ter originado mais de R$ 1,2 bilhão em crédito em três anos. Também informou intenção de negociar 8 a 10 novos deals no próximo ano.

Na leitura do mercado, esse tipo de aporte costuma acontecer quando três condições se encontram:

  1. Tese de produto: existe demanda grande e pouco atendida.
  2. Tese de risco: dá para “enxergar” o risco melhor do que incumbentes enxergam.
  3. Tese de distribuição: há canais (parcerias) para adquirir clientes com CAC controlado.

A LastWish já operava com planejamento sucessório (organização patrimonial em vida e apoio no pós-óbito), com serviços como simulação de inventário, apoio a testamento, consulta de apólices, gestão de bens e ativos digitais e mensagens póstumas. Ou seja: já estava dentro do contexto do problema. O crédito não entra como “produto aleatório”; entra como extensão natural do fluxo.

Onde a IA entra de verdade no crédito para inventário (sem fantasia)

IA no setor financeiro é útil quando reduz custo de decisão e aumenta precisão. No crédito para inventário, isso aparece menos como “chatbot simpático” e mais como motor de análise e operações.

A notícia cita que a LastWish utiliza tecnologia própria, biometria e certificação ICP-Brasil. Mesmo sem detalhar modelos, dá para mapear onde a IA (e automação inteligente) tende a atuar para esse produto funcionar com velocidade e controle.

1) Onboarding, identidade e prevenção a fraude documental

Inventário envolve múltiplas partes (herdeiros, cônjuge, advogado, tabelionato) e documentos sensíveis. A IA ajuda a reduzir risco e retrabalho com:

  • Classificação automática de documentos (RG, certidões, procurações, matrícula de imóvel)
  • Extração de dados (OCR inteligente) e validação de consistência
  • Detecção de fraude (inconsistências, padrões suspeitos, duplicidade)
  • Biometria com prova de vida e validação de identidade

Aqui, o ganho é bem pé no chão: menos pendência, menos backoffice, menos tempo de ciclo.

2) Underwriting orientado a evento (event-based underwriting)

Crédito tradicional olha renda, fluxo de caixa, histórico. Crédito para inventário olha um “evento”: existe um patrimônio a ser liberado, mas com regras e tempo. IA pode ajudar a estimar:

  • Probabilidade de conclusão dentro de uma janela (ex.: extrajudicial vs judicial)
  • Complexidade do caso (número de herdeiros, divergências, tipo de ativos)
  • Riscos de contestação e atrasos (indicadores documentais e processuais)

Um bom modelo aqui não substitui jurídico — ele prioriza casos, define política e precifica melhor.

3) Precificação e política de crédito com mais granularidade

Preço errado mata produto de nicho. Se você precifica como crédito pessoal, assume risco demais. Se precifica como crédito com garantia, pode ficar caro e travar adesão.

Com dados suficientes, dá para criar faixas de taxa/prazo por:

  • Tipo de inventário (judicial/extrajudicial)
  • Localidade e particularidades do ITCMD
  • Perfil e liquidez dos ativos (imóvel, contas, participações)
  • Qualidade e completude documental

4) Cobrança “inteligente” (na verdade, gestão de jornada)

Como o pagamento ocorre ao final, a “cobrança” vira acompanhamento do caso. IA ajuda com:

  • Alertas de prazo e pendências
  • Previsão de atraso (early warning)
  • Comunicação proativa com clientes e parceiros

O efeito é reduzir inadimplência por desorganização e melhorar experiência num momento emocionalmente pesado.

Frase que eu repetiria para qualquer time de produto: no crédito de nicho, o diferencial não é a taxa; é a execução operacional com risco controlado.

Como estruturar um produto de crédito para inventário (lições práticas)

Se você é fintech, banco ou líder de produto, o caso LastWish dá um roteiro útil. Não é copiar o produto — é copiar a lógica.

O que precisa estar claro no desenho do produto

  1. Quem é o tomador? Um herdeiro? Um representante? Todos? Isso muda contrato, consentimento e risco.
  2. Qual é a “fonte de pagamento” real? Patrimônio herdado, mas como isso será operacionalizado?
  3. Quais despesas entram no crédito? ITCMD, cartório, advogado — e se houver custo extra?
  4. Como você lida com atraso? Inventário judicial pode se estender; política precisa prever isso.

Checklist operacional (o que costuma dar errado)

  • Falta de padronização de documentos por estado/cartório
  • Dependência excessiva de intervenção humana no onboarding
  • Ausência de trilha de auditoria (compliance sofre)
  • Integração fraca com parceiros (advogados, seguradoras, planos)

Um produto que promete “100% digital” só se sustenta com automação de ponta a ponta: intake, validação, decisão, assinatura, acompanhamento.

“Inventário parado” é também um problema de educação financeira (e dezembro escancara isso)

Fim de ano no Brasil tende a amplificar conversas de família: reorganização de vida, planejamento, pendências. Em dezembro, muita gente descobre que o inventário do avô “ainda não saiu”, que o imóvel continua no nome de alguém que já faleceu, ou que existe seguro esquecido.

A LastWish nasceu no lado do planejamento familiar e sucessório — e isso é esperto. Crédito para inventário é útil, mas o melhor cenário é evitar o caos antes: organização patrimonial, documentação em ordem, escolha de caminhos (extrajudicial quando possível), transparência entre herdeiros.

E aqui vai uma opinião: fintech que entra em sucessão sem tratar confiança e acolhimento vai bater no teto. O produto pode ser ótimo, mas o contexto é sensível. A tecnologia precisa ser discreta, segura e clara.

Perguntas comuns sobre crédito para inventário (respostas diretas)

Esse crédito substitui advogado?

Não. Ele financia custos e pode organizar a jornada, mas a condução jurídica continua essencial, especialmente em casos judiciais ou com conflito.

Dá para automatizar análise de inventário sem aumentar risco?

Dá, desde que a automação seja usada para triagem, validação e consistência, mantendo governança jurídica e trilhas de auditoria.

Qual é o maior risco do produto?

Atraso e complexidade processual (principalmente em inventário judicial) e fraude documental/identitária se o onboarding for frágil.

Quem ganha com isso além da fintech?

Famílias (evitam liquidação ruim), advogados (processos destravam), cartórios (menos pendência) e o ecossistema de crédito (mais casos financiáveis com risco melhor mapeado).

O que esse movimento diz sobre IA no setor financeiro em 2026

O investimento da SRM Ventures na LastWish reforça uma tendência que eu considero inevitável: a IA vai empurrar o crédito para “microcasos grandes” — nichos com ticket relevante, alto atrito e muita documentação. Inventário é exatamente isso.

Para quem busca leads e oportunidades no ecossistema financeiro, a pergunta que fica é prática: sua operação está pronta para produtos em que a decisão de crédito depende menos de score tradicional e mais de dados alternativos, eventos e validação documental?

Se você está desenhando (ou reavaliando) uma esteira de crédito com IA, vale mapear onde sua equipe ainda está “no braço” — e onde automação com governança pode reduzir custo, acelerar tempo de resposta e abrir novos mercados.

O próximo passo é óbvio: bancos e fintechs vão disputar esse espaço com parcerias, originação especializada e modelos de risco mais inteligentes. A disputa não vai ser por quem tem o app mais bonito. Vai ser por quem consegue confiar no dado, explicar a decisão e operar com consistência quando a vida real é messy.