Integração IT/OT na Indústria Farmacêutica: 5 Lições

IA na Saúde e BiotecnologiaBy 3L3C

Integração IT/OT na фарma: 5 lições para reduzir paragens, reforçar cibersegurança e preparar dados para IA e paperless manufacturing.

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Integração IT/OT na Indústria Farmacêutica: 5 Lições

Uma hora de paragem não planeada numa fábrica pode queimar um orçamento inteiro de melhorias. No setor farmacêutico, onde cada lote tem validade, rastreabilidade e pressão regulatória, esse impacto é ainda mais duro: perde-se produção, aumenta-se o risco de recalls e multiplica-se o trabalho de documentação.

Ao mesmo tempo, a indústria vive um paradoxo: quase toda a liderança industrial diz confiar em decisões baseadas em dados, mas muitos fabricantes ainda operam com TI (IT) e Tecnologia Operacional (OT) em “ilhas”. Resultado: dados duplicados, alarmes que não chegam a quem decide e uma IA que fica a “passar fome” por falta de dados consistentes.

Este artigo faz parte da série “IA na Saúde e Biotecnologia” e traz uma leitura prática: a integração IT/OT é o alicerce para aplicar IA na produção farmacêutica com impacto real — mais eficiência, mais qualidade e menos paragens. A seguir, estão 5 lições (bem pé no chão) para sair do discurso e chegar ao chão de fábrica.

1) A integração IT/OT acaba com silos — e acelera decisões

Resposta direta: integração IT/OT funciona quando cria um fluxo único e confiável de dados entre sistemas corporativos (ERP, QMS, LIMS) e sistemas de produção (SCADA, PLCs, DCS, MES). Isso elimina “traduções manuais” e reduz decisões tomadas às cegas.

Na prática, os silos nascem porque IT e OT foram desenhados com objetivos diferentes:

  • IT prioriza confidencialidade, gestão de identidades, governança e disponibilidade para o negócio.
  • OT prioriza segurança operacional, determinismo, tempo real e continuidade do processo.

Quando cada lado otimiza apenas para si, aparecem sintomas clássicos:

  • relatórios de OEE divergentes entre áreas;
  • alterações de receita e parâmetros sem rastreabilidade end-to-end;
  • investigações de desvios mais longas porque logs ficam espalhados;
  • dados de processo “bons para operar”, mas ruins para análise avançada.

O que muda quando o dado flui

Uma integração bem desenhada permite algo simples e poderoso: a mesma versão do “que aconteceu” para operação, qualidade, manutenção e gestão.

Exemplo comum em фарма: um desvio de temperatura numa etapa crítica. Com IT/OT integrado:

  • o evento do equipamento (OT) é correlacionado com a ordem/lote (IT/MES);
  • o QMS recebe evidências automaticamente;
  • a equipa de qualidade ganha contexto (setpoints, tendências, intervenções);
  • a liderança enxerga impacto em prazos e capacidade.

E aqui entra a campanha “IA na Indústria e Manufatura”: IA sem integração IT/OT vira piloto eterno, porque os dados não chegam limpos, contextualizados e auditáveis.

2) Cibersegurança não é “camada final”: é requisito de projeto

Resposta direta: conectar IT e OT aumenta visibilidade e valor, mas também amplia a superfície de ataque. No setor de saúde, ataques (especialmente ransomware) são frequentes; portanto, segurança tem de nascer junto com a arquitetura de integração.

Muita empresa ainda comete um erro caro: “primeiro integra, depois protege”. No mundo OT isso costuma falhar, porque a indisponibilidade tem custo imediato e alto — e porque uma intervenção mal planeada pode parar linhas.

Princípios que funcionam (e evitam sustos)

  • Segmentação por zonas e conduítes: separar redes de escritório, DMZ industrial e células de produção.
  • Acesso remoto com regras claras: VPN + MFA + registo/auditoria + just-in-time access (acesso temporário) para fornecedores.
  • Inventário e visibilidade de ativos: não dá para proteger o que não se conhece (firmwares, portas, protocolos, versões).
  • Gestão de patches baseada em risco: em OT, “patch imediato” nem sempre é possível; planeia-se janela, valida-se e documenta-se.
  • Backups testados e recuperação realista: backup que nunca foi restaurado é esperança, não plano.

Frase que vale colar na parede: “A integração IT/OT é um projeto de produtividade e de segurança ao mesmo tempo.”

E um ponto importante para IA: modelos que consomem dados de produção também precisam de governança. Se o pipeline de dados for comprometido, você corre o risco de tomar decisões com dados adulterados.

3) A rede industrial é a fundação: sem disponibilidade, não há IA

Resposta direta: a integração IT/OT só escala com uma infraestrutura de rede industrial resiliente, com alta disponibilidade, interoperável com legados e preparada para edge/cloud.

É tentador falar de dashboards e algoritmos, mas a realidade é mais básica: se a rede cai, a fábrica volta ao papel e ao “telefone para o João da manutenção”.

O que uma rede “pronta para integração” precisa entregar

  1. Conectividade de ponta a ponta (do sensor ao ERP), sem gambiarras.
  2. Baixa latência onde importa (processos críticos e controle).
  3. Interoperabilidade com equipamentos antigos (e sim, eles continuarão aí por anos).
  4. Capacidade de observabilidade: telemetria de rede e de ativos.
  5. Base para edge computing: tratar dados perto da máquina quando tempo real e custos de tráfego importam.

Exemplo prático (muito aplicável em фарма)

Uma planta com várias salas limpas e linhas de embalagem costuma ter:

  • dados de ambiente (pressão diferencial, temperatura, partículas);
  • dados de utilidades (WFI, vapor limpo, ar comprimido);
  • dados de máquina (paragens, alarmes, performance);
  • dados de qualidade (amostragem, resultados, desvios).

Com uma rede bem desenhada e integração IT/OT, dá para:

  • correlacionar microparagens com condições ambientais;
  • detectar degradação de performance antes da falha;
  • alimentar modelos de IA para previsão de paragens e otimização de setups.

4) Integração IT/OT também resolve um problema de pessoas

Resposta direta: a convergência IT/OT reduz dependência de “heróis” e acelera capacitação, porque padroniza arquitetura, ferramentas e rotinas operacionais.

Em dezembro de 2025, a conversa sobre falta de talentos já cansou — porque é real e não vai sumir. O que dá para fazer é desenhar sistemas que:

  • sejam mais fáceis de operar;
  • tenham diagnósticos melhores;
  • reduzam trabalho manual repetitivo;
  • facilitem treino e transferência de conhecimento.

Como fechar o gap sem paralisar o roadmap

Uma abordagem que tenho visto funcionar bem é combinar execução interna com apoio externo em fases críticas:

  • Desenho e arquitetura (evitar decisões irreversíveis);
  • Comissionamento assistido com over-the-shoulder training;
  • Runbooks e SOPs digitais (não PDF esquecido numa pasta);
  • Modelo RACI claro entre IT, automação, qualidade e cibersegurança.

E aqui entra um detalhe: integração IT/OT não é só “passar cabo” e integrar sistemas. É também alinhar processos: gestão de mudanças, validação, auditoria, incidentes, continuidade.

5) Paperless manufacturing: a IA não lê papel no fundo da gaveta

Resposta direta: manufatura sem papel (paperless) é o passo mais direto para transformar dados operacionais em rastreabilidade, qualidade e automação de decisões — e é onde a IA começa a gerar retorno.

Se você quer usar IA para:

  • revisar desvios mais rápido,
  • orientar operadores com procedimentos contextuais,
  • reduzir retrabalho de documentação,
  • melhorar right-first-time,

…então precisa de dados estruturados, capturados no momento certo e com contexto (lote, etapa, equipamento, operador, parâmetros).

Do “paperless” real, não o de marketing

Paperless de verdade costuma incluir:

  • Registos eletrónicos de produção integrados ao MES;
  • Assinatura eletrónica com trilha de auditoria;
  • Revisão por exceção (foco no que saiu do padrão);
  • Harmonização de dados entre sistemas e áreas;
  • Assistentes digitais (incluindo chatbots internos) para acesso a SOPs, estados de máquina e históricos.

O ganho não é só “menos papel”. É menos variação, menos tempo de investigação e mais velocidade para libertação de lotes — sem abrir mão de compliance.

Como colocar de pé: um roteiro de 90 dias (realista)

Resposta direta: dá para iniciar integração IT/OT com impacto em 90 dias se o escopo for cirúrgico: um caso de uso, uma linha, métricas claras e segurança no desenho.

Aqui vai um roteiro pragmático para começar no primeiro trimestre de 2026 (boa hora para planear orçamento e entregas):

  1. Escolha 1 caso de uso com dor visível

    • redução de paragens não planeadas;
    • rastreabilidade end-to-end de um produto;
    • melhoria de OEE na embalagem;
    • monitorização de utilidades críticas.
  2. Defina 3 métricas que não permitem autoengano

    • tempo médio de paragem por causa (min);
    • tempo de investigação de desvios (horas);
    • taxa de retrabalho de documentação (%).
  3. Mapeie dados e contexto

    • quais tags/variáveis (OT) e quais IDs (lote, ordem, equipamento) (IT);
    • onde entra a validação/regulatório;
    • quem é dono de cada dado.
  4. Desenhe a arquitetura com segurança desde o início

    • segmentação;
    • acesso remoto;
    • logging;
    • inventário de ativos.
  5. Entregue rápido e padronize o que funcionou

    • o objetivo não é “provar conceito”; é criar um padrão replicável.

Perguntas comuns (e respostas diretas)

“Integração IT/OT é só para empresas grandes?”

Não. O que muda é o ritmo e a profundidade. Mesmo plantas médias ganham muito ao padronizar rede, dados e segurança para evitar paragens e reduzir trabalho manual.

“Dá para fazer IA antes da integração IT/OT?”

Dá, mas costuma sair caro. Você acaba gastando mais tempo limpando dados, criando integrações temporárias e justificando números inconsistentes do que treinando modelos úteis.

“Por onde começo: rede, MES, ou segurança?”

Comece pelo desenho do caso de uso e, a partir dele, dimensione rede e segurança como requisitos. Segurança não vem depois; rede não é detalhe; e MES é meio, não fim.

O que fica para 2026: eficiência, qualidade e IA com base sólida

A indústria farmacêutica está a acelerar a digitalização por um motivo simples: o custo de errar subiu. Paragens custam caro, ataques cibernéticos custam mais, e a pressão por compliance e velocidade de entrega não dá trégua.

A minha posição é clara: integração IT/OT é a forma mais direta de transformar dados em eficiência e qualidade, e também o caminho mais curto para aplicar IA na manufatura com confiança.

Se você tivesse que escolher um único ponto para melhorar nos próximos 90 dias, seria: onde os dados do chão de fábrica ainda viram planilha e e-mail? Essa é a próxima fronteira — e costuma ser onde o ROI aparece primeiro.

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