Terapia celular e genética cresce e pressiona o acesso. Veja como a IA na saúde acelera descobertas, reduz custos e ajuda a democratizar tratamentos.

IA e terapias genéticas: inovação com acesso real
Em 2021, o mercado global de terapia celular e genética foi estimado em US$ 7 bilhões. A projeção para 2026 é de US$ 58 bilhões — algo acima de R$ 300 bilhões quando se converte em valores aproximados. Números assim deixam uma coisa clara: terapias gênicas, celulares e baseadas em RNA deixaram de ser um “projeto de laboratório” e passaram a ser uma prioridade industrial, clínica e estratégica.
Só que tem um detalhe incômodo: enquanto a tecnologia acelera, o acesso não acompanha. Quando um tratamento aprovado custa milhões por paciente, a conversa deixa de ser apenas sobre ciência e entra no terreno da gestão, do SUS, da saúde suplementar, da regulação e — sim — de como usar inteligência artificial na saúde para reduzir custos, encurtar prazos e aumentar a chance de essas terapias chegarem a mais gente.
Como este texto faz parte da série “IA na Saúde e Biotecnologia”, vou olhar para a notícia como evidência de um movimento maior: a biologia virou o novo centro de gravidade da inovação, e a IA é a infraestrutura invisível que pode transformar descobertas caras em tratamentos escaláveis.
Por que terapia celular e genética virou prioridade (e por que isso importa)
A resposta direta: porque ela muda o tipo de problema que a medicina consegue resolver. Em vez de apenas “controlar sintomas” com uso contínuo de medicamentos, algumas terapias gênicas e celulares miram causas biológicas específicas, com potencial de efeito duradouro.
Terapia gênica, terapia celular e RNA: a diferença sem mistério
- Terapia gênica: altera a função genética de células (introduzindo, substituindo ou “silenciando” genes) para tratar doenças que antes eram praticamente intratáveis.
- Terapia celular: usa células vivas como “medicamento” — muitas vezes modificadas fora do corpo e reinfundidas no paciente.
- Terapias de RNA: entregam instruções temporárias (sem mudar o DNA permanentemente). Um exemplo já popularizado no imaginário coletivo são as vacinas de mRNA.
Esse campo também ganhou tração por um motivo que pouca gente comenta: a medicina está ficando mais baseada em dados. Genômica, transcriptômica, imagens, prontuários, biomarcadores. É informação demais para decisões clínicas e P&D feitos “no braço”. E aí a IA entra como peça estrutural, não como enfeite.
O gargalo real: custo, escala e a chance de virar “medicina para poucos”
A resposta direta: o preço alto hoje é consequência de processos complexos e pouco escaláveis. E isso cria o risco de um futuro onde terapias avançadas virem privilégio.
O exemplo mais citado no Brasil é o de terapias aprovadas com valores extremamente altos por paciente. Há produtos de terapia gênica e celular já aprovados no país (em indicações específicas), e parte do debate público gira em torno de como financiar e como priorizar esses tratamentos.
Por que é tão caro?
Na prática, o custo explode por uma combinação de fatores:
- Produção complexa (especialmente quando é autóloga, feita a partir das células do próprio paciente)
- Logística e cadeia fria com rastreabilidade rigorosa
- Controle de qualidade lote a lote, com critérios muito mais rígidos do que em fármacos tradicionais
- Ensaios clínicos difíceis (populações pequenas, desfechos complexos, acompanhamento longo)
- Risco de P&D elevado: muitos projetos falham antes de virar produto
Minha opinião: insistir em “milagre de laboratório” sem um plano de industrialização e dados é receita para ampliar desigualdade. A democratização não virá por boa vontade. Vai vir por produtividade científica e operacional.
Onde a IA acelera terapias celulares e genéticas (do laboratório ao leito)
A resposta direta: a IA reduz tempo e desperdício ao transformar dados biológicos em decisões melhores — e isso impacta custo final.
Abaixo estão as frentes mais concretas onde vejo a IA na biotecnologia trazendo resultado (especialmente para quem trabalha com inovação em saúde, pesquisa clínica, hospitais e indústria):
1) Descoberta de alvos e desenho de terapias
Modelos de aprendizado de máquina conseguem identificar relações entre variantes genéticas, expressão gênica e fenótipos de doença. Isso ajuda a:
- priorizar alvos terapêuticos com maior chance de sucesso
- selecionar mecanismos de ação mais plausíveis
- reduzir experimentos repetitivos (e caros)
Na terapia gênica, isso se conecta ao desenho de vetores, promotores e estratégias de entrega. Na terapia celular (como abordagens tipo CAR-T e variações), a IA ajuda a decidir quais marcadores são mais úteis e como evitar efeitos indesejados.
2) Seleção de pacientes e estratificação (o ponto que muda o jogo no Brasil)
Ensaios clínicos ficam mais rápidos quando você inclui o paciente certo. A IA pode apoiar:
- identificação de pacientes elegíveis em prontuários e bases clínicas
- previsão de resposta com base em biomarcadores
- segmentação por risco para aumentar a segurança
Isso é especialmente relevante em um país desigual: se a triagem depende só de centros altamente especializados, muita gente nem entra no radar. Com pipelines de dados bem feitos, dá para descentralizar a identificação, mantendo governança.
3) Otimização da manufatura (a parte “menos sexy” que define o preço)
A resposta direta: se a produção não escala, o acesso não escala.
Em terapias celulares, pequenas variações no processo podem afetar viabilidade, potência e segurança. Com IA e analítica avançada, dá para:
- detectar desvio de processo cedo (evitando perda de lote)
- otimizar parâmetros de cultura e expansão celular
- prever qualidade final antes de terminar a produção
Na prática, isso reduz retrabalho, descarte e tempo de ciclo. É aí que mora uma alavanca real de redução de custo.
4) Farmacovigilância e monitoramento pós-terapia
Terapias avançadas exigem acompanhamento robusto. IA pode apoiar o monitoramento de eventos adversos, padrões em exames e sinais de alerta, especialmente quando há dados longitudinais.
O resultado esperado não é só “mais segurança”: é também mais confiança regulatória e pagadora, o que influencia incorporação e modelos de reembolso.
Democratizar acesso: o que precisa acontecer no ecossistema brasileiro
A resposta direta: democratização depende de dados + infraestrutura + modelos de pagamento. Sem isso, vira exceção judicial e cobertura pontual.
Aqui vai uma lista objetiva do que eu considero “não negociável” para o Brasil entrar nesse jogo sem aprofundar desigualdades:
1) Dados clínicos utilizáveis (e não só armazenados)
Não basta ter prontuário eletrônico. É preciso:
- padronização de terminologias e interoperabilidade
- qualidade de registro (menos campo livre, mais estrutura)
- governança de dados e consentimento
- integração com genética quando fizer sentido clínico
Sem isso, a IA na saúde vira promessa e piloto eterno.
2) Centros de referência com rede (não ilhas)
Terapias gênicas e celulares exigem expertise. Mas o acesso melhora quando há:
- protocolos unificados
- telemedicina para avaliação e seguimento
- logística coordenada para coleta, envio e reinfusão
Em dezembro de 2025, com a maturidade maior de serviços digitais em saúde no Brasil, dá para ser mais ambicioso: rede colaborativa com dados e indicadores compartilhados, em vez de cada instituição reinventar a roda.
3) Avaliação de tecnologia em saúde (ATS) mais conectada à vida real
Modelos tradicionais de custo-efetividade sofrem quando o tratamento custa muito, mas evita décadas de cuidado contínuo.
Um caminho prático é usar:
- pagamento por performance (resultado real)
- reembolso em parcelas com gatilhos de eficácia
- registros de mundo real para reduzir incerteza
IA aqui não é “robô decidindo”. É ferramenta para medir desfechos, ajustar risco e dar transparência.
4) Formação profissional e comunicação honesta
Quando o tema é genética, o público oscila entre medo e hype. Comunicação honesta inclui:
- explicar limites e riscos (sem terrorismo)
- diferenciar pesquisa, ensaio clínico e terapia aprovada
- combater promessas comerciais vazias
A confiança pública é parte da infraestrutura. Sem confiança, não há adesão, nem política sustentável.
Perguntas comuns (e respostas diretas)
A IA pode mesmo reduzir o custo de terapias genéticas?
Sim — principalmente indiretamente: reduzindo tempo de P&D, falhas de ensaio clínico, desperdício de manufatura e melhorando seleção de pacientes. Não é mágica, é eficiência acumulada.
Terapias de RNA são “mais seguras” que terapia gênica?
Elas tendem a ser menos permanentes, o que pode reduzir certos riscos, mas segurança depende de desenho, dose, alvo e contexto clínico. Permanência não é o único critério.
Isso vai chegar ao SUS?
Pode chegar, mas não por inércia. Depende de priorização, modelos de financiamento, capacidade instalada e dados para acompanhar resultados. A IA pode facilitar, mas não substitui decisão pública.
O ponto central: inovação sem escala vira desigualdade
O mercado estimado em centenas de bilhões mostra que terapia celular e genética já é prioridade global. O debate que interessa ao Brasil agora não é “se funciona” — é como tornar sustentável. E aqui eu tomo uma posição: a IA é uma das poucas ferramentas com potencial real de encurtar o caminho entre descoberta e acesso, porque mexe onde mais dói: tempo, erro e desperdício.
Se você acompanha a série “IA na Saúde e Biotecnologia”, este é um daqueles temas em que tudo se encontra: dados clínicos, pesquisa farmacêutica, regulação, gestão hospitalar e, principalmente, a pergunta que define a próxima década da saúde no país: vamos construir um sistema que aprende (com dados) ou um sistema que reage (com atraso)?
Quer discutir como aplicar IA na sua operação de saúde ou P&D — da governança de dados à automação de triagem e análise? O primeiro passo é mapear onde estão os gargalos e quais dados você já tem de verdade.