A IA na descoberta de fármacos já define competitividade global. Veja lições EUA–China e um plano prático para o Brasil acelerar P&D com dados e foco.

IA na descoberta de fármacos: lições EUA–China
A participação da China na descoberta de novos medicamentos triplicou em 10 anos. Esse número, por si só, já deveria acender um alerta em qualquer país que dependa de inovação biomédica para crescer, proteger a população e sustentar uma indústria de alto valor. O ponto mais desconfortável é que não se trata apenas de “mais laboratórios” ou “mais investimento”: trata-se de velocidade, escala e organização — e é aqui que a IA na descoberta de fármacos entra como fator de competitividade.
Enquanto o debate nos EUA gira em torno de prioridades públicas, financiamento e travas regulatórias, a China tem mostrado uma estratégia clara de acumular capacidades científicas e industriais. Para o Brasil, que tenta aumentar densidade tecnológica na saúde e reduzir dependência externa, a pergunta prática não é “quem está na frente”, mas sim: que decisões aceleram um pipeline de P&D farmacêutica — e quais nos deixam para trás?
Este texto faz parte da série “IA na Saúde e Biotecnologia” e vai direto ao que interessa: o que o contraste EUA–China revela sobre descoberta de medicamentos, por que a IA virou um multiplicador de produtividade e como o Brasil pode transformar isso em vantagem real (não só em projetos-piloto).
O que o avanço da China sinaliza (e por que assusta)
O avanço chinês sinaliza que descoberta de fármacos virou uma corrida de sistemas, não de talentos individuais. Talento continua sendo essencial — mas, quando um país constrói uma máquina que integra dados, computação, manufatura, testes e tomada de decisão, o resultado aparece em volume e em consistência.
No artigo de opinião que motivou este post, os autores descrevem uma perda de tração dos EUA e usam uma metáfora simples: um carro esportivo clássico tentando competir com um supercarro recém-projetado. A leitura que eu faço é mais direta: o “carro novo” é um ecossistema desenhado para iterar rápido.
Isso importa por três razões muito objetivas:
- Soberania sanitária: quem descobre e produz terapias tem mais previsibilidade em crises (como vimos em pandemias).
- Economia e empregos qualificados: pipelines farmacêuticos sustentam cadeias inteiras (bioinformática, ensaios clínicos, CDMOs, regulação, logística fria).
- Propriedade intelectual: o país que gera a patente captura margens e define o ritmo do mercado.
O que assusta não é “a China ter crescido”. É a velocidade, porque ela sugere que modelos tradicionais de P&D estão ficando lentos demais.
A lição escondida: dados e decisão viraram infraestrutura
A nova infraestrutura da indústria farmacêutica é dados + computação + governança. Quem trata isso como projeto pontual perde para quem trata como base do negócio.
Na prática, isso significa:
- dados padronizados para pesquisa pré-clínica e clínica;
- pipelines reprodutíveis (do dataset ao relatório regulatório);
- métricas de produtividade (tempo por hipótese, custo por candidato, taxa de sucesso por fase);
- capacidade de “fechar o ciclo”: aprender com falhas e realimentar modelos.
E é exatamente aqui que a IA oferece vantagem: ela reduz custo e tempo de exploração, seleciona melhor o que vale testar e aumenta a taxa de acerto nas apostas mais caras.
Onde a IA realmente acelera a descoberta de medicamentos
A IA acelera a descoberta de medicamentos quando encurta o caminho entre hipótese e evidência. Não é “magia”, nem substituição de laboratório. É triagem mais inteligente, desenho melhor de moléculas e decisões mais rápidas sobre o que matar cedo.
A descoberta de fármacos tem gargalos conhecidos: identificar alvo, encontrar compostos promissores, otimizar propriedades, reduzir toxicidade, planejar ensaios. Em cada etapa, IA ajuda de um jeito diferente.
1) Identificação e validação de alvos
Modelos de IA em genômica, proteômica e transcriptômica ajudam a ligar alvos biológicos a desfechos clínicos usando grandes bases de dados e literatura. O ganho aqui é reduzir “alvos bonitos” no paper que falham no mundo real.
Aplicação prática:
- priorização de alvos com base em evidência multimodal (ômicas + dados clínicos + vias biológicas);
- análise de redes (interações proteína–proteína) para entender efeitos colaterais prováveis.
2) Geração e otimização de moléculas
Modelos generativos (por exemplo, para química) sugerem estruturas candidatas com propriedades desejadas. O valor está em explorar um espaço químico enorme sem fazer milhões de experimentos físicos.
O que muda na rotina:
- ciclos mais curtos de “desenhar → simular → sintetizar → medir”;
- priorização de síntese para moléculas mais promissoras;
- melhor equilíbrio entre potência, seletividade e ADMET (absorção, distribuição, metabolismo, excreção e toxicidade).
3) ADMET e segurança desde o início
Prever toxicidade cedo economiza anos e milhões. IA ajuda a antecipar risco hepático, cardiotoxicidade (ex.: hERG), interações metabólicas e outras bandeiras vermelhas.
Aqui, o ganho não é só financeiro: é ético. Menos candidatos ruins significam menos exposição desnecessária em testes.
4) Ensaios clínicos: desenho, recrutamento e monitorização
A etapa clínica continua sendo o maior custo e a maior incerteza. IA aplicada a dados de mundo real (prontuários, registros, claims) e a dados de estudo (ePROs, wearables) pode melhorar:
- critérios de inclusão/exclusão (para reduzir heterogeneidade);
- seleção de centros e regiões com maior probabilidade de recrutamento;
- detecção precoce de sinais de segurança.
No Brasil, isso esbarra em fragmentação de dados e governança — mas o potencial é enorme, especialmente em redes hospitalares e operadoras que já têm escala.
Brasil: como competir sem copiar o modelo dos outros
O Brasil não precisa “virar EUA” nem “virar China” para ser competitivo; precisa escolher batalhas e construir capacidade cumulativa. O erro mais comum é tentar fazer tudo ao mesmo tempo: montar laboratório, criar plataforma de IA, abrir biotech, captar investimento e ainda resolver regulação. Dá para fazer, mas exige foco.
Eu apostaria em uma estratégia em três frentes, com metas mensuráveis.
Frente A: dados de saúde como ativo nacional (com regras claras)
Sem dados bem organizados, IA vira demo bonita. O Brasil precisa destravar o básico: interoperabilidade, qualidade, consentimento e rastreabilidade.
O que funciona na prática:
- padronizar vocabulários e estruturas (ex.: modelos compatíveis com interoperabilidade);
- criar “zonas seguras” de pesquisa com anonimização robusta;
- contratos de compartilhamento com retorno para o sistema (ex.: indicadores, melhorias assistenciais, formação).
Frente B: escolher 2–3 áreas terapêuticas com vantagem local
Competitividade vem de foco. O Brasil pode ter vantagem em temas onde existe base clínica e epidemiológica forte.
Exemplos de linhas plausíveis:
- doenças metabólicas (obesidade, diabetes e comorbidades);
- doenças infecciosas e negligenciadas (com redes públicas e expertise histórica);
- oncologia de precisão em centros de referência.
O objetivo não é só publicar: é colocar candidatos no pipeline.
Frente C: transformar IA em “linha de produção”, não em projeto
Para gerar leads e resultado real no setor, eu gosto de um critério simples: IA precisa entrar no fluxo de decisão.
Checklist de maturidade (bem direto):
- Existe um problema com métrica clara? (ex.: reduzir tempo de triagem de compostos em 30%)
- Existe dado suficiente e governado?
- O modelo tem validação externa e monitorização?
- O time sabe usar o output para decidir (e não só para apresentar)?
- A organização mede impacto em custo/tempo/risco?
Se você não consegue responder “sim” para pelo menos 3 itens, provavelmente está no modo vitrine.
Um plano prático de 90 dias para P&D com IA (sem fantasia)
Em 90 dias, dá para sair do “interesse em IA” para um piloto com impacto medido — se o escopo for bem escolhido. Abaixo está um roteiro que tenho visto funcionar em empresas e institutos que querem acelerar descoberta de fármacos e pesquisa translacional.
Semana 1–2: definir o caso de uso certo
Escolha um caso de uso com três características:
- alta fricção atual (processo lento ou caro);
- dados já existentes (mesmo que imperfeitos);
- decisão clara no final (aprova/reprova, prioriza/arquiva).
Exemplos bons:
- priorização de alvos para uma área terapêutica;
- modelo de risco ADMET para reduzir síntese desnecessária;
- seleção de sites para ensaio clínico.
Semana 3–6: preparar dados e baseline
- inventário de fontes de dados;
- definição de dicionário e critérios de qualidade;
- criação do baseline (como o processo performa hoje).
Sem baseline, você não prova valor — e sem prova de valor, não há escala.
Semana 7–10: modelo + validação
- treinamento e validação (com separação temporal quando fizer sentido);
- métricas adequadas (AUC, precisão/recall, erro de calibração, lift de triagem);
- revisão com especialistas de domínio.
Se o modelo não melhora a decisão, mate rápido e ajuste o caso.
Semana 11–13: integração no fluxo e medição de impacto
- colocar o modelo num workflow simples (pode ser interno, sem grandes plataformas);
- definir donos do processo;
- medir impacto por 4 semanas (tempo, custo, taxa de acerto, retrabalho).
O ponto é transformar IA em hábito operacional.
Frase para guardar: “A IA que não muda decisão vira apenas um gráfico bonito.”
Perguntas que sempre aparecem (e respostas diretas)
“IA vai substituir cientistas na descoberta de fármacos?”
Não. Vai substituir tarefas repetitivas e triagens ruins, e isso muda a composição do trabalho. Bons cientistas passam a gastar mais tempo em desenho experimental e menos tempo em tentativa-e-erro.
“O gargalo é tecnologia ou política científica?”
Os dois. Tecnologia acelera, mas política científica define continuidade: bolsas, infraestrutura, compras públicas, previsibilidade regulatória e estímulos à transferência tecnológica.
“O que uma biotech brasileira deve fazer primeiro?”
Começar por um caso de uso estreito com ROI medido, e construir a partir dele. Plataforma grande sem tração comercial consome caixa e mata empresa.
O que o Brasil ganha se tratar IA como estratégia de P&D
A discussão EUA–China é um espelho útil: quem trata descoberta de medicamentos como prioridade nacional e industrial cria escala; quem trata como pauta intermitente perde continuidade. Para o Brasil, a oportunidade é grande porque temos sistema de saúde amplo, massa crítica acadêmica e necessidades clínicas claras — ingredientes raros.
Se eu tivesse de resumir em uma linha: IA na descoberta de fármacos é a forma mais rápida de aumentar produtividade científica sem multiplicar custos no mesmo ritmo.
O próximo passo, para quem lidera pesquisa, inovação ou estratégia em saúde, é simples e exigente: escolher um caso de uso, organizar dados, colocar um piloto em produção e medir impacto. Se a China está ganhando velocidade e os EUA estão preocupados com travas, o Brasil precisa evitar o pior dos dois mundos: ambição alta com execução fragmentada.
Que parte do seu pipeline — alvo, molécula, ADMET ou ensaio clínico — você consegue acelerar já no primeiro trimestre de 2026?