Entenda como vitórias em biotech expõem gargalos de P&D e como IA em saúde acelera ensaios clínicos, regulação e acesso. Veja um playbook prático.

IA na biotecnologia: lições do “win” da Pfizer
No fim de 2025, uma frase simples virou notícia no setor: “um alívio para a Pfizer”. Num ano em que a biotecnologia alternou euforia (aprovações, M&As, dados fortes) com ansiedade (pressão política, incerteza regulatória e custos crescentes), qualquer vitória relevante ganha um peso extra — especialmente para uma gigante que vem tentando provar, trimestre após trimestre, que o seu motor de inovação continua a funcionar.
O que me interessa aqui não é o “fofoca-mercado” do ganha-perde corporativo. O ponto é mais útil: o que um “win” em pharma e biotech revela sobre como inovação acontece — e onde a IA pode acelerar (ou travar) esse processo. Na série IA na Saúde e Biotecnologia, eu tenho visto um padrão: empresas que tratam dados, ensaios clínicos e operações regulatórias como “produto” (e não como burocracia) chegam mais longe.
O recorte desta semana vem de um conjunto de notícias: aprovação do aficamten (Myqorzo) na China para cardiomiopatia hipertrófica obstrutiva, bons resultados de Fase 3 com patch de amendoim (Viaskin) em crianças, e um pano de fundo político que mexe com financiamento de pesquisa e confiança no ecossistema. Parece disperso. Na prática, tudo aponta para a mesma direção: quem souber usar IA para reduzir incerteza e tempo de ciclo ganha vantagem real.
O que muda quando uma empresa “ganha” em biotech
Uma vitória em biotech raramente é um único evento. É o resultado de uma cadeia de decisões: seleção de alvo, desenho de molécula, estratégia de endpoints, escolha de países e centros, plano regulatório e, por fim, execução disciplinada.
No caso do aficamten (Myqorzo), o marco citado foi a aprovação por reguladores chineses para uma condição cardiovascular séria (cardiomiopatia hipertrófica obstrutiva). Mesmo sem entrar em detalhes proprietários, dá para tirar lições práticas:
- Timing regulatório importa: mercados diferentes têm janelas e exigências distintas.
- Parcerias locais destravam escala: direitos comerciais na China com outra farmacêutica indicam uma estratégia para acelerar acesso e execução.
- Cardiologia voltou ao radar: depois de anos em que oncologia e imunologia dominaram manchetes, cardiovasculares seguem sendo uma área onde ganhos incrementais impactam milhões.
A minha leitura: quando o mercado chama de “win”, muitas vezes está premiando algo menos glamoroso — capacidade de operar com previsibilidade. E é exatamente aí que IA aplicada costuma gerar ROI mais rápido: previsibilidade em P&D e em operações.
Aficamten e a cardiomiopatia: onde a IA entra de verdade
A pergunta útil não é “a IA teria inventado este medicamento?”. A pergunta útil é: em quais pontos do ciclo de desenvolvimento a IA reduziria tempo, custo e risco?
1) Seleção e estratificação de doentes (o calcanhar de Aquiles)
Em doenças cardiovasculares, a variabilidade clínica é alta. Ensaios falham porque:
- os doentes recrutados não representam o subgrupo que mais beneficia;
- há heterogeneidade nos exames (ecocardiografia, ressonância, etc.);
- centros têm qualidade desigual de medição.
IA em saúde pode ajudar com:
- modelos de risco e resposta combinando imagem + dados clínicos;
- triagem automatizada a partir de EHR (prontuário eletrónico) e laudos;
- detecção de outliers na qualidade de dados por centro.
Resultado prático: menos retrabalho, menos “protocol amendments” e um estudo mais limpo.
2) Endpoints mais robustos e monitorização remota
A indústria ainda depende de endpoints tradicionais, mas a tendência é clara: medidas digitais (wearables, telemonitorização) estão a ganhar espaço quando são validadas.
IA pode:
- filtrar ruído de sensores e transformar sinais em métricas clínicas;
- detectar eventos de forma precoce (ex.: deterioração funcional);
- apoiar adherence e reduzir perdas de seguimento.
Isso não “substitui” ciência clínica — aumenta a resolução do que se consegue medir.
3) Documentação regulatória e farmacovigilância
Em 2025, o custo de conformidade subiu. O que trava equipas não é falta de conhecimento; é falta de tempo.
Aplicações maduras de IA generativa (com governança) já suportam:
- sumarização de evidência e rastreabilidade de versões;
- criação de rascunhos controlados de relatórios clínicos;
- sinalização de eventos adversos em bases internas e literatura.
Se você está a pensar “isso é perigoso”, concordo — sem validação e trilha de auditoria, é perigoso mesmo. Mas bem implementado, vira vantagem competitiva.
O patch de amendoim e a alergia alimentar: uma aula sobre dados do mundo real
O outro destaque do noticiário foi o Viaskin, um patch para alergia a amendoim, com resultados positivos numa Fase 3 em crianças (4 a 7 anos), reduzindo reações alérgicas e atingindo o endpoint primário.
Aqui, a lição é diferente: alergia alimentar depende de comportamento, contexto familiar e exposição do dia a dia. Ou seja: dados do mundo real (RWD) importam tanto quanto o que acontece no centro clínico.
IA pode apoiar em três frentes:
- Engajamento e adesão: lembretes personalizados, detecção de abandono precoce e suporte educativo adaptativo.
- Fenotipagem: separar subtipos de alergia e perfis de risco usando histórico clínico, testes e resposta a microexposições controladas.
- Segurança pós-mercado: detecção de padrões de eventos adversos raros em escala.
A tese é simples: quando o tratamento “vai para casa”, a IA vira infraestrutura — porque sem ela fica caro e lento acompanhar segurança e efetividade.
O elefante na sala: política, financiamento e “brain drain”
O artigo original também aponta um clima de instabilidade na pesquisa nos EUA, com receios de fuga de cérebros e financiamento volátil. Para quem trabalha com biotecnologia no Brasil (ou em Portugal), isso parece “longe”. Só que não é.
Quando o maior mercado de ciência aplicada entra em turbulência:
- cadeias de colaboração internacional sofrem;
- ensaios multicêntricos replaneiam países e cronogramas;
- talentos tornam-se mais móveis (e mais caros).
IA não resolve geopolítica, mas ajuda empresas e institutos a operar com menos desperdício, e isso vira um amortecedor em momentos de incerteza.
No contexto brasileiro, eu vejo uma oportunidade: quem construir competências de IA em pesquisa clínica, bioinformática, qualidade de dados e automação regulatória entra em conversas globais com mais força — inclusive para atrair projetos e parcerias.
Um “playbook” prático de IA para pharma e biotech (sem fantasia)
Se a sua equipa está a tentar aplicar IA em P&D e não quer cair em demo bonita que não vai para produção, este é um roteiro que funciona.
1) Comece pelo gargalo, não pela tecnologia
Escolha um gargalo mensurável. Exemplos comuns:
- triagem lenta de doentes para ensaios;
- inconsistência de laudos e imagens;
- tempo excessivo em medical writing e submissões;
- farmacovigilância manual.
Defina uma métrica operacional (dias, custo por doente, taxa de screen failure).
2) Organize o “chão de fábrica” de dados
IA boa nasce de dados chatos e bem cuidados:
- dicionário de dados e data lineage;
- integração de EHR, eCRF, imagem e laboratório;
- regras de qualidade (com alertas).
Minha opinião: sem governança, IA vira risco regulatório.
3) Modele com validação clínica e viés sob controlo
Para uso em saúde, “acurácia” isolada não basta. Exija:
- validação externa (idealmente multicêntrica);
- análise por subgrupos (idade, sexo, comorbidades);
- explicabilidade suficiente para auditoria.
4) Coloque IA no fluxo (e não ao lado)
Ferramenta que exige exportar CSV e abrir outro sistema morre na praia.
Integre IA no que a equipa já usa:
- sistemas de ensaio clínico;
- ferramentas de farmacovigilância;
- pipelines de regulatory affairs;
- dashboards de operações.
5) Auditoria e compliance desde o primeiro dia
Se o seu objetivo é acelerar aprovações e reduzir risco, trate IA como parte do sistema de qualidade:
- controlo de versões do modelo;
- registo de prompts e saídas (quando for genAI);
- validação periódica e monitorização de drift.
Frase para guardar: IA em pharma não é “experimento”; é processo.
Perguntas que muita gente faz (e respostas diretas)
“IA já encurta ensaio clínico?”
Sim, encurta principalmente recrutamento e monitorização, que são os maiores ladrões de tempo. O ganho típico vem de reduzir screen failures, otimizar seleção de centros e detectar problemas cedo.
“IA substitui cientistas e médicos?”
Não. O que acontece na prática é redistribuição de tempo: menos trabalho repetitivo e mais tempo para decisões críticas (hipóteses, desenho, segurança, interpretação).
“Onde está o maior risco?”
No conjunto dados ruins + automação cega. Isso cria decisões erradas com aparência de precisão. Para evitar: governança, validação e revisão humana com responsabilidade clara.
O que o “win” da Pfizer sinaliza para 2026
Vitórias em biotech são cada vez menos sobre “sorte” e cada vez mais sobre execução com dados. Aprovação num grande mercado, bons resultados clínicos em áreas difíceis e um cenário político instável lembram a mesma coisa: o setor vai premiar quem conseguir fazer ciência com velocidade, sem perder rigor.
Para quem acompanha a série IA na Saúde e Biotecnologia, a direção é clara: IA aplicada a P&D, ensaios clínicos e regulação deixou de ser diferencial — está a virar requisito. A pergunta que fica não é “se” a sua organização vai usar IA, e sim em que parte do pipeline você quer ganhar meses de vantagem.
Se você está a planear iniciativas em 2026, eu começaria com um exercício simples: liste os três pontos onde o seu time mais perde tempo (recrutamento, dados, documentação, segurança) e pergunte: qual deles eu consigo medir, automatizar e auditar em 90 dias?