Retrospectiva de 2025 mostra como a IA virou infraestrutura na biotecnologia. Veja lições práticas para aplicar IA na saúde e biotec no Brasil.

A biotecnologia não teve “um” grande momento em 2025. Teve vários — e quase todos passaram por IA aplicada à saúde.
Enquanto os holofotes ficaram em terapias metabólicas (GLP-1 e afins), radioterapias avançadas e novas apostas em psiquiatria, o que realmente mudou o jeito de trabalhar nos bastidores foi a consolidação da IA como infraestrutura de P&D. Não é mais “um projeto de inovação”. Em muitas empresas, virou parte do processo: da triagem de moléculas à operação de ensaios clínicos.
Para quem atua no Brasil — hospitais, farmacêuticas, healthtechs, laboratórios, universidades e startups — essa retrospectiva de 2025 tem um recado direto: quem tratar IA como capacidade operacional (dados, validação, governança e integração) vai correr mais rápido e errar menos. O resto vai ficar preso em pilotos que não escalam.
2025 foi o ano em que a IA deixou de ser promessa
A resposta curta: IA virou ferramenta padrão em descoberta e desenvolvimento de fármacos. A resposta útil: a vantagem competitiva mudou de “usar IA” para usar IA bem.
Em 2025, vimos a IA sair do modo vitrine e entrar no modo chão de fábrica: times de química computacional, biologia estrutural, engenharia de proteínas e operações clínicas passaram a incorporar modelos e automações de forma contínua. O interesse cresceu especialmente em abordagens que combinam modelos generativos com modelagem baseada em física/estrutura, reduzindo o risco de soluções que “parecem boas” no dado histórico, mas falham no laboratório.
Na prática, isso cria um novo padrão de maturidade:
- Dados curados e rastreáveis deixam de ser “nice to have” e viram pré-requisito.
- Integração com sistemas internos (ELN, LIMS, repositórios, pipelines de bioinformática) determina ROI.
- Validação e controle de qualidade passam a ser parte do produto, não uma etapa final.
Uma frase que descreve bem 2025: IA virou infraestrutura — e infraestrutura só aparece quando dá problema ou quando faz tudo fluir.
O que isso muda no contexto brasileiro
No Brasil, onde coexistem ilhas de excelência e gargalos estruturais, a oportunidade está em fazer o básico muito bem feito:
- Padronizar dados clínicos e laboratoriais (terminologias, qualidade, consentimento e trilhas de auditoria).
- Construir capacidade de MLOps/LLMOps para evitar modelos que “morrem” após o piloto.
- Priorizar casos com impacto operacional: recrutamento, elegibilidade, farmacovigilância, suporte a decisão clínica, e otimização de pipeline.
O “choque metabólico” (GLP-1) criou o cenário perfeito para IA
A resposta direta: o boom de terapias metabólicas aumentou a pressão por desenvolver mais rápido, com evidência mais robusta e custo controlado — exatamente onde IA ajuda.
Em 2025, o ecossistema de GLP-1 ficou lotado: havia 11 medicamentos GLP-1 no mercado para diabetes e controle de peso e mais de 40 em desenvolvimento. Quando um campo fica competitivo assim, a diferença não é só molécula. É:
- selecionar melhor subpopulação;
- prever efeitos colaterais mais cedo;
- desenhar ensaios com endpoints eficientes;
- monitorar adesão e resposta no mundo real.
Aqui, IA para RWE (Real-World Evidence) e monitoramento de pacientes ganha força. Num país com SUS e saúde suplementar operando com restrições e judicialização, a discussão de cobertura e custo-efetividade tende a aumentar. Quem tiver capacidade analítica e governança para usar dados do mundo real com seriedade vai influenciar protocolo, negociação e acesso.
Aplicações práticas para 2026 no Brasil (sem “ficção científica”)
- Estratificação de risco cardiometabólico com modelos explicáveis (para rastreio e prevenção).
- Programas digitais de acompanhamento (peso, glicemia, sono, eventos adversos), com alertas e escalonamento clínico.
- Otimização de jornadas em ambulatórios (redução de faltas, priorização, follow-up automatizado).
O ponto é simples: GLP-1 ampliou a demanda por acompanhamento e evidência. IA é a ponte entre volume de pacientes e cuidado de qualidade.
Radiopharma em alta: onde IA reduz desperdício e acelera decisão
A resposta direta: radioterapias avançadas deixaram de ser nicho e viraram estratégia — e isso exige operações e dados muito bem coordenados.
Radiopharmaceuticals (radioligantes e terapias direcionadas) ganharam espaço porque oferecem uma lógica clínica atraente: entregar radiação de forma mais específica. Em 2025, resultados clínicos e expansão de indicações reforçaram a tese, e o setor entrou de vez no planejamento de portfólio. Só que radiopharma é “difícil por natureza”: logística, cadeia de suprimentos (isótopos), manufatura especializada e infraestrutura clínica.
É aí que IA começa a valer dinheiro rapidamente:
- Planejamento de produção e distribuição (previsão de demanda e restrições de meia-vida).
- Seleção de pacientes baseada em imagem e critérios clínicos.
- Análise de imagem (PET/SPECT) para quantificação padronizada e acompanhamento longitudinal.
- Otimização de protocolos e redução de retrabalho.
No Brasil, o potencial é real, mas a adoção depende de dois fatores que quase ninguém quer tratar de frente: interoperabilidade e qualidade de imagem/dados. Sem isso, você não tem dataset; tem álbum de fotos.
Psiquiatria de precisão e neuroplastógenos: a IA entra pela porta dos biomarcadores
A resposta direta: em 2025, a psiquiatria começou a dar sinais de que biomarcadores podem sair da teoria e chegar ao desenho de estudos — e IA é o motor dessa transição.
Dois movimentos se destacaram:
- Moléculas inspiradas em psicodélicos, incluindo compostos de ação mais curta e alternativas sem efeitos alucinógenos (neuroplastógenos), buscando efeito terapêutico com menor “custo” operacional de manejo do paciente.
- Psiquiatria de precisão, com estudos tentando selecionar respondedores por biomarcadores genéticos.
A lição aqui não é “IA vai diagnosticar depressão”. É mais pragmática: quando o fenótipo é heterogêneo e os sinais são sutis, a única saída é combinar bons dados com hipóteses biológicas e validação rigorosa.
E o alerta também veio forte: integrar multi-ômicas (genômica, transcriptômica, proteômica etc.) continua sendo um desafio prático. Muitos projetos afundam em:
- variáveis demais e amostras de menos;
- efeitos de lote (batch effects);
- fenotipagem inconsistente;
- histórico de medicação bagunçando o sinal.
No Brasil, isso sugere um caminho mais eficiente: começar por biomarcadores candidatos bem definidos, bancos de dados com padrões claros, e parcerias hospital-universidade com governança desde o dia 1.
Investimento e M&A em 2025: o mercado premiou quem tinha “prova”
A resposta direta: o capital ficou seletivo e o “meio” do mercado sofreu — e IA virou um dos critérios de qualidade quando conectada a dados e entrega.
Em 2025, o financiamento em biotech continuou com cara de “inverno prolongado”: IPOs escassos e foco em empresas com dados clínicos fortes e caminho claro para mercado. Houve oscilação de venture ao longo do ano e maior apetite por ativos já des-risked.
O recado para a agenda de IA em saúde é direto: não basta uma demo. Para atrair capital e parceiros, é preciso mostrar:
- desempenho em cenário real (não só em dataset “limpo”);
- integração com fluxo clínico e compliance;
- redução mensurável de custo/tempo ou aumento de qualidade;
- plano de validação e monitoramento pós-implantação.
Eu tendo a concordar com uma leitura dura, mas útil: em 2025, muita empresa passou a ser avaliada como “conjunto de ativos”, não como “história”. No Brasil, isso significa que projetos de IA em saúde e biotec precisam ser pensados como ativos replicáveis: dados + pipeline + governança + distribuição.
Checklist para aplicar as lições de 2025 em IA na Saúde e Biotecnologia
A resposta direta: quem quiser colher valor em 2026 precisa focar menos no modelo e mais no sistema que sustenta o modelo.
Aqui vai um checklist que uso para separar iniciativas que escalam das que viram “piloto eterno”:
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Problema bem definido
- Qual decisão clínica/operacional vai melhorar?
- Quem é o dono do processo?
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Dados com responsabilidade
- Consentimento, LGPD, rastreabilidade, controle de acesso.
- Dicionário de dados e métricas de qualidade.
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Validação séria
- Métricas clínicas (sensibilidade, especificidade, NPV/PPV quando aplicável).
- Avaliação de viés por subgrupos.
- Teste prospectivo quando possível.
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Integração no fluxo
- O usuário não pode “sair do sistema” para usar a IA.
- Logs, auditoria e explicabilidade adequada ao risco.
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Operação contínua (MLOps/LLMOps)
- Monitoramento de drift.
- Plano de atualização e governança de mudanças.
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Impacto medido em reais e em desfechos
- Tempo de ciclo (P&D, triagem, recrutamento).
- Redução de retrabalho.
- Desfechos clínicos ou qualidade assistencial.
Próximo passo: o Brasil não precisa copiar — precisa adaptar
2025 deixou uma mensagem clara para a série “IA na Saúde e Biotecnologia”: a IA que importa é a que entra na rotina, respeita regulação, melhora desfechos e reduz desperdício. GLP-1, radiopharma e psiquiatria mostram o mesmo padrão: quando a complexidade cresce, decisão baseada em dados vira vantagem estrutural.
Se você está desenhando estratégia para 2026, eu apostaria menos em “modelos mágicos” e mais em três frentes: dados confiáveis, parcerias com hospitais e centros de pesquisa, e produtos que cabem no fluxo real de cuidado.
A pergunta que fica para o próximo ano é direta: quando IA for tão comum quanto prontuário eletrônico, o que vai diferenciar sua organização — o algoritmo ou a capacidade de operar ciência e cuidado em escala?