Modelo RES prevê X50 da fragmentação com alta precisão. Veja como ligar geometria do desmonte e maciço à IA para reduzir custo e variabilidade.

Prever fragmentação no desmonte com dados e IA
Um desmonte mal calibrado costuma cobrar caro em duas moedas: energia e tempo. Quando a pilha de detritos (muck-pile) sai com fragmentos maiores do que o esperado, a conta aparece em engargalamentos no carregamento, britagem “no limite”, consumo extra de combustível e, muitas vezes, mais retrabalho com rompedor. E o mais frustrante é que, na prática, muita operação ainda trata a fragmentação como um “resultado do explosivo”, quando ela é — na maioria das vezes — um resultado do sistema.
Um estudo publicado em 2025 no Journal of Sustainable Mining propõe exatamente isso: olhar para a fragmentação como um sistema de engenharia. Os autores desenvolveram um modelo baseado em Rock Engineering System (RES) para prever o tamanho mediano dos fragmentos (X50) usando parâmetros geométricos do desmonte e propriedades do maciço rochoso. O modelo mostrou desempenho forte: R² = 0,922, com erros baixos (por exemplo, RMSE de 1,46 cm e MAPE de 3,112%), superando abordagens comparadas (incluindo Kuz-Ram e variações).
E aqui entra o tema da nossa série “IA na Mineração e Recursos Naturais”: modelos como o RES são um passo prático para a mineração orientada por dados. Eles ajudam a organizar variáveis, priorizar o que importa e preparar a base para soluções de IA aplicada ao desmonte, como previsão de fragmentação, otimização de malha e controle de variabilidade.
Por que o X50 da fragmentação manda na produtividade
X50 é o “termômetro” operacional da fragmentação: metade do material fica abaixo desse tamanho, metade acima. Quando você consegue prever o X50 com boa precisão, fica mais fácil ajustar o processo inteiro (não só o desmonte).
Na rotina de mina e pedreira, o X50 afeta diretamente:
- Taxa de carregamento: conchas e caçambas trabalham pior com blocos grandes e empilhamento irregular.
- Britagem e moagem: fragmentos grossos elevam consumo específico de energia, desgaste e paradas.
- Estabilidade e segurança: blocos grandes aumentam risco de rolamento, necessidade de intervenção e exposição.
- Sustentabilidade: mais energia na cominuição e mais retrabalho no desmonte significam maior pegada de carbono por tonelada.
Uma frase que resume bem: fragmentação previsível é eficiência previsível.
O erro mais comum: otimizar “a receita” e ignorar o maciço
Muita operação tenta padronizar o desmonte como se o maciço fosse constante. Só que ele não é. Mudam juntas, grau de fraturamento, dureza, litologia, água, orientação das descontinuidades — e a fragmentação muda junto.
A proposta do RES é interessante porque força uma visão sistemática: em vez de uma fórmula única, você estrutura as relações entre variáveis do maciço e do projeto de fogo.
O que o estudo trouxe de novo com o modelo RES
A principal contribuição é transformar 15 parâmetros relevantes em um modelo estruturado e validado estatisticamente para prever o X50 a partir de 30 frentes de desmonte selecionadas. Em termos simples: o método tenta capturar “como as peças se influenciam” e não apenas “quais peças existem”.
Entre os parâmetros avaliados (como citado no resumo do artigo), aparecem exemplos típicos do dia a dia:
- Tipo de rocha e dureza
- Diâmetro do furo
- Peso/carga de explosivo
- Padrão/malha de perfuração e desmonte
- Outros fatores do projeto de fogo e das propriedades do maciço que controlam a fragmentação
O desempenho relatado é um sinal forte de consistência:
- R² = 0,922 (alta capacidade explicativa)
- p-valor = 1,27E-13 (significância estatística robusta)
- Métricas de erro e acurácia:
- VAF = 93,57%
- RMSE = 1,46 cm
- MAPE = 3,112%
- MAE = 1,73 cm
RES na prática: por que “modelo de sistema” costuma funcionar bem
O RES (Rock Engineering System) é uma abordagem que, em geral, mapeia interações entre parâmetros. E isso casa com a realidade do desmonte:
- A mesma carga por metro pode dar resultados diferentes conforme fraturamento e orientação de juntas.
- Um ajuste de espaçamento pode melhorar fragmentação, mas piorar vibração ou aumentar backbreak.
- A água pode mudar a eficiência do explosivo, mas também o comportamento do maciço e a estabilidade do talude.
Quando você trata o problema como “sistema”, fica mais difícil cair em soluções simplistas.
Ponte direta para IA: do RES ao modelo preditivo operacional
O RES é um ótimo degrau para IA porque organiza variáveis e reduz o caos. Na mineração real, o obstáculo não é “falta de algoritmo”; é falta de dados bem estruturados e de uma lógica consistente para conectar geologia, perfuração, carregamento e resultado.
Eu gosto de pensar assim: o RES ajuda a responder “o que medir e como relacionar”. A IA ajuda a responder “qual o melhor ajuste, dado o que foi medido e o que está acontecendo agora”.
Como transformar isso num pipeline de previsão de fragmentação
Uma implementação prática (sem prometer milagre) costuma seguir este caminho:
- Aquisição de dados do maciço
- RQD, grau de fraturamento, litologia, resistência (quando disponível), mapeamento geológico-geotécnico.
- Dados do desmonte
- Diâmetro, burden, espaçamento, subperfuração, coluna de explosivo, fator de carga, sequenciamento.
- Medição da fragmentação
- Fotogrametria da pilha, análise por imagem, ou amostragem em correias (dependendo do processo).
- Modelo preditivo
- Começar com um modelo explicável (RES/estatístico) e evoluir para ML supervisionado quando houver massa crítica.
- Otimização e recomendação
- Sugestões de ajuste por domínio geológico: malha, energia específica, distribuição de carga, tempos.
Por que “explicabilidade” virou requisito em 2025
Com pressão por produtividade e por metas ESG, a operação precisa justificar mudanças. Modelos explicáveis (como estruturas baseadas em engenharia) ajudam a:
- Defender ajustes perante SSMA e engenharia
- Documentar aprendizado por domínio
- Evitar “overfitting operacional” (quando o modelo aprende ruído de uma fase da lavra)
A IA entra com força quando você combina:
- base engenheirada (RES) + dados confiáveis + feedback rápido (ciclo semanal ou por campanha).
Como usar a previsão de X50 para reduzir custo e variabilidade
O ganho real não é só melhorar a média; é reduzir a variabilidade. Uma operação que prevê o X50 com consistência consegue planejar melhor a alimentação da planta, reduzir picos de potência e minimizar intervenções.
Checklist de aplicação (o que eu faria em 30 dias)
Se você quer transformar previsão de fragmentação em projeto, aqui vai um plano de início rápido:
- Padronize a captura do “as-built” do desmonte
- O que foi perfurado e carregado de verdade (não só o plano).
- Crie um dicionário de variáveis por domínio
- Mesmas unidades, mesmas categorias de rocha, mesma nomenclatura.
- Escolha uma métrica-alvo clara
- X50 e, se possível, X80 (para capturar “cauda grossa”).
- Implemente medição por imagem em 3 frentes
- Poucas frentes, bem medidas, com rotina semanal.
- Rode um modelo base (engenharia/RES) antes do ML
- Você aprende onde o dado está ruim e onde o processo é instável.
Onde a previsão dá retorno mais rápido
Na prática, eu vejo retorno rápido em três pontos:
- Ajuste de malha por dureza/fraturamento (não por “padrão único”)
- Redução de blocos (menos rompedor e menos parada de britagem)
- Planejamento de blending (alimentar a planta com variabilidade controlada)
Se você só tem um objetivo para 2026, escolha este: reduzir eventos de fragmentação fora do padrão.
Perguntas que sempre aparecem (e respostas diretas)
“Isso substitui Kuz-Ram?”
Não necessariamente; complementa. Kuz-Ram é útil e difundido, mas modelos baseados em sistema (e depois ML) tendem a lidar melhor com a realidade de múltiplas interações e variabilidade do maciço.
“Preciso de IA para começar?”
Não. Dá para começar com RES/estatística e ganhar consistência. A IA entra quando você quer escalar para muitos domínios, incorporar mais sensores e operar com recomendação quase em tempo real.
“Qual é o maior risco?”
Medir fragmentação mal e treinar decisão ruim. Se o seu X50 é estimado de forma inconsistente (ângulos de foto, iluminação, amostragem tendenciosa), o modelo vira um amplificador de erro.
Próximos passos: do modelo ao desmonte mais sustentável
Prever o tamanho mediano dos fragmentos (X50) com base em geometria do desmonte e propriedades do maciço não é só um exercício acadêmico. É uma forma objetiva de melhorar produtividade, reduzir energia na cominuição e diminuir intervenção manual — exatamente o tipo de ganho que faz sentido quando falamos de IA na mineração com foco em operação e sustentabilidade.
Se você está avaliando iniciativas de analytics para 2026, eu começaria pelo básico bem feito: um modelo preditivo de fragmentação acoplado a rotina de medição confiável. Depois disso, fica natural evoluir para otimização com IA, recomendações por domínio e integração com planejamento de mina e controle da planta.
O que você prefere atacar primeiro na sua operação: reduzir blocos no ROM ou estabilizar a alimentação da britagem? A resposta costuma dizer onde o seu projeto de dados deve começar.