IA na mineração ajuda a reduzir emissões e lidar com riscos climáticos. Veja aplicações práticas em energia, água, segurança e fecho de mina.

IA na mineração: reduzir impactos e riscos climáticos
A mineração já não é só uma discussão sobre produção e custo por tonelada. Em 2025, o tema virou risco operacional, risco regulatório e risco de reputação — e todos eles passam pelo clima. Um estudo recente publicado no Journal of Sustainable Mining analisou 4.814 documentos na base Scopus para mapear como a ciência vem tratando a relação entre mineração e mudanças climáticas. O retrato é claro: a pressão por minerais cresce, o impacto ambiental acompanha, e o clima (com eventos extremos mais frequentes) está a começar a reduzir produtividade e aumentar interrupções.
Na prática, isso cria um ciclo difícil: a mineração contribui para emissões e alterações ambientais; em paralelo, ondas de calor, chuvas intensas e instabilidade hídrica tornam operações mais caras, perigosas e imprevisíveis. E é aqui que a série “IA na Mineração e Recursos Naturais” faz sentido: se a indústria precisa de respostas operacionais (não só relatórios), a IA aplicada é uma das poucas ferramentas capazes de ligar sustentabilidade, produtividade e tomada de decisão em tempo quase real.
A seguir, transformo os achados desse panorama bibliométrico em ações concretas: onde a ciência está a focar, o que isso significa para operações no Brasil e como IA, analítica avançada e automação ajudam a reduzir emissões, perdas e incidentes.
O que a ciência está a dizer sobre mineração e clima (em números)
O principal valor de uma análise bibliométrica é separar impressão de tendência real. Ao olhar para milhares de publicações, dá para perceber quais tópicos dominam, o que está a crescer e onde há lacunas.
O estudo analisou 4.814 documentos, usando o pacote Bibliometrix (R), e organizou resultados por padrões de publicação, citações globais, palavras-chave em tendência e contribuições por país. A mensagem central que fica é direta: a literatura liga mineração e clima sobretudo por três vias.
1) Emissões e energia: o “elefante na sala”
A extração e, principalmente, o uso de carvão e combustíveis fósseis são associados a CO₂ e a efeitos em cadeia. Mesmo quando uma mina não “queima” o produto, ela costuma depender de diesel, eletricidade intensiva e logística pesada.
Como isso se traduz em gestão: reduzir emissões não é só trocar combustível; é otimizar a operação inteira (rotas, tempos ociosos, britagem, bombeamento, ventilação, manutenção).
2) Impactos ambientais locais com efeito climático indireto
Alterações de uso do solo, poeira, supressão vegetal, mudanças hidrológicas e passivos de rejeitos podem amplificar vulnerabilidades — e isso pesa em licenças, auditorias e acesso a capital.
Como isso se traduz em gestão: o impacto climático não é apenas “escopo 1 e 2”; há também risco de cadeia e de território.
3) O clima como fator que derruba produtividade
O estudo destaca algo que muitas empresas ainda tratam como exceção: eventos extremos e aumento de temperatura passam a afetar a performance e a segurança.
Efeito típico no chão de mina:
- paragens por chuva e instabilidade de taludes
- perda de janela de lavra
- aumento de falhas em equipamentos (temperatura e poeira)
- stress térmico e restrições de jornada
- custos com água e energia para drenagem e ventilação
Se você é gestor(a) de operações, esse ponto é o mais “doloroso”: o clima vira um input operacional. E input operacional precisa de modelo, previsão e resposta rápida.
Onde a IA entra: transformar sustentabilidade em controlo operacional
A conversa sobre sustentabilidade costuma morrer no slide. A IA ajuda quando ela vira mecanismo de controlo, com métricas que operam junto com produção e segurança.
A minha posição aqui é simples: a mina que não usar modelos preditivos para clima, energia e integridade de ativos vai operar no escuro — e vai pagar por isso em downtime, incidentes e custo por tonelada.
IA para reduzir emissões sem “matar” a produtividade
A maior parte das emissões operacionais vem de consumo energético e de combustível. E aí há ganhos rápidos com IA porque existe dado: telemetria de frota, SCADA, consumo por turno, granulometria, tempos de fila.
Aplicações com retorno frequente:
- Otimização de despacho de frota (redução de ociosidade e filas)
- Roteirização dinâmica considerando inclinação, tráfego interno e condição de piso
- Controle avançado de processos (APC) em moagem e britagem para reduzir kWh/t
- Detecção de ineficiências (equipamentos “bons” a gastar como “ruins”)
Um bom projeto não promete magia: promete 1–3% de redução de combustível e 2–5% de energia em etapas específicas, com medição sólida. Em mineração, isso é dinheiro e emissões.
IA para adaptação climática: previsão e resiliência
Aqui está a parte subestimada. Mesmo com descarbonização, eventos extremos já estão no sistema. Adaptar é obrigatório.
Casos de uso fortes:
- Modelos de previsão operacional de chuva (curto prazo) para replanejar lavra e drenagem
- Nowcasting com dados locais (pluviômetros, radar, histórico, satélite) para decisões por frente
- Modelos de risco geotécnico (taludes, pilhas, barragens) integrando chuva acumulada, piezometria e deformação
- Gestão hídrica inteligente (bombeamento, bacias, recirculação) com otimização multiobjetivo
A diferença prática é esta: em vez de parar “porque choveu”, você para onde precisa, quando precisa — e mantém o resto a operar com segurança.
IA e segurança: clima piora o risco, dados reduzem o risco
Com calor mais intenso e eventos extremos, o risco humano cresce. IA ajuda não para vigiar pessoas, mas para gerir condições.
Exemplos:
- Índices de stress térmico por área/turno, combinando temperatura, humidade e tipo de tarefa
- Alertas por proximidade e fadiga (quando aplicável e com governança)
- Visão computacional para detecção de poeira excessiva e conformidade em áreas críticas
Quando a empresa trata isso como engenharia e não como “campanha”, a taxa de incidentes tende a cair.
Fecho de mina e engenharia verde: o ponto mais esquecido (e onde a IA ajuda muito)
O estudo sugere dois caminhos para reduzir impactos: práticas científicas de fecho de mina e engenharia verde. Isso costuma ser empurrado para o fim do projeto — o que é um erro caro.
A abordagem correta é planejar fecho desde o primeiro ano, porque:
- diminui passivo e custo futuro
- reduz risco de drenagem ácida e instabilidade
- melhora licenciamento e relacionamento com comunidades
Como aplicar IA no fecho e na reabilitação
A IA entra com força quando existe território grande e variáveis ambientais múltiplas.
Aplicações práticas:
- Monitorização remota (satélite/drones) para vegetação, erosão e assoreamento
- Modelos de priorização de áreas de reabilitação com base em risco (declividade, chuva, solo)
- Detecção precoce de anomalias em estruturas de contenção por séries temporais
- Planeamento de taludes e cobertura com simulação e otimização para reduzir manutenção pós-fecho
Uma frase que resume bem: fecho de mina não é só obra; é sistema de monitorização e decisão por anos.
Um roteiro prático para começar (e não travar no piloto eterno)
Quem lê sobre IA na mineração costuma perguntar: “por onde começo sem criar um Frankenstein de dados?” Eu faria em quatro passos, com foco em resultados medíveis.
1) Defina 3 indicadores que unem clima, custo e produção
Exemplos bons (e mensuráveis):
- litros de diesel por tonelada movimentada (por tipo de rota)
- kWh/t em britagem/moagem (por granulometria de alimentação)
- horas de paragem por evento climático (classificadas por causa)
Sem indicador, o projeto vira demo.
2) Comece por um “caso de uso estreito” com alto impacto
Sugestões típicas:
- otimização de despacho de frota
- manutenção preditiva de caminhões e correias
- previsão de chuva e plano de drenagem por área
Um caso estreito acelera aprendizagem e governança.
3) Faça governança de dados desde o início
O básico bem feito:
- dicionário de dados operacional
- qualidade (completude, latência, consistência)
- trilha de auditoria (quem alterou o quê)
- regras de acesso e LGPD quando houver dados pessoais
4) Integre IA ao planeamento semanal e à sala de controlo
Modelo que não entra no ritual operacional morre. O objetivo é virar rotina:
- recomendações no início do turno
- alertas com limiar claro
- pós-análise: o que funcionou e o que não funcionou
Perguntas comuns (e respostas diretas)
A IA substitui iniciativas de descarbonização?
Não. Ela acelera e dá consistência: identifica perdas, otimiza energia e reduz o “achismo” na operação.
Dá para aplicar IA sem uma mina totalmente digital?
Dá, desde que você escolha casos de uso com dados disponíveis (telemetria mínima, produção por turno, clima local). A maturidade cresce por etapas.
O que tende a falhar nesses projetos?
Três coisas: dado ruim, meta vaga e falta de dono operacional. IA sem dono vira relatório; com dono vira alavanca.
O que fazer agora
A análise bibliométrica mostra um consenso: mineração e mudanças climáticas estão conectadas por impacto e por vulnerabilidade. O setor vai ser cobrado por reduzir emissões e, ao mesmo tempo, vai sofrer com mais interrupções climáticas. Eu não vejo espaço para improviso.
Se você está a tocar operações, sustentabilidade, engenharia ou tecnologia, o próximo passo é escolher um problema real (energia, água, taludes, manutenção) e tratá-lo como produto: indicador, modelo, integração e rotina. A IA na mineração não é sobre “ter IA”; é sobre operar melhor com menos impacto.
A pergunta que fica para 2026 é simples: quando o próximo evento extremo bater, a sua mina vai responder com feeling — ou com previsão, cenário e decisão em minutos?