Gêmeos digitais e IA aceleram a DLE, reduzindo energia, água e tempo de escala. Veja como aplicar na mineração e recursos naturais.

Gêmeos digitais para extração sustentável de lítio
A corrida pelo lítio tem um detalhe que muita gente ignora: não é só “achar a jazida”. O gargalo real está em transformar uma salmoura (ou outro insumo complexo) em lítio de qualidade, com custo e impacto ambiental aceitáveis. E é aí que muita operação se perde — energia demais, água demais, tempo demais.
O que me chama atenção, especialmente neste final de 2025, é como a conversa sobre lítio ficou menos “geologia” e mais engenharia de processo + dados. O caso da Lithium Harvest usando o gPROMS (Siemens) para acelerar Direct Lithium Extraction (DLE) mostra um caminho prático: gêmeos digitais de processo para testar, otimizar e escalar com menos tentativa e erro. Para quem acompanha a série IA na Mineração e Recursos Naturais, isso é uma ponte direta para o que mais importa em mineração moderna: produtividade, segurança operacional e sustentabilidade com números na mesa.
Por que a DLE virou prioridade (e por que ela é difícil)
A DLE virou prioridade porque ela promete encurtar ciclos de produção e reduzir dependência de grandes áreas de evaporação, comuns em rotas tradicionais. Em termos industriais, o apelo é simples: mais agilidade para atender demanda de baterias, armazenamento de energia e eletrificação.
O problema: DLE é uma fábrica química disfarçada de “extração”. Você lida com salmouras variáveis, impurezas, equilíbrio químico, transferência de massa, regeneração de materiais e etapas de separação que interagem entre si. Se você muda um parâmetro para aumentar recuperação, pode elevar consumo de energia ou piorar a seletividade. Se você reduz água, pode comprometer limpeza, regeneração ou estabilidade do processo.
As três dores clássicas da DLE
A resposta direta é: DLE dá trabalho porque tenta equilibrar três variáveis ao mesmo tempo.
- Energia: aquecimento, bombeamento, compressão, vácuo, eletroquímica — cada rota tem um perfil.
- Água: lavagem, regeneração, pré-tratamento e gestão de efluentes.
- Separação complexa: remover magnésio, cálcio, boro e outros competidores sem “perder” lítio.
Na prática, o que atrasa projetos é a dependência de campanhas extensas de testes e pilotos caros. Quando o desenvolvimento é 100% físico, o ciclo costuma ser: testar → ajustar → testar → errar na escala → corrigir… e o cronograma estoura.
Gêmeo digital de processo: o jeito mais rápido de aprender sem quebrar a planta
Um gêmeo digital de processo é um modelo que replica o comportamento de um processo industrial com base em física, química e dados operacionais. A vantagem é objetiva: você consegue simular cenários que seriam caros, lentos ou arriscados no mundo real.
No caso citado no RSS, o gPROMS atua como plataforma de modelagem e otimização para criar modelos mecanísticos (baseados em fenômenos) do processo completo — do pré-tratamento da salmoura até as etapas de extração e pós-processamento.
O que esse tipo de gêmeo digital consegue responder
A resposta curta: ele responde perguntas que o Excel e o “feeling” não aguentam.
- Qual configuração atinge maior recuperação de lítio com menor energia?
- Quais variáveis são realmente críticas (e quais são ruído)?
- Como a operação se comporta quando o insumo muda (sazonalidade, lote, poço)?
- Onde estão os gargalos de transferência de massa, saturação, fouling, regeneração?
E um ponto que muita equipe subestima: gêmeo digital bem construído vira uma linguagem comum entre P&D, engenharia, operação e ESG. Todo mundo discute a mesma “verdade operacional”, mesmo antes do comissionamento.
Onde a IA entra: otimização, controle e manutenção preditiva
Gêmeos digitais não são “IA por si só”, mas são um prato cheio para IA aplicada. Na indústria, a combinação que mais dá resultado é:
- Modelo físico (gêmeo digital) para representar restrições e fenômenos reais;
- IA/ML para aprender padrões, lidar com variabilidade, prever falhas e acelerar busca por ótimos.
Essa abordagem híbrida (física + dados) é particularmente forte em mineração e recursos naturais, onde o insumo raramente é estável.
IA para otimização de processo: do laboratório à escala comercial
A resposta direta: IA encurta o caminho até o melhor ponto de operação.
Em DLE, você tipicamente ajusta variáveis como vazão, tempo de ciclo, concentração, temperatura, pH, pressão, sequências de válvulas e condições de regeneração. Um gêmeo digital permite rodar milhares de simulações. A IA pode:
- Explorar o espaço de decisão (muitas variáveis ao mesmo tempo);
- Encontrar configurações com melhor trade-off (recuperação × energia × água);
- Sugerir “janelas operacionais” robustas para variações no insumo.
Isso é o oposto do ajuste fino manual. E, em geral, é aqui que aparecem ganhos reais: menos retrabalho, menos testes redundantes, menos surpresas na escala.
IA para controle avançado e estabilidade
A resposta direta: depois de escalar, o desafio vira manter estabilidade.
DLE tende a ser sensível a variações. Com um gêmeo digital calibrado, dá para:
- Projetar controle avançado (por exemplo, preditivo) usando o modelo como referência;
- Criar estratégias de transição (partida/parada, trocas de campanha, mudanças de qualidade do insumo);
- Definir alarmes e limites baseados em física, não só em histórico.
Manutenção preditiva em plantas de DLE
A resposta direta: dá para prever problemas antes de eles virarem perda de produção.
Alguns pontos típicos de atenção (dependendo da rota):
- Bombas e compressores (vibração, consumo específico de energia);
- Membranas (queda de desempenho, entupimento, ΔP crescente);
- Colunas/resinas/adsorventes (perda de capacidade, degradação, necessidade de regeneração mais frequente);
- Cristalização e trocadores térmicos (incrustação e eficiência).
Com dados online + modelo do processo, você consegue separar o que é “variação normal” do que é sinal de deterioração. Isso reduz paradas inesperadas e melhora o OEE.
O que o caso Lithium Harvest + gPROMS ensina para mineração no Brasil
A lição principal não é “use tal software”. É cultural: parar de tratar P&D e operação como mundos separados.
O RSS destaca benefícios claros para acelerar desenvolvimento e escala. Traduzindo isso para a realidade de projetos no Brasil (mineração, química, fertilizantes, siderurgia, papel e celulose), dá para extrair quatro práticas que eu considero decisivas.
1) “Escala” não começa no piloto. Começa no modelo
A resposta direta: a melhor hora de pensar em escala é antes de gastar no piloto.
Com gêmeos digitais, você consegue identificar cenários inviáveis cedo: consumo energético impraticável, gargalo de separação, instabilidade em ciclos, ou sensibilidade extrema à variabilidade do insumo. Isso evita pilotar um processo que já nasceu com problemas.
2) ESG com engenharia, não com PowerPoint
A resposta direta: sustentabilidade vira variável de projeto, não peça de marketing.
Quando você modela energia e água como parte do objetivo de otimização, você consegue tomar decisões concretas:
- Vale a pena um pré-tratamento mais caro se reduzir água e efluente?
- Qual arranjo de separação minimiza perdas e consumo específico?
- Onde o processo desperdiça energia por controle ruim ou operação fora da janela?
Isso facilita atender requisitos de licenciamento, auditorias e governança, porque os argumentos vêm de balanços de massa e energia, não de promessas.
3) Variabilidade do minério/salmoura é regra — e o processo precisa aguentar
A resposta direta: robustez é mais valiosa do que um pico de performance.
Em recursos naturais, a alimentação muda. Se o processo só funciona no “lote perfeito”, ele vai falhar na vida real. Modelagem de processo + IA ajuda a desenhar faixas operacionais e não apenas um ponto ótimo teórico.
4) Tempo de mercado virou KPI
A resposta direta: reduzir meses no cronograma pode valer mais do que 1% de recuperação.
Projetos de lítio (e de minerais críticos em geral) vivem sob pressão de capital e janela de demanda. Se um gêmeo digital reduz rodadas de teste e acelera decisões de engenharia, isso mexe diretamente em:
- CAPEX (menos retrabalho, menos sobredimensionamento);
- OPEX (operação mais eficiente desde o start);
- Risco do projeto (menos incógnitas na comissionamento).
Como começar um projeto de gêmeo digital (sem virar um “projeto eterno”)
A resposta direta: comece pequeno, com uma dor específica, e escale por módulos.
Tenho visto iniciativas falharem quando tentam modelar “a planta inteira” de primeira. Um roteiro mais pragmático:
- Escolha um caso de uso com dono: por exemplo, reduzir consumo específico de energia em uma etapa de separação, ou estabilizar ciclos de adsorção.
- Defina métricas (3 no máximo): recuperação (%), energia (kWh/t), água (m³/t) — ou custo por tonelada equivalente.
- Mapeie dados mínimos: composição, vazões, temperaturas, pressões, tempos de ciclo, qualidade do produto.
- Modele o módulo crítico: membranas, troca iônica, adsorção em carrossel ou cristalização.
- Calibre e valide: sem validação, é só simulação bonita.
- Integre com operação: dashboard simples, recomendações acionáveis, alarmes.
Um gêmeo digital só “vira produto” quando a operação confia nele para tomar decisão em dia ruim, não só em apresentação de projeto.
O próximo passo da DLE: plantas mais inteligentes e mais previsíveis
A colaboração citada no RSS reforça um movimento que deve crescer em 2026: processos complexos sendo projetados já com gêmeo digital, e não recebendo um “modelo” depois que a planta existe. Isso muda a lógica de engenharia e acelera aprendizagem.
Na série IA na Mineração e Recursos Naturais, o recado é claro: o mesmo raciocínio vale para britagem, moagem, flotação, lixiviação, concentração, espessamento e filtragem. Onde há variabilidade e custo de energia, há espaço para IA + gêmeo digital + otimização.
Se você está avaliando DLE, minerais críticos ou mesmo melhorias em plantas existentes, minha sugestão é simples: pare de apostar só em mais teste e mais piloto. Use o que a manufatura avançada já aprendeu: simular, otimizar e operar com modelos vivos.
E a pergunta que fica para o seu time é bem prática: se a alimentação variar 20% amanhã, você tem um processo que se adapta — ou um processo que “pede sorte”?