Válvulas inteligentes e controlo por zona mostram como dados e automação criam eficiência. Um caso real que inspira IA e manufatura inteligente.

Válvulas inteligentes: o ‘chão de fábrica’ dos edifícios
500 apartamentos num único empreendimento parecem “só” um projeto imobiliário. Na prática, é um sistema industrial em miniatura: centenas de zonas térmicas, redes hidráulicas complexas, medições contínuas e uma necessidade clara de eficiência energética. É por isso que a escolha de automação e controlo — especialmente em aquecimento e arrefecimento — deixa de ser detalhe técnico e vira estratégia.
No Léna Lakópark, em Paks (Hungria), a infraestrutura de climatização vai usar 1000 válvulas de controlo independentes da pressão (PICV), 500 válvulas de seis vias para alternar entre arrefecimento e aquecimento, e ainda 15 válvulas inteligentes comunicantes no centro térmico. Se este conjunto te lembra sensores, atuadores e redes de dados de uma fábrica inteligente, é porque a lógica é a mesma: medir, controlar, otimizar e antecipar.
Este artigo faz parte da série “IA na Indústria e Manufatura” e usa este caso residencial como um espelho útil para o que funciona (e o que falha) em ambientes industriais: quando o controlo é granular, os dados são confiáveis e a integração é pensada desde o início, a eficiência deixa de depender de “ajustes manuais” e passa a ser governada por regras, modelos e automação.
O que este projeto mostra sobre automação “a sério”
A principal lição é simples: não existe eficiência energética consistente sem controlo consistente. Em edifícios, isso aparece como conforto e conta de energia. Na indústria, aparece como OEE, desperdício, refugo e manutenção.
No Léna Lakópark, cada apartamento terá controlo individual por divisão (regulação por ambiente). Em termos de engenharia de controlo, isso equivale a sair de um comando “macro” (um setpoint para todos) e ir para uma arquitetura multi-zona, onde cada zona tem variáveis próprias e necessidades diferentes.
O paralelo com manufatura é direto:
- Um apartamento não é “igual” ao outro (orientação solar, ocupação, hábitos) — tal como duas linhas não se comportam igual.
- Um único setpoint global cria conflitos — tal como um único parâmetro de processo raramente otimiza qualidade e custo ao mesmo tempo.
- A solução é instrumentação + atuação distribuída + dados — base de qualquer automação industrial moderna.
Por que o controlo por zona reduz custo (sem sacrificar conforto)
Quando cada zona tem um atuador (válvula) e uma lógica de regulação, o sistema evita dois desperdícios comuns:
- Sobreaquecimento/sobrearrefecimento: energia gasta para “passar do ponto”, e depois energia gasta para corrigir.
- Desbalanceamento hidráulico: uns circuitos “roubam” caudal de outros, levando a que o sistema compense com bombas mais fortes e setpoints mais agressivos.
Em indústria, vemos o mesmo fenómeno em ar comprimido, vapor, refrigeração e água gelada: sem controlo fino, o desperdício aparece na conta e na instabilidade do processo.
PICV e válvulas de seis vias: o equivalente a “controle de processo”
A resposta curta: PICV e válvulas de seis vias reduzem variabilidade, e variabilidade é o inimigo nº 1 de eficiência.
No projeto:
- 1000 PICV (válvulas independentes da pressão) controlam o caudal para emissores térmicos (ex.: piso radiante, fan-coils).
- 500 válvulas de seis vias fazem a comutação entre arrefecimento e aquecimento.
PICV: o que resolve na prática
Uma PICV combina duas funções: limitação de caudal e controlo modulante. O ponto decisivo é “independente da pressão”: mesmo com variações na rede (mudanças de pressão diferencial ao longo do dia), a válvula mantém o caudal dentro do comportamento esperado.
Traduzindo para a linguagem de manufatura: é como colocar um controle robusto que não “se desregula” quando o resto do sistema muda. Em linhas de produção, isso equivale a manter consistência quando há variação de matéria-prima, temperatura ambiente, cargas, turnos ou lotes.
Benefícios típicos (também na indústria):
- Comissionamento mais previsível (menos tempo a “caçar” equilíbrio)
- Menos reclamações/instabilidade
- Menos energia em bombas (porque não é preciso compensar desequilíbrios crónicos)
Válvula de seis vias: flexibilidade operacional com uma lógica clara
A válvula de seis vias é muito usada em fan-coils e sistemas de quatro tubos “virtualizados”. O valor está em permitir que a zona alterne entre modo aquecimento e modo arrefecimento de forma controlada.
Na indústria, a analogia é a troca de receitas, modos de operação e setpoints por produto. O risco é sempre o mesmo: transições mal geridas geram picos, oscilação e consumo extra.
Uma regra prática que eu sigo: se o teu sistema muda de modo com frequência, investe mais em controle e medição do que em “capacidade”. Capacidade sem controle vira desperdício.
Dados e integração: o alicerce para IA (em edifícios e fábricas)
O artigo original destaca um ponto que vale ouro para quem trabalha com IA na indústria: estes dispositivos vão operar integrados com instrumentos de medição, independentemente do fabricante, permitindo que os residentes acompanhem dados e ajustem conforme a necessidade.
Isto é o “DNA” de projetos bem-sucedidos de IA:
- Dados confiáveis (qualidade do dado > quantidade)
- Interoperabilidade (evitar ilhas de automação)
- Ações automatizáveis (atuadores que respondem a regras/modelos)
Sem isso, IA vira um dashboard bonito que não altera o mundo real.
O que muda quando o dado chega ao utilizador (ou ao operador)
Num prédio, o utilizador quer conforto e custo. Numa fábrica, o operador quer estabilidade, produtividade e qualidade. Em ambos, quando o dado é acessível e faz sentido, acontece:
- decisões mais rápidas (menos “achismo”)
- melhor detecção de anomalias (consumo fora do padrão, válvula presa, sensor drift)
- base para manutenção preditiva
E aqui está o salto para IA: com histórico suficiente, dá para treinar modelos que antecipem falhas e recomendem ajustes de setpoint/caudal antes da reclamação (ou antes da paragem).
Válvulas inteligentes comunicantes: do comissionamento à manutenção preditiva
No centro térmico do empreendimento, serão instaladas 15 válvulas inteligentes comunicantes. Elas conseguem integrar-se com sistemas de supervisão (BMS) e, segundo a descrição, permitem parametrização via app, facilitando instalação e colocação em serviço.
A resposta curta do porquê isto importa: o custo total de um sistema não está na compra — está em comissionamento, energia e manutenção.
Por que “comunicante” é mais do que conveniência
Quando um atuador comunica e reporta estados/diagnósticos, passas a ter:
- telemetria: posição, comando, resposta, alertas
- diagnóstico: comportamento fora do esperado (ex.: válvula abre, mas o caudal não muda)
- padronização: parametrização repetível (menos variação entre técnicos/turnos)
Em manufatura, isto é o equivalente a instrumentação com diagnóstico embutido (smart positioners, sensores com health index, drives com alarmística). Não é “luxo”. É o que permite manter a performance ao longo de anos.
3 casos de uso de IA que este tipo de infraestrutura permite
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Detecção de anomalias energética
- Modelo aprende o “consumo normal” por horário, ocupação e estação.
- Alerta quando há desvios persistentes (p. ex., válvula a deixar passar caudal indevido).
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Manutenção preditiva de atuadores
- Aumento de tempo de resposta, ciclos excessivos, inconsistência entre comando e efeito.
- Priorização de intervenções por impacto (energia + conforto).
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Otimização multiobjetivo
- Minimizar custo energético mantendo limites de conforto.
- Em fábrica: minimizar energia mantendo qualidade e throughput.
Uma frase que dá para levar para o teu roadmap: IA sem atuador é só recomendação; automação com atuador é execução.
Como replicar a lógica do “edifício inteligente” na tua fábrica
A melhor ponte entre o Léna Lakópark e a indústria é tratar utilidades e processos como um ecossistema controlável por camadas. Se estás a perseguir fábrica inteligente, começa por onde há retorno rápido: energia, utilidades, climatização industrial, água gelada, vapor e ar comprimido.
Checklist prático (sem romantizar o assunto)
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Instrumenta o que dói no orçamento
- Mede caudais, pressões, temperaturas e consumos nos pontos certos.
- Se não consegues fechar um balanço energético por área/linha, estás a trabalhar às cegas.
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Padroniza atuadores e sinais críticos
- Válvulas e drives “inteligentes” ajudam porque trazem diagnóstico.
- Menos variações = modelos de IA mais confiáveis.
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Garante interoperabilidade desde o início
- Integração entre fabricantes é um requisito, não um “nice to have”.
- Evita que dados fiquem presos em ilhas (e depois pagues duas vezes por integração).
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Começa com casos de uso fechados (medir → decidir → agir)
- Ex.: reduzir consumo de bombas mantendo setpoints.
- Ex.: detetar válvula a falhar antes de perder qualidade.
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Treina equipas para comissionamento digital
- Apps, parametrização, registos de configuração e gestão de mudanças.
- A “IA” do teu projeto muitas vezes falha por falta de disciplina operacional, não por algoritmo.
Perguntas que surgem sempre (e respostas diretas)
“Isto é IA ou só automação?”
É automação com base de dados. E isso é bom. IA entra quando usas histórico + modelos para prever, recomendar e otimizar, indo além do controlo clássico.
“Vale a pena começar por válvulas e utilidades?”
Sim, porque utilidades têm três características raras: alto consumo, medição viável e ganhos rápidos. É um caminho pragmático para financiar o resto da transformação digital.
“O que costuma dar errado?”
Três coisas: sensores mal posicionados, integração improvisada e comissionamento apressado. Em qualquer setor.
Próximos passos: trazer a mentalidade de controlo para a tua operação
O Léna Lakópark é um bom lembrete de que sistemas complexos funcionam quando o controlo é pensado como produto: instrumentos certos, atuadores confiáveis, integração e visibilidade. A diferença é que, numa fábrica, os ganhos aparecem em três linhas do P&L ao mesmo tempo: energia, paragens e qualidade.
Se estás a desenhar o teu roadmap de IA na Indústria e Manufatura, eu começaria por uma pergunta muito concreta: onde é que a tua operação sofre mais com variabilidade — e que variável de processo precisas de controlar melhor para reduzir essa variabilidade? A partir daí, a tecnologia deixa de ser tendência e vira decisão.