Robótica com IA já está pronta para produção. O desafio é integrar e escalar: standards como SRCI, simulação e foco em usabilidade aceleram o ROI.
Robótica com IA na fábrica: integrar rápido, escalar melhor
Em 2025, a robótica industrial já não está presa ao “robô programado para repetir movimentos”. O que está a ganhar tração nas fábricas é a combinação de IA + visão + sensores + integração com automação, capaz de produzir robôs mais autónomos, orientados por intenção e adaptáveis a variações reais do chão de fábrica.
E aqui vai a parte menos glamorosa — e mais determinante: a tecnologia já funciona, mas muitas empresas ainda hesitam em escalar. Não por falta de casos de uso, e sim porque a integração e a usabilidade continuam a ser o ponto onde os projetos derrapam em custo, tempo e risco. É precisamente isso que ficou claro no “Get Together for Robotics” 2025, encontro internacional que juntou fabricantes de robôs, fornecedores de automação, startups e utilizadores industriais.
Nesta edição da série “IA na Indústria e Manufatura”, vou ligar os pontos entre o que se discutiu no evento e o que interessa a quem tem metas de produtividade, qualidade e disponibilidade para bater em 2026: como transformar robótica com IA em ROI, sem transformar a fábrica num laboratório infinito.
O estado real da robótica com IA em 2025: já dá para produzir
A resposta direta: sim, já dá para colocar robótica com IA a produzir — mas ainda é difícil fazê-lo de forma repetível e escalável.
O evento “Get Together for Robotics” 2025 (organizado pela comunidade PI) teve participação recorde, com cerca de 170 participantes entre fornecedores e utilizadores, e um sinal importante: forte presença de executivos C-level. Isto costuma acontecer quando a tecnologia sai do “piloto simpático” e entra na conversa de orçamento, risco operacional e impacto no OEE.
O foco em IA foi inevitável. Viu-se:
- Aplicações multivendor (robôs, câmaras, sensores e software de diferentes marcas a trabalhar em conjunto)
- Programação low-code/no-code a aproximar equipas de processo e automação
- Robôs com visão mais robustos para variação de peças, iluminação e posicionamento
- Discussão madura sobre o que falta: simplificar integração e operação
Um bom resumo do momento: “a autonomia aumentou; a fricção para implementar também”.
O mito que trava muita fábrica: “robótica com IA é só para quem tem uma equipa gigante”
Most companies get this wrong: insistem em começar por uma célula “super avançada”, cheia de customizações. Funciona — até mudar o produto, trocar um fornecedor de robô, ou precisar de escalar para mais 10 linhas.
Robótica com IA não pode depender de heróis. Precisa de padrões, bibliotecas reutilizáveis e integração previsível. É aqui que entram os standards e os ecossistemas.
Por que a adoção ainda não escala? Usabilidade e integração são o gargalo
A resposta direta: o gargalo não é o robô mexer-se; é o sistema completo funcionar como parte da fábrica.
Quando falamos de “robótica com IA” no contexto de manufatura, raramente é um robô isolado. É um conjunto:
- PLC e lógica de máquina
- Robô (ou vários)
- Visão (2D/3D) e iluminação
- Sensores (força/torque, proximidade, segurança)
- Redes industriais e protocolos
- MES/SCADA/Historiadores
- Requisitos de segurança funcional e cibersegurança
O problema prático: cada integração “custom” cria dívida técnica. E dívida técnica em fábrica vira:
- comissionamento mais longo
- paragens maiores na mudança de produto
- dependência de especialistas externos
- dificuldade em replicar a célula noutra planta
No evento, a ideia repetiu-se: ainda existe hesitação no chão de fábrica para adoção em larga escala porque “tem de ser mais simples”. E eu concordo. Se o projeto só é viável quando tens o integrador perfeito e o programador perfeito, então não é estratégia — é sorte.
O que muda o jogo na prática: integração “industrial”, não “projeto artesanal”
Para escalar robótica com IA, a fábrica precisa de algo parecido com o que já funciona em automação há décadas:
- Interfaces padronizadas entre equipamentos
- Engenharia reaproveitável (templates, bibliotecas, tags, diagnósticos)
- Simulação e validação antes da paragem
- Operação simples para manutenção e produção
É aqui que standards como o SRCI aparecem como resposta concreta ao problema.
SRCI e a padronização que acelera o ROI na robótica industrial
A resposta direta: standards de interface como o SRCI reduzem esforço de engenharia e risco de integração — e isso aumenta a velocidade do ROI.
O SRCI (uma iniciativa dentro do ecossistema PI) tem um objetivo muito pé no chão: fazer PLCs, sistemas de visão e sensores “falarem” com robôs de diferentes fabricantes de forma mais consistente. Menos adaptações específicas por marca, menos re-trabalho quando se muda o robô, mais previsibilidade no comissionamento.
Um dado importante citado no contexto do movimento: a expectativa é que o SRCI esteja disponível para cerca de 65% do mercado de robôs até 2026. Se isso se confirmar, muda a economia de decisão: padronizar deixa de ser “nice-to-have” e vira vantagem competitiva.
“Integração universal” não é marketing — é menos paragem e menos retrabalho
Numa fábrica real, padronização tem impactos mensuráveis:
- redução do tempo de comissionamento (menos mapeamento manual de sinais e comandos)
- melhor diagnóstico (falhas mais fáceis de rastrear)
- troca de fornecedor com menor custo (evita lock-in)
- treino mais simples (mesma lógica de operação entre células)
E isso conversa diretamente com o objetivo da série “IA na Indústria e Manufatura”: IA só vira eficiência quando está integrada e controlada como parte do sistema produtivo.
Da programação à simulação: como tornar robótica com IA “operável”
A resposta direta: ganha quem encurta o caminho entre ideia → célula validada → operação estável.
Uma das linhas mais práticas do debate é que a robótica está a aproximar-se do modelo “engenharia industrial”: planear, programar, testar e operar com ferramentas mais unificadas. No contexto apresentado, soluções de integração e bibliotecas de robótica permitem que utilizadores planeiem e operem robôs de diferentes fabricantes com uma interface comum — reduzindo a necessidade de especialistas dedicados apenas a uma marca.
Simulação não é luxo: é seguro, rápido e previsível
Se a tua fábrica ainda vê simulação como “coisa de projeto grande”, estás a deixar dinheiro na mesa.
Uma abordagem madura para robótica com IA inclui:
- simular ciclos e alcances antes de mover equipamentos
- validar tempos de ciclo e gargalos de movimento
- testar cenários de falha (peça mal posicionada, falha de visão, perda de rede)
- treinar equipa sem parar linha
Quando a simulação é baseada em controladores e bibliotecas consistentes, ficas mais perto do ideal: comissionamento com menos surpresas.
Low-code/no-code: bom para começar, insuficiente para escalar sozinho
Low-code ajuda a acelerar protótipos e reduzir barreiras. Mas há um alerta: em ambiente industrial, a célula precisa de:
- gestão de versões e mudanças
- rastreabilidade (qual lógica está em produção?)
- validação e testes
- documentação operável
O “no-code” sem governança vira um “shadow automation”. O caminho saudável é combinar facilidade de criação com disciplina de engenharia.
Casos de uso com mais ROI: onde IA + robótica já paga a conta
A resposta direta: os melhores ROI aparecem quando a IA resolve variabilidade e a robótica entrega repetibilidade.
Na manufatura, o ROI raramente vem de “ter um robô”. Vem de reduzir uma dor concreta: refugo, retrabalho, paragens, falta de mão de obra, riscos ergonómicos, ou instabilidade de qualidade.
Aqui vão exemplos comuns em 2025 (e o que a IA acrescenta):
1) Bin picking e alimentação flexível de linhas
- Dor: peças em caixas, orientações aleatórias, variação de lote
- IA/visão: deteção 3D, seleção de pega, adaptação a reflexos/oclusões
- Resultado típico: menos gabaritos, troca de produto mais rápida
2) Inspeção de qualidade com visão e decisões automáticas
- Dor: inspeção manual inconsistente e lenta
- IA: deteção de defeitos por visão, classificação por severidade, tendência por turno
- Resultado típico: menos refugo a jusante, rastreabilidade melhor
3) Montagem assistida e manipulação sensível
- Dor: tolerâncias, encaixes, força variável
- IA + sensores de força/torque: ajuste em tempo real, deteção de anomalias
- Resultado típico: menos peças danificadas e menos paragens por ajustes
4) Paletização e final de linha com variação
- Dor: múltiplos SKUs, padrões de palete, alturas
- IA: reconhecimento e otimização de padrão, deteção de instabilidade
- Resultado típico: mais throughput com menos reprogramação
A regra que eu sigo: se a peça e o processo são 100% previsíveis, automação clássica resolve. Se existe variabilidade real (posição, aparência, lote, fornecedor), IA + visão + robótica passam a fazer sentido.
Checklist para levar robótica com IA do piloto à escala em 90 dias
A resposta direta: o plano certo prioriza integração, segurança e replicabilidade — não “features”.
Se eu estivesse a orientar uma equipa industrial agora, em dezembro de 2025, eu começaria assim:
- Escolhe 1 célula com dor financeira clara (refugo, paragens, falta de mão de obra) e mede o baseline.
- Define requisitos de integração desde o dia 1: PLC, rede, MES, alarmística, modos de operação, segurança.
- Exige padrões e bibliotecas: comandos, estados, diagnósticos e estrutura de tags reutilizáveis.
- Projeta para troca de SKU: tempos de setup, receitas, validação de visão, tolerâncias.
- Simula antes da paragem: ciclo, alcance, colisão, cenários de falha.
- Cria um “runbook” de operação: o que o operador faz em 30 segundos quando algo falha.
- Define KPI de aceitação (ex.: OEE da célula, taxa de sucesso de pega, FPY, tempo médio de recuperação).
Se fizeres isto, a conversa muda. De “temos um robô com IA” para “temos uma célula que entrega qualidade e estabilidade”.
Para onde vai a fábrica inteligente em 2026: ecossistemas e interoperabilidade
A resposta direta: 2026 será menos sobre “qual robô” e mais sobre “qual ecossistema integra, simula e opera melhor”.
O que se viu no “Get Together for Robotics” 2025 reforça uma tendência: o valor está a deslocar-se para a camada de integração e orquestração. A fábrica inteligente exige que robôs, automação e dados convivam com menos fricção. É assim que a IA deixa de ser um experimento e vira um componente de produção.
A minha aposta é simples: as empresas que tratarem interoperabilidade como pilar (e não como detalhe) vão escalar mais rápido, com menos custo e menos dependência externa. E isso é exatamente o que a “IA na Indústria e Manufatura” promete quando fala em eficiência e qualidade: resultados sustentáveis, repetíveis e auditáveis.
Se estás a avaliar o próximo investimento em robótica com IA, a pergunta útil não é “o robô é avançado?”. É esta: consigo integrar, operar e replicar esta célula em outras linhas sem recomeçar do zero?