Aprenda com a BlueScope a escalar manutenção preditiva com IA: dados imperfeitos, treinamento interno e um modelo repetível para várias plantas.

Manutenção preditiva com IA: como escalar sem travar
A diferença entre um piloto “bonito no PowerPoint” e um programa de manutenção preditiva com IA que realmente muda o jogo na fábrica costuma ser brutal: escala. Um único caso de sucesso num ativo crítico é ótimo. Mas o que paga a conta — e muda indicadores de forma consistente — é replicar esse sucesso em várias linhas, várias plantas e, para muitas empresas, em vários países.
Foi exatamente esse o desafio enfrentado pela BlueScope, uma das maiores produtoras de aço com operações distribuídas por diferentes regiões. O que chama a atenção aqui não é só o uso de uma plataforma de manutenção preditiva; é o como a empresa transformou um piloto em um modelo repetível, lidando com o que quase toda indústria conhece bem: dados imperfeitos, equipamentos legados, resistência à mudança e realidades distintas de OT/IT.
Este artigo faz parte da série “IA na Indústria e Manufatura” e usa a experiência da BlueScope como um roteiro prático para quem quer sair do “projeto de inovação” e entrar no “processo industrial” — com fábricas inteligentes, confiabilidade e resultados financeiros.
A regra nº 1 para escalar: comece com uma visão global (não com um gadget)
Escalar manutenção preditiva não começa escolhendo sensor. Começa definindo um programa — com governança, metas e um padrão mínimo de execução. A BlueScope fez isso ao colocar a preditiva dentro de uma iniciativa corporativa de modernização de gestão de ativos, com um foco claro: criar uma plataforma que pudesse ser usada em qualquer unidade.
Piloto com cara de fábrica real
O piloto ocorreu numa planta grande e complexa, com cadeia integrada e muitos tipos de ativos. Essa escolha é estratégica: se o método funciona num ambiente onde há variabilidade de processos, mistura de tecnologias e múltiplas áreas operacionais, ele tende a funcionar em locais menores.
Na prática, o piloto precisa provar três coisas, além do “modelo detecta falhas”:
- Tempo até o primeiro valor (quanto demora até um caso real aparecer);
- Modelo de operação (quem analisa, quem aprova, quem executa a intervenção);
- Repetibilidade (o que vira padrão para a próxima planta).
Uma implantação que não define “como vira rotina” vira vitrine — não programa.
Do piloto ao padrão: o que muda quando você pensa em 5, 10, 20 plantas
A BlueScope acelerou drasticamente o tempo de retorno entre a primeira planta e as seguintes. Um dos sinais mais claros de maturidade é este: a mesma empresa reduziu um ciclo de implantação de ~18 meses para cerca de 3 meses até o primeiro caso de sucesso em outra unidade.
Isso não acontece porque “a IA ficou melhor” de um mês para o outro. Acontece porque:
- os passos viraram checklist;
- as integrações viraram templates;
- os papéis ficaram claros;
- o time aprendeu a evitar armadilhas clássicas.
“Mão na massa” da liderança (e por que isso importa)
Num rollout global, é comum a liderança delegar e “acompanhar por relatório”. O que a BlueScope fez de diferente foi manter envolvimento direto nas etapas críticas: desde configuração e revisão de casos até alinhamento com times locais.
Eu gosto dessa abordagem por um motivo simples: manutenção preditiva é tanto um produto quanto uma mudança de comportamento. E comportamento muda mais rápido quando há patrocínio ativo e decisões destravadas.
Autossuficiência: menos dependência, mais escala
Outro ponto decisivo foi a opção por construir capacidade interna. Em vez de depender sempre de consultoria externa, a empresa investiu em treinamento e criou um modelo para formar pessoas na prática.
O resultado esperado de um programa assim não é “todo mundo vira cientista de dados”. É:
- equipes locais capazes de operar a solução;
- padrão mínimo de qualidade em dados e análises;
- campeões internos que puxam o uso no dia a dia.
Dados imperfeitos não são desculpa: são o ponto de partida
Um mito comum em projetos de IA industrial é que “só dá para fazer quando os dados estiverem perfeitos”. Na fábrica, isso quase nunca é verdade — e esperar a perfeição costuma significar não fazer nada.
A BlueScope avançou mesmo com limitações típicas de chão de fábrica:
- equipamentos antigos com instrumentação limitada;
- sensores desatualizados;
- diferentes fontes (HMI, PLC, historiadores) com taxas de atualização distintas;
- padrões variados entre plantas.
Ganhos rápidos com sinais simples
Alguns dos primeiros ganhos vieram de sinais que parecem “simples demais para IA”, como frequência de liga/desliga de bombas. Quando esse padrão muda, pode indicar desgaste, entupimento, cavitação, vazamentos hidráulicos ou alterações no processo.
A lógica aqui é pragmática:
- escolha ativos com falhas recorrentes e custo alto de parada;
- mapeie modos de falha mais prováveis;
- use os dados disponíveis (mesmo que sejam poucos);
- prove valor; depois refine.
Quando faz sentido adicionar IoT
Sensores IoT entram como complemento, não como pré-requisito. Uma boa decisão de instrumentação segue este raciocínio:
- Qual falha quero antecipar?
- Qual variável indica essa falha mais cedo? (vibração, temperatura, corrente, pressão, acústica)
- Qual custo de não medir? (parada, segurança, sucata, energia)
- Qual é a cobertura mínima para capturar o fenômeno?
Se a resposta for “a falha custa caro e não tenho sinal nenhum”, instrumentar é investimento, não capricho.
O “segredo” que pouca gente gosta: mudança organizacional é metade do projeto
A tecnologia identifica anomalias. Quem transforma anomalia em dinheiro é a organização.
Quando manutenção preditiva escala, ela mexe com rotinas antigas:
- manutenção preventiva “por calendário” perde espaço;
- inspeções mudam de prioridade;
- PCM precisa confiar em evidência;
- operação passa a reportar diferente;
- confiabilidade ganha uma nova alavanca.
Treinamento que cria donos (não espectadores)
A iniciativa de formação interna (um “programa-escola” com dados reais dos ativos) resolve dois problemas de uma vez:
- tira a preditiva do status de “caixa-preta do fornecedor”;
- revela os super usuários, pessoas que pegam rápido a lógica de falhas, dados e tomada de decisão.
Na prática, esses super usuários viram tradutores entre áreas: conversam com OT sobre qualidade de sinal, com manutenção sobre modos de falha e com operação sobre condição real do processo.
Colaboração entre plantas: escala com consistência
Um erro comum em empresas multinacionais é repetir o projeto do zero em cada local. A BlueScope estimulou fóruns e troca constante entre regiões. Isso reduz retrabalho e acelera maturidade.
O formato que costuma funcionar bem é:
- comunidade de prática (encontro mensal com casos e lições);
- biblioteca de padrões (tags, taxonomia de ativos, critérios de severidade);
- revisão cruzada de casos (uma planta valida a outra);
- canal de feedback para evolução da plataforma.
Impacto no negócio: onde a manutenção preditiva com IA paga a conta
O impacto mais direto é reduzir paradas não planejadas, aumentando disponibilidade e produção. Em ambientes com margem apertada e custos energéticos relevantes (realidade forte no fim de 2025), essa equação fica ainda mais valiosa.
Mas os efeitos que muita gente subestima são os “secundários” — e eles somam muito:
- redução de manutenção desnecessária: você para de trocar componente “porque deu a data”; troca quando há evidência.
- segurança e meio ambiente: detectar vazamentos de óleo e anomalias cedo reduz risco e melhora organização do ambiente.
- melhor entendimento do ativo: com histórico de condição, decisões de CAPEX e estoque ficam mais inteligentes.
Manutenção preditiva bem operada vira um sistema nervoso: ela sente antes, e a fábrica reage melhor.
Blueprint prático para escalar em 90 dias (sem prometer milagre)
Cada indústria tem seu ritmo, mas há um caminho bem realista para chegar a valor rápido e repetível.
1) Escolha um recorte com ROI claro
Comece com 20 a 50 ativos críticos (bombas, ventiladores, redutores, compressores). Critérios:
- impacto de falha alto;
- repetição histórica de problemas;
- acesso mínimo a sinais (mesmo que limitados).
2) Defina o modelo operacional em uma página
Quem faz o quê, quando e com qual evidência:
- ingestão de dados (OT/automação)
- triagem de alertas (confiabilidade)
- validação técnica (manutenção)
- priorização (PCM)
- execução e feedback (manutenção/operação)
Sem isso, a IA “grita” e ninguém age.
3) Padronize dados e nomenclaturas cedo
Não precisa estar perfeito, mas precisa ser consistente:
- hierarquia de ativos;
- tags essenciais;
- frequência de amostragem aceitável;
- critérios para descartar ruído.
4) Publique vitórias — com números
O que sustenta budget é evidência. Documente cada caso com:
- falha evitada (ou degradação detectada);
- horas de parada evitadas;
- custo estimado;
- ação executada;
- lição aprendida.
5) Escale com um kit de implantação
Transforme aprendizado em pacote:
- checklist técnico (integrações, validação de sinal)
- checklist de pessoas (treinamento, papéis)
- rituais (reunião semanal de casos, revisão mensal)
Próximos passos: o que eu faria se estivesse a montar isso em 2026
A experiência da BlueScope reforça um ponto que vale para qualquer iniciativa de IA na manufatura: escala não é um “capítulo 2”; é o projeto desde o dia 1. Quem espera “validar tudo” para depois pensar em padronização normalmente descobre tarde que cada planta virou um sistema diferente.
Se você está a avaliar manutenção preditiva com IA agora, eu começaria pequeno, mas com intenção de crescer: um piloto que já nasce com governança, treinamento, padrões de dados e rituais de operação. O ganho não vem só de prever falha; vem de transformar previsão em decisão — e decisão em rotina.
A pergunta que fica para o seu cenário é direta: se a sua empresa abrisse mais três plantas amanhã, a manutenção preditiva que você tem hoje conseguiria acompanhar — ou ficaria presa num piloto eterno?