Ingestão de dados via SaaS é o alicerce da IA em bancos e fintechs. Entenda o que o caso Erathos ensina e como aplicar com governança.

Ingestão de dados via SaaS: a base da IA em finanças
A Erathos fez um movimento que muita empresa de dados demora anos para encarar: parou de vender “horas de consultoria” e colocou o conhecimento numa plataforma. O resultado, segundo os fundadores, foi direto ao ponto — triplicou o volume de negócios em cerca de um ano após focar no modelo SaaS de ingestão de dados.
Esse detalhe interessa (e muito) a bancos e fintechs. Porque, na prática, a qualidade da inteligência artificial em finanças raramente é limitada pelo modelo. Ela é limitada pela base: dados espalhados em ERPs, CRMs, core bancário, adquirência, antifraude, atendimento, planilhas e “sistemas legados” que ninguém quer mexer. A IA só “funciona” quando existe um caminho confiável entre a origem e o lugar onde o dado vira análise, decisão e automação.
E aqui entra a ponte com a série “IA na Indústria e Manufatura”: a lógica é a mesma da fábrica inteligente. Em manufatura, sensor ruim e integração fraca destroem qualquer manutenção preditiva. No financeiro, eventos incompletos e dados inconsistentes derrubam score, fraude, pricing, cobrança e atendimento com IA.
Por que ingestão de dados é o gargalo real da IA (no banco e na fábrica)
A ingestão de dados é o gargalo porque ela decide o que a IA enxerga. Se o dado chega atrasado, duplicado, sem padronização ou sem linhagem, a IA aprende errado — e a operação paga a conta.
No setor financeiro, isso aparece em problemas conhecidos:
- Detecção de fraude com falsos positivos altos porque eventos de transação e comportamento chegam fora de ordem.
- Crédito e underwriting com variáveis incompletas (ex.: renda, histórico de atraso, dados cadastrais divergentes).
- IA no atendimento que “alucina” porque bases de conhecimento e histórico do cliente não estão sincronizados.
- Prevenção à lavagem de dinheiro (PLD/AML) enfraquecida por falta de consolidação entre produtos, contas e relacionamentos.
Na manufatura, troque “core bancário” por MES/SCADA/ERP e o padrão se repete: sem um pipeline confiável, não existe IA confiável.
Uma frase que guia bons projetos: “Modelo bom em dado ruim vira decisão ruim em escala.”
O que o caso Erathos sinaliza sobre maturidade de dados
O caso Erathos é um sinal de mercado: infraestrutura de dados está virando produto, não projeto. A empresa brasileira, fundada em 2020, reposicionou o negócio para um SaaS de ingestão de dados que conecta sistemas corporativos a destinos como BigQuery e Databricks, centralizando dados de múltiplas fontes para processamento e análise.
Dois pontos do relato chamam atenção para quem lidera dados em bancos, fintechs e também na indústria:
1) A virada de consultoria para plataforma
A Erathos começou como consultoria, atendendo de indústrias a varejistas e empresas de tecnologia. Isso é comum: a consultoria revela o “sofrimento repetido” — integrações frágeis, scripts que quebram, dependência de pessoas-chave, retrabalho para cada nova fonte.
Transformar esse sofrimento em produto tem um efeito bem prático:
- padroniza conectores e rotinas;
- reduz dependência de “heróis do ETL”;
- acelera onboarding de novas áreas e squads;
- cria previsibilidade de operação e custo.
2) Ecossistema e validação técnica
A empresa afirma ser a única brasileira validada como tech partner do Databricks em engenharia de dados. Para o comprador corporativo, esse tipo de validação não é detalhe de marketing: reduz risco de compatibilidade, melhora governança e facilita desenho de arquitetura com ferramentas já aprovadas internamente.
SaaS de ingestão de dados: o que muda na prática para bancos e fintechs
Um SaaS de ingestão de dados muda o jogo operacional porque desloca esforço de engenharia para configuração e governança. Em vez de construir e manter dezenas (ou centenas) de pipelines customizados, você opera uma camada padronizada.
No artigo-base, a Erathos destaca:
- mais de 70 fontes suportadas;
- cinco opções de destino, incluindo data warehouses relevantes;
- operação remota e self-service, pelo usuário.
Para o setor financeiro, isso se traduz em três ganhos bem concretos.
Padronização e confiabilidade (menos “quebra em produção”)
Quando ingestão é tratada como produto, fica mais fácil:
- versionar mudanças;
- aplicar testes de qualidade de dados;
- monitorar latência e falhas por conector;
- manter trilhas de auditoria.
Em banco, isso tem impacto direto em compliance e em incidentes: uma quebra silenciosa num pipeline pode virar decisão errada em escala (limite, bloqueio, recusa, cobrança, alerta AML).
Velocidade para experimentar IA (com guardrails)
IA aplicada em finanças exige ciclos rápidos: testar features novas, ajustar janelas de tempo, incorporar fontes alternativas, medir drift. Sem ingestão eficiente, cada experimento vira projeto.
Com uma camada SaaS, você acelera:
- criação de data products por domínio (crédito, fraude, atendimento);
- feature engineering com bases mais consistentes;
- alimentação de lakehouse para times de ciência de dados.
Menos custo oculto com manutenção
O custo real de pipelines não é criar. É manter: mudança em API, coluna que some, timezone errado, duplicidade, reprocessamento. Em períodos como dezembro (fechamento, pico de varejo, 13º, sazonalidade de fraude), a conta do “puxadinho de dados” aparece.
Como conectar ingestão de dados à IA: 3 casos de uso que dão ROI
A forma mais segura de justificar investimento em ingestão é amarrar a iniciativas de IA com métrica operacional. Abaixo estão três casos comuns em bancos e fintechs, com o que a ingestão precisa entregar.
1) Fraude em tempo quase real
- Objetivo de negócio: reduzir perdas e reduzir falsos positivos (menos atrito).
- Requisito de ingestão: baixa latência, ordenação de eventos, deduplicação, observabilidade.
- Indicadores práticos: taxa de aprovação, chargeback, tempo de decisão, reclamações.
2) Crédito com features mais confiáveis
- Objetivo de negócio: melhorar default rate sem “apertar demais” a concessão.
- Requisito de ingestão: unificação de identidades, consistência cadastral, histórico completo, atualização incremental.
- Indicadores práticos: inadimplência por coorte, take rate, tempo de análise, revisões manuais.
3) Atendimento com IA e visão 360 do cliente
- Objetivo de negócio: reduzir TMA e aumentar resolução no primeiro contato.
- Requisito de ingestão: integração entre CRM, tickets, transações, base de conhecimento e logs de app.
- Indicadores práticos: TMA, FCR, NPS/CSAT, volume de recontato.
Se você veio da manufatura (tema da série), pense assim: é o equivalente a alimentar manutenção preditiva com sensores calibrados e histórico limpo. O algoritmo é a última peça — não a primeira.
Checklist: o que exigir de uma plataforma de ingestão antes de contratar
A decisão não deve ser “qual ferramenta é mais famosa”, e sim “qual reduz risco e acelera IA com governança”. Eis um checklist que eu usaria numa RFP para banco/fintech (e funciona na indústria também).
- Cobertura de fontes reais do seu stack (core, adquirência, CRM, ERP, data lake, APIs internas).
- Modos de ingestão: batch, incremental, CDC quando aplicável.
- Qualidade de dados embutida: validações, regras, alertas e data contracts.
- Observabilidade: métricas de latência, sucesso, volume, logs e replay.
- Governança e auditoria: linhagem, trilhas de mudança, permissões por papel.
- Segurança: criptografia, segregação de ambientes, gestão de chaves e acessos.
- Escalabilidade operacional: como lida com picos (fim de mês, Black Friday, fechamento).
- Compatibilidade com seu destino (warehouse/lakehouse) e com seu padrão de arquitetura.
- Self-service com limites: autonomia para squads, mas com guardrails corporativos.
- Plano de migração: como sair de pipelines legados sem parar o banco.
Esse checklist é o que separa “integração bonita na demo” de “pipeline que aguenta auditoria, pico e mudança”.
Investimento em ingestão de dados: por que 2025 reforçou essa tese
A Erathos recebeu investimento em 2023 (Funses) e um novo aporte em 2025 liderado pela Bossa Invest, além de seleção em programa de inovação. O recado por trás disso é simples: infraestrutura de dados virou pré-requisito para analytics e IA, e o mercado começou a pagar por isso.
No contexto de 12/2025, com empresas fechando orçamento e planejando 2026, a pergunta que tenho visto em comitês é menos “vamos usar IA?” e mais:
- quais dados já estão prontos para IA?
- quais domínios geram valor em 90 dias?
- qual é o plano para sair do ETL artesanal?
Quem responde essas três com clareza geralmente está mais perto de capturar valor — seja numa fintech de crédito, seja numa indústria com chão de fábrica instrumentado.
Próximo passo: comece pela ingestão, não pelo modelo
Se você quer IA que funcione no setor financeiro (e a série mostra que isso vale também para manufatura), comece com uma postura pragmática: mapeie as fontes, padronize ingestão, crie observabilidade e só então escale modelos. É menos glamouroso do que falar de LLM, mas é onde a execução ganha ou perde.
A história da Erathos reforça uma verdade incômoda: o caminho mais curto para IA útil passa por engenharia de dados bem feita — e SaaS de ingestão está virando o formato preferido quando a meta é escalar com previsibilidade.
Se você tivesse que escolher apenas um projeto para o 1º trimestre de 2026, você apostaria em mais um piloto de IA… ou em tornar sua ingestão de dados confiável o suficiente para sustentar dez casos de uso ao mesmo tempo?