IEC 62443 e NIS2 tornam a IA industrial mais segura e auditável. Veja como usar certificação e processos OT para reduzir risco e acelerar conformidade.
IEC 62443 e NIS2: IA segura na manufatura digital
A fábrica pode ter sensores por todo o lado, modelos de IA a prever falhas e robots a ajustar o ritmo de produção ao minuto. Mas há um detalhe que muita gente subestima: a confiança no que liga tudo isto. Quando a operação (OT) se digitaliza, a cibersegurança deixa de ser “um tema de TI” e passa a ser um requisito de continuidade do negócio.
E em 2025 isso ganhou outra urgência. A NIS2 elevou o nível de exigência na União Europeia, com foco em gestão de risco, reporte de incidentes e, sobretudo, segurança da cadeia de fornecimento. Para quem está a avançar com IA na Indústria e Manufatura, a pergunta prática é simples: como provar que os sistemas e fornecedores escolhidos dão suporte a uma operação inteligente sem aumentar o risco?
A resposta mais sólida, hoje, passa por normalização e certificação. E no mundo industrial, o nome que aparece repetidamente é IEC 62443.
Porque a cibersegurança é o “herói silencioso” da IA industrial
A IA em ambiente industrial só é fiável quando os dados e os controlos são fiáveis. Se alguém manipula um sensor, altera uma receita, ou interrompe comunicações entre células, o modelo de IA pode continuar a “funcionar”… mas a produzir decisões erradas.
O impacto na manufatura é mais duro do que em muitos setores digitais:
- Segurança física: alterações em PLCs, HMIs ou drives podem criar situações perigosas.
- Qualidade: um pequeno desvio numa linha pode gerar sucata durante horas.
- Disponibilidade: paragens não planeadas têm custos imediatos (energia, matéria-prima, prazos, penalizações).
Numa arquitetura típica de fábrica inteligente, a superfície de ataque cresce rápido: redes OT, gateways IIoT, plataformas de dados, acesso remoto de integradores, atualizações de firmware, APIs para MES/ERP e, claro, pipelines de dados para modelos de IA.
Frase para guardar: IA industrial sem cibersegurança não é inovação — é risco automatizado.
NIS2 em 2025: o que muda para a indústria e para a cadeia de fornecimento
NIS2 não é um “papel para cumprir”; é uma mudança de postura. A diretiva exige que organizações adotem medidas concretas de gestão de risco, governança e resposta a incidentes. Para a indústria, há um ponto que mexe diretamente com compras e engenharia: a responsabilidade estende-se à cadeia de fornecimento.
O que isto significa no chão de fábrica
Na prática, NIS2 empurra as empresas para três movimentos:
- Padronizar requisitos de cibersegurança na aquisição de equipamentos e software industrial.
- Auditar fornecedores críticos, incluindo integradores e prestadores de manutenção.
- Evidenciar conformidade com processos e documentação consistentes.
Aqui entra um problema real: se cada fábrica inventa o seu questionário, ninguém escala. O resultado é o que já vi acontecer muitas vezes: checklists longas, respostas vagas e pouca capacidade de comparar soluções.
A alternativa é alinhar com um referencial reconhecido e específico para OT. É aí que a IEC 62443 se destaca.
IEC 62443: o padrão que torna a segurança “auditável” na OT
IEC 62443 é o conjunto de normas mais usado para cibersegurança em automação industrial. O ponto forte não é só “boas práticas”; é criar um modelo claro para avaliar processos, desenvolvimento de produto e capacidades técnicas.
A norma organiza-se, de forma prática, em três grandes áreas (uma forma útil de pensar para quem compra, integra e opera):
1) Processos de cibersegurança (utilizadores finais e integradores)
O objetivo é garantir operação segura ao longo do ciclo de vida. Inclui políticas, gestão de acessos, segmentação, gestão de patches em OT, backups, resposta a incidentes e validação de mudanças.
Para IA e automação avançada, isto tem um efeito direto: reduz a variabilidade operacional. Modelos de IA odeiam ambientes “improvisados”. Processos consistentes significam dados mais confiáveis e menos interrupções.
2) Processo de desenvolvimento seguro (fabricantes)
Aqui avalia-se como os produtos são construídos. Não basta ter uma funcionalidade de segurança; é preciso demonstrar práticas de desenvolvimento: tratamento de vulnerabilidades, testes, gestão de dependências, atualizações e documentação.
Em termos de compras, isto evita a armadilha de escolher tecnologia “com features” mas sem maturidade de engenharia de segurança.
3) Características de segurança de produtos e sistemas
Esta parte é a que a operação sente mais no dia a dia. Exemplos típicos:
- autenticação e gestão de identidades
- controlo de privilégios
- registo de eventos (logs) e rastreabilidade
- hardening e configuração segura
- comunicação segura entre componentes
Para ambientes com IA (por exemplo, visão computacional ou manutenção preditiva), estas capacidades ajudam a responder a perguntas inevitáveis:
- Quem acedeu a este equipamento?
- Que alteração foi feita na configuração?
- Este dado foi adulterado?
- A atualização veio de um fornecedor confiável?
Certificação IEC 62443 como vantagem competitiva (não só conformidade)
Certificação não é um troféu na parede. É um acelerador de decisões. Quando uma solução ou fornecedor tem certificações alinhadas com IEC 62443, a empresa compradora ganha:
- Evidência mais rápida para auditorias e governança (incluindo NIS2)
- Menos tempo em due diligence técnica e jurídica
- Redução de risco na integração (menos surpresas durante comissionamento)
- Melhor continuidade de negócio, porque a segurança foi pensada para o ciclo de vida
E há um efeito estratégico: em setores com clientes exigentes (automóvel, farmacêutico, alimentação, energia), a capacidade de demonstrar cibersegurança na OT entra na conversa comercial. Cada vez mais.
Posição clara: quem trata a IEC 62443 como “custo” vai acabar a pagar em paragens, retrabalho e perda de confiança.
Como ligar IEC 62443 à sua estratégia de IA na manufatura
A ligação é direta: a IA precisa de dados íntegros, acessos controlados e sistemas disponíveis. A IEC 62443 ajuda a criar o “chassis” de segurança onde a IA pode correr.
Exemplo prático 1: manutenção preditiva
Cenário comum: sensores + gateway + plataforma de analytics + modelo de IA a prever falhas em motores.
Riscos típicos sem um referencial de OT:
- gateways mal configurados com credenciais partilhadas
- acesso remoto de terceiros sem segmentação
- logs insuficientes para investigar anomalias
Com uma abordagem alinhada com IEC 62443, tende a haver:
- zonas e conduítes bem definidos (segmentação OT)
- gestão de identidades e privilégios
- rastreabilidade de alterações
Resultado: menos falsos alarmes por dados corrompidos e menos risco de alguém usar o caminho do “monitorização” para chegar ao controlo.
Exemplo prático 2: visão computacional no controlo de qualidade
Se a IA rejeita peças com base em imagens, a integridade do pipeline é crítica. Um atacante não precisa “parar a fábrica”; basta degradar silenciosamente a qualidade:
- alterar parâmetros de iluminação/câmara
- manipular a origem dos dados
- interferir com o PC industrial/edge
A IEC 62443, aplicada à arquitetura e ao produto, reforça controlo de acesso, hardening e monitorização — o básico que impede a sabotagem discreta.
Exemplo prático 3: OT conectada ao IT (MES/ERP)
A promessa da manufatura digital é fluxo contínuo de dados. O risco é o mesmo: interligar sem segmentação.
Uma regra que funciona: conectar por camadas e com propósito, não “porque dá jeito”. IEC 62443 dá linguagem para isso (zonas, conduítes, níveis de segurança), tornando a conversa menos subjetiva.
Checklist de implementação: o que fazer nos próximos 90 dias
Se está a avançar com IA e automação, estes passos criam tração rápida sem paralisar o projeto.
- Mapear ativos OT críticos (linhas, células, PLCs, HMIs, SCADA, gateways, PCs industriais) e dependências de dados para IA.
- Classificar riscos por impacto operacional, não só por severidade técnica (paragem, segurança, qualidade).
- Definir requisitos mínimos para fornecedores alinhados com IEC 62443 (processo, produto, suporte e vulnerabilidades).
- Rever acessos remotos: quem entra, como entra, com que privilégios, e se fica registo.
- Segmentar a rede por zonas (começar pelo “mais crítico primeiro”) e documentar conduítes.
- Criar um ritual mensal de gestão de vulnerabilidades em OT (inventário, avaliação, janela de atualização, validação).
- Treinar operação e manutenção para reconhecer sinais de incidente (OT não é TI: o “normal” é diferente).
Uma boa métrica para 2026: reduzir o tempo para demonstrar conformidade e evidência (documentos + logs + processos) de semanas para dias.
Perguntas que aparecem sempre (e respostas diretas)
“IEC 62443 é só para grandes empresas?”
Não. O princípio escala. Uma PME pode aplicar requisitos mínimos na compra e segmentar por fases. O erro é esperar “ter tempo” para fazer segurança depois da IA estar em produção.
“Certificação resolve tudo?”
Não resolve tudo, mas resolve um ponto crítico: dá evidência verificável de que processos e/ou produtos seguem requisitos. Segurança continua a ser contínua: operação, patches, monitorização e resposta.
“Como isto ajuda a gerar valor com IA?”
Ajuda a manter disponibilidade e integridade. Se o sistema cai ou os dados são manipulados, a IA vira custo. Se o ambiente é estável e auditável, a IA entrega eficiência e qualidade com menos interrupções.
Próximo passo: segurança como pré-requisito para escalar a fábrica inteligente
A digitalização industrial está a acelerar e, com ela, a ambição de usar IA para aumentar OEE, reduzir sucata e antecipar falhas. A realidade é que a escala só acontece quando a confiança é repetível: em cada linha, em cada fábrica, em cada fornecedor.
IEC 62443 e os requisitos de NIS2 dão um caminho claro para isso. Não é o caminho mais “emocionante” do projeto, mas é o que evita que a IA dependa de improvisos e exceções.
Se em 2026 a sua organização quer expandir pilotos de IA para produção contínua, a pergunta que fica é: a sua OT está preparada para provar segurança e manter disponibilidade — ou ainda está a depender da sorte?