Menos de 10% geram impacto com IA. Veja como bancos e fintechs escalam com governança, dados e métricas — lições úteis também na manufatura.

IA com impacto real: lições do financeiro para escalar
62% das empresas globais já estão testando inteligência artificial, mas menos de 10% conseguem gerar impacto consistente no resultado. Esse descompasso (experimento demais, valor de menos) não é “falta de IA”. É falta de execução, governança e integração com a operação.
No fim de dezembro, com metas fechando, budgets de 2026 sendo desenhados e auditorias de fim de ano acontecendo, dá pra ver claramente quem tratou IA como “projeto legal” e quem tratou como infraestrutura de negócio. E, curiosamente, quem mais avança nessa segunda linha costuma estar em setores regulados e com alta pressão por eficiência, como bancos, seguradoras e FinTechs.
Este texto faz parte da série “IA na Indústria e Manufatura” — e isso não é contradição. A mesma disciplina que faz uma fábrica inteligente funcionar (dados confiáveis, processo definido, métricas, segurança e melhoria contínua) é exatamente a disciplina que permite a uma instituição financeira escalar IA sem virar refém de pilotos.
Por que menos de 10% saem do piloto e viram resultado
A principal razão é simples: a maioria tenta “colocar IA em cima” de processos quebrados e dados fragmentados. A tecnologia até produz uma demo bonita, mas não aguenta o mundo real: exceções, auditoria, latência, integração e risco.
O estudo Panorama da IA no Brasil 2025 (Zappts) reforça esse ponto ao mostrar que a adoção está alta, mas a consistência de impacto é rara. Na prática, as empresas travam em três gargalos:
1) Falta de um “dono” de negócio e de operação
Quando a IA fica só com TI, inovação ou um “lab”, ela vira um produto paralelo. Bancos e fintechs que escalam bem costumam ter co-patrocínio: área de negócio + risco/compliance + engenharia de dados.
Uma regra que eu considero saudável: se ninguém consegue dizer qual indicador muda em 90 dias, o projeto não está pronto para sair do PowerPoint.
2) Dados sem lastro operacional
Na manufatura, a fábrica inteligente depende de sensores, MES/ERP e padronização. No financeiro, é parecido: core bancário, CRM, KYC, antifraude, cobrança, canais digitais.
IA “boa” não compensa:
- cadastros duplicados
- eventos não rastreáveis
- falta de histórico consistente
- dados presos em silos
3) Métricas erradas (ou inexistentes)
Muita empresa mede “acurácia do modelo” e esquece do que paga a conta:
- redução de fraude em R$
- queda de chargebacks
- redução do tempo de análise de crédito
- aumento de recuperação em cobrança
- NPS e resolução no primeiro contato
Modelo com 92% de acurácia que não muda o P&L é hobby caro.
A virada de chave: IA como estratégia (não como experimento)
IA com impacto real nasce quando ela entra no desenho do trabalho, não como uma camada cosmética. O que escolas de negócios globais vêm reforçando — IA como infraestrutura, workflows, governança e mensuração — encaixa perfeitamente no setor financeiro.
No Brasil, instituições que avançam fazem três movimentos práticos:
IA embutida em workflows críticos
Não é “um chatbot”. É um fluxo completo, por exemplo:
- coleta e validação de documentos (KYC)
- extração e checagem de dados
- análise de risco e consistência
- decisão (humana ou automática)
- registro para auditoria
- monitoramento de desvio e fraude
Na manufatura, isso seria o equivalente a conectar visão computacional, rastreabilidade e controle de qualidade ao chão de fábrica — com alarmes, exceções e correções.
Governança desde o primeiro dia
Em finanças, privacidade, rastreabilidade e controles não podem entrar depois. Os times que escalam definem cedo:
- quais decisões podem ser automatizadas
- limites de atuação do sistema (guardrails)
- logs e trilhas de auditoria
- critérios de rollback (reversão rápida)
- revisão periódica por comitê (negócio + risco)
Esse modelo é muito parecido com governança em automação industrial: mudança controlada, auditoria, segregação de funções e gestão de incidentes.
Plataformas abertas e integração real
Escala exige integração. Ponto.
Se a IA não conversa com sistemas de atendimento, onboarding, antifraude, cobrança e canais, ela vira uma ilha. O que funciona melhor no financeiro é uma arquitetura com:
- camadas de dados bem definidas (raw/curated/serving)
- APIs internas para consumir previsões e decisões
- monitoramento contínuo (drift, qualidade, latência)
Onde bancos e FinTechs já transformam IA em impacto (casos típicos)
O setor financeiro tende a liderar porque tem volume, dados e incentivo econômico claro. Abaixo, três frentes em que a IA costuma pagar a conta rápido — e o que diferencia quem escala de quem fica no piloto.
1) Detecção de fraudes em tempo quase real
Impacto real aqui significa reduzir perdas sem travar aprovação boa. O erro comum é otimizar só para “pegar fraude” e aumentar falsos positivos, destruindo conversão.
O que funciona:
- modelos combinando regras + machine learning
- análise comportamental (padrões de dispositivo, navegação, geolocalização)
- fila de revisão humana com priorização por risco
- monitoramento diário de performance (não mensal)
Métrica que importa:
- fraude evitada (R$) vs receita perdida por bloqueio indevido (R$)
2) Gestão de risco e crédito com decisões explicáveis
Crédito é onde muita empresa tropeça por causa de governança. Sem explicabilidade mínima, você cria risco regulatório e reputacional.
Abordagem madura:
- modelos com features rastreáveis
- políticas de decisão claras (score + critérios)
- testes de viés e consistência
- validação independente (model risk management)
Métricas que importam:
- inadimplência por coorte
- taxa de aprovação por segmento
- margem ajustada ao risco
3) Automação de atendimento e operações (com qualidade)
Aqui é onde a conversa com a série “IA na Indústria e Manufatura” fica bem direta: automatizar é ótimo até o primeiro erro caro.
O que separa quem escala:
- base de conhecimento versionada (não “documento solto”)
- roteamento para humano quando há ambiguidade
- avaliação por amostragem e auditoria
- feedback loop para melhoria semanal
Métricas que importam:
- tempo médio de atendimento
- resolução no primeiro contato
- custo por ticket
- satisfação do cliente
Uma frase útil para alinhar time: “Automação que não melhora qualidade é só corte de custo disfarçado — e o cliente percebe.”
Checklist de execução: como sair do “piloto eterno” em 90 dias
Executar bem IA é mais gestão do que magia técnica. Se eu tivesse que reduzir a um plano de 90 dias para bancos, FinTechs e até operações industriais que querem consistência, eu seguiria isto:
Semana 1–2: escolha um caso com “dor e dado”
Critérios práticos:
- impacto financeiro claro (R$, tempo, risco)
- dados já existentes e acessíveis
- processo com dono (gestor responsável)
- possibilidade de medir antes/depois
Semana 3–6: desenhe o workflow completo (e os guardrails)
Entregáveis que não podem faltar:
- mapa do processo atual e do processo com IA
- definição do que é automatizado vs assistido
- trilha de auditoria (logs) e política de retenção
- plano de exceções (quando aciona humano)
Semana 7–10: coloque em produção com monitoramento
O que costuma dar errado aqui é “colocar no ar” sem observabilidade.
Checklist mínimo:
- dashboard de performance (negócio + técnico)
- alertas de drift e queda de qualidade de dados
- controle de versões de modelo e prompts
- testes A/B ou por coortes (quando aplicável)
Semana 11–13: escale com governança e ROI
Escala não é “mais casos”. É repetibilidade:
- biblioteca de componentes (feature store, templates de avaliação)
- comitê mensal de riscos e mudanças
- cálculo de ROI com premissas registradas
- plano de expansão para 2–3 áreas adjacentes
Perguntas que executivos deveriam fazer (e quase ninguém faz)
Se você lidera uma operação financeira — ou uma operação industrial que está automatizando processos críticos — use estas perguntas como filtro:
- Qual decisão vai mudar? (aprovar, bloquear, priorizar, alertar)
- Quem é responsável pelo resultado? (nome e área)
- Quais dados sustentam a decisão? (origem, qualidade, atualização)
- Como eu explico a decisão para auditoria e cliente?
- Qual é o plano de reversão em caso de falha?
- Qual métrica de negócio melhora em 30/60/90 dias?
Se a resposta for vaga, o projeto não está pronto para escala.
O que isso tem a ver com “IA na Indústria e Manufatura”
A disciplina de fábricas inteligentes — integração, rastreabilidade, controle estatístico e melhoria contínua — é a mesma disciplina que faz a IA dar resultado em bancos e FinTechs. A diferença é o tipo de falha: na indústria, pode ser parada de linha e sucata; no financeiro, pode ser fraude, crédito mal precificado e quebra de confiança.
A provocação que eu deixo para fechar 2025 é direta: se sua IA não aguenta auditoria, ela não é produto — é protótipo. E 2026 vai premiar quem transformar protótipos em rotina.
Se você quer gerar leads e tração real com IA no setor financeiro, o próximo passo é escolher um caso com ROI claro (fraude, crédito, cobrança ou atendimento), montar governança e colocar observabilidade desde o primeiro deploy. A tecnologia já existe. O diferencial está na execução.