IA no revestimento de eletrodos: menos sucata, mais qualidade

IA na Indústria e ManufaturaBy 3L3C

IA no coating de eletrodos reduz sucata e acelera ramp-up. Veja como modelos físicos + edge orientam o processo em tempo real e aumentam a qualidade.

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IA no revestimento de eletrodos: menos sucata, mais qualidade

A realidade da produção de baterias é menos glamorosa do que parece nos anúncios de carros elétricos: uma parte relevante do custo e do atraso nasce de milímetros e segundos. Um pequeno desvio na viscosidade da pasta, uma folga no slot-die, uma tensão de web fora do ponto… e o que era para ser uma linha estável vira um festival de retrabalho e bobinas rejeitadas.

Há um número que costuma assustar qualquer gestor de operações: estudos apontam que até 30% da sucata na fabricação de células pode estar ligada a problemas de coating (revestimento). Quando a demanda por armazenamento elétrico acelera e as fábricas tentam escalar (com ramp-ups cada vez mais curtos), esse desperdício deixa de ser “custo do aprendizado” e vira gargalo estratégico.

Nesta edição da série “IA na Indústria e Manufatura”, vou usar o exemplo da Siemens Coating App (uma aplicação de suporte digital ao processo de coating) para discutir o que realmente funciona em chão de fábrica: modelos físicos + dados em tempo real + computação na borda (edge) para estabilizar processos, reduzir sucata e encurtar ramp-up — sem depender de “tentativa e erro” e sem esperar que o conhecimento fique preso em meia dúzia de especialistas.

Por que o coating é onde muita fábrica perde dinheiro

O coating é crítico porque é onde qualidade, física e variabilidade colidem. O eletrodo revestido (filme com material ativo) é, na prática, a “camada de armazenamento” da célula. Se o revestimento sai com defeito, não há mágica depois: o problema aparece como falha de desempenho, segurança, durabilidade ou simplesmente refugo no controle de qualidade.

Na técnica de slot-die coating, o processo é sensível por natureza. A janela de operação (o famoso coating window) depende do equilíbrio entre forças viscosas, capilares e inerciais. Quando você está dentro da janela, o filme sai uniforme. Fora dela, surgem defeitos típicos — e caros:

  • estrias (streaks) e “marcas” no filme
  • borrões e smears por instabilidade de fluxo
  • rachaduras (cracks) por secagem/espessura inconsistente
  • pinholes que viram problemas de performance e yield

O mito do “ajuste fino” por feeling

Muita empresa ainda trata coating como um artesanato: “coloca o operador mais experiente, ele dá um jeito”. Funciona… até não funcionar.

O problema é que:

  1. A variabilidade aumenta na escala (matéria-prima, lotes, temperatura, umidade, desgaste mecânico, diferenças entre linhas).
  2. O ramp-up virou corrida contra o tempo (pressão por volume e por custo).
  3. Há escassez de especialistas — e o conhecimento tácito não escala.

A aposta mais pragmática hoje é transformar experiência em sistema: capturar o conhecimento do processo e devolvê-lo ao operador em tempo real, com recomendações acionáveis.

O que a Siemens Coating App mostra sobre “IA que dá resultado”

A ideia central é simples: combinar modelagem baseada em física com suporte digital em tempo real. Em vez de depender apenas de dados históricos (ou de regras genéricas), a aplicação calcula e visualiza a estabilidade do processo conforme parâmetros de máquina e propriedades do material.

Na prática, isso tem duas frentes — e é aqui que muita iniciativa de IA industrial acerta ou erra.

1) Antes de produzir: simular para definir parâmetros de partida

Você ganha velocidade quando começa certo. Durante a fase de projeto do processo (nova pasta, nova largura, nova configuração), a simulação ajuda a encontrar combinações de parâmetros mais promissoras.

O efeito no ramp-up costuma ser direto: menos bobinas de teste, menos horas queimadas, menos “corridas” entre qualidade, processo e manutenção para explicar um defeito que aparece e some.

Um bom preset não elimina ajustes. Mas reduz o espaço de busca. E isso, num cenário de gigafábricas, vale muito.

2) Durante a produção: monitorar e orientar dentro da janela de coating

Operação estável é operação guiada por limites claros. A proposta do app é visualizar o coating window e posicionar o “ponto atual” do processo em tempo real. Quando o ponto se aproxima do limite, a equipe consegue agir antes do defeito virar refugo.

Um detalhe importante: isso não é só “dashboard bonito”. Para ser útil, precisa entregar:

  • alertas contextualizados (não apenas alarmes)
  • recomendação de ajuste (o que mexer, em que direção, com que prioridade)
  • interpretação consistente entre turnos e linhas (padrão de decisão)

“Produção estável com pouca sucata exige conhecimento profundo do processo. Quando esse conhecimento vira app, o time aprende mais rápido e evita ajustes errados antes que virem desperdício.”

Essa lógica casa perfeitamente com o que venho defendendo em projetos de IA na manufatura: IA boa é a que reduz decisão improvisada.

Edge + modelos físicos: por que isso importa mais do que parece

Rodar inteligência no edge (na borda) é uma escolha operacional, não moda tecnológica. A Siemens posiciona a Coating App na sua plataforma Industrial Edge, o que faz sentido por três motivos bem concretos.

Latência e continuidade: controle não pode esperar a nuvem

Coating é processo contínuo. Se o sistema demora para analisar e responder, você já perdeu metros de filme. Tempo de reação vira desperdício.

No edge, você reduz latência e evita depender de conectividade externa para decisões críticas. Em produção, isso é tranquilidade.

Segurança e governança: dados sensíveis ficam onde devem ficar

Linhas de baterias carregam segredos industriais: formulação, parâmetros, rendimento, defeitos. Uma arquitetura que permita decidir o que fica local e o que sobe para a nuvem costuma destravar projetos com jurídico e TI.

Escalabilidade real: uma app que cresce com a fábrica

O valor aparece quando você consegue:

  • replicar a aplicação em várias máquinas e plantas
  • manter versões, permissões e configuração de forma central
  • padronizar indicadores e “forma de operar”

É aqui que a digitalização deixa de ser piloto e vira sistema de produção.

Como conectar isso à IA na manufatura (sem exageros)

A Siemens Coating App se apoia fortemente em modelos baseados em física. E isso é ótimo. Na indústria, eu prefiro essa abordagem a promessas de “caixa-preta” quando o processo tem leis claras.

O caminho mais robusto é o híbrido: digital twin + IA.

O que entra como “digital twin”

  • modelo do processo (forças, estabilidade, limites)
  • simulação de cenários para definir janela e presets
  • entendimento causal do “porquê” do defeito

Onde a IA complementa (e costuma brilhar)

  • detecção de deriva (mudança gradual: desgaste, contaminação, lote diferente)
  • modelos de previsão (probabilidade de defeito nos próximos minutos/metragem)
  • otimização multiobjetivo (qualidade vs. throughput vs. consumo energético)
  • recomendações personalizadas por linha (variabilidade de hardware)

Um posicionamento direto: se você tenta fazer só IA sem entendimento do processo, o modelo vira refém de dados ruins e eventos raros. Se você tenta fazer só modelo físico sem dados, vira um “manual digital” que não aprende com a fábrica. A combinação resolve.

Plano prático: como reduzir sucata de coating em 90 dias

Dá para começar sem reinventar a planta inteira. Um roteiro de 90 dias (bem pé no chão) para times de engenharia de processo, qualidade e automação:

Semana 1–2: medir o que hoje é “opinião”

  • padronize defeitos e critérios (ex.: estrias, pinholes, smear)
  • crie uma métrica simples: sucata por causa raiz (não só sucata total)
  • feche a lista de parâmetros essenciais do coating (material, máquina, ambiente)

Semana 3–6: instrumentar e capturar dados no ritmo do processo

  • garanta coleta confiável de sinais críticos (velocidade, vazão, gap, tensão, temperatura)
  • sincronize dados com eventos de qualidade (bobina, trecho, lote)
  • valide qualidade do dado (faltas, ruídos, drift de sensor)

Semana 7–10: definir janelas e regras operacionais

  • modele a janela de coating por produto/pasta
  • estabeleça “guardrails” (limites operacionais e ações recomendadas)
  • treine turnos com cenários reais (“se aproximar do limite X, faça Y”)

Semana 11–13: fechar o ciclo com recomendações e aprendizado

  • implemente visualização em tempo real (idealmente no edge)
  • gere recomendações acionáveis (não só alarmes)
  • rode uma rotina semanal de revisão: o que causou sucata, qual sinal antecipou, qual ajuste funcionou

Resultados típicos que eu considero plausíveis (quando há disciplina): queda consistente de refugo por instabilidade, redução de variação de espessura e ramp-up mais curto para novos lotes. O número exato depende do baseline — mas o método é repetível.

Por que isso é relevante agora (dezembro de 2025)

O fim de ano costuma trazer duas pressões simultâneas na indústria: fechamento de metas e planejamento de CAPEX/OPEX para o ano seguinte. Em baterias, soma-se outro fator: a corrida por competitividade coloca foco em yield, energia consumida por unidade produzida e rastreabilidade.

Reduzir sucata no coating não é só economia de material. É também:

  • menos energia desperdiçada em secagem e manuseio
  • menos paradas para limpeza e reconfiguração
  • mais previsibilidade para atender contratos
  • melhor uso de equipes, num cenário de falta de mão de obra especializada

E, do ponto de vista da série “IA na Indústria e Manufatura”, este é um exemplo claro do que funciona: IA aplicada a um ponto do processo onde há alto impacto, variabilidade real e decisões repetitivas.

Próximo passo: como avaliar se uma solução dessas cabe na sua linha

Se eu tivesse de resumir em uma frase: uma boa solução de IA/edge para coating precisa reduzir incerteza no minuto a minuto. Para avaliar, faça estas perguntas (em uma visita de 2 horas ao chão de fábrica você já sente):

  1. A aplicação mostra a janela de operação e o ponto atual de forma compreensível para o operador?
  2. Ela sugere ações concretas (o que ajustar) ou só “pinta vermelho”?
  3. Funciona com a sua realidade de conectividade e segurança (edge/local)?
  4. Dá para escalar entre linhas e plantas sem virar um projeto artesanal?

Se as respostas forem “sim”, você está diante de um caminho sólido para atacar sucata e ramp-up.

A pergunta que fica para 2026 é simples e desconfortável: a sua fábrica vai continuar dependendo de heróis do turno — ou vai transformar conhecimento de processo em sistema, com IA e controle em tempo real?