Engenharia IT na automação acelera entregas, melhora colaboração e cria base para IA na manufatura. Veja práticas e um roteiro 30–90 dias.

Engenharia IT na automação: mais rapidez e IA na fábrica
Em 2030, a Alemanha pode ter um défice de 5 milhões de trabalhadores qualificados. Em 2024, o “buraco” era de cerca de 300 mil — e mesmo assim já se sentia na pele, sobretudo em perfis técnicos e de desenvolvimento. A diferença entre “gerir a falta de gente” e “parar linhas” vai ser, cada vez mais, uma questão de eficiência de engenharia.
A realidade é simples: muitas equipas de automação ainda trabalham como se a fábrica fosse um projeto artesanal. Projetos difíceis de versionar, colaboração limitada, testes pouco automatizados e mudanças que demoram dias a validar. Só que, ao mesmo tempo, pedimos mais flexibilidade, mais rastreabilidade, mais integração com dados e — claro — mais IA na indústria e manufatura. Não fecha.
A boa notícia é que há uma abordagem que reduz esse atrito: engenharia “à moda de IT” aplicada à automação (por vezes chamada IT-like engineering dentro do movimento de software-defined automation). A ideia não é “trocar OT por IT”. É trazer para a engenharia de PLC e aplicações industriais aquilo que fez o software moderno escalar: controlo de versões, automação, testes, modularidade e pipelines.
O que é “engenharia IT” na automação (e por que acelera)
Engenharia IT na automação é tratar o projeto de controlo como produto de software. Isso inclui código legível em texto, versionamento, revisão por pares, testes automatizados e entregas frequentes com risco controlado.
Na prática, isto acelera por três motivos muito concretos:
- Menos trabalho manual repetitivo (mais automação do próprio processo de automação).
- Menos retrabalho graças a testes, rastreabilidade e diffs claros.
- Mais gente consegue colaborar no mesmo projeto sem “pisar” o trabalho dos outros.
E aqui entra a ligação direta com o tema da nossa série “IA na Indústria e Manufatura”: sem um ciclo de engenharia rápido e padronizado, a IA não passa de um piloto. Modelos e algoritmos precisam de integração, ajuste fino, monitorização e mudanças frequentes. Se cada alteração ao controlo exigir processos lentos e difíceis de auditar, a empresa trava.
Mito comum: “OT não pode usar práticas de IT”
Pode — e deve — com adaptações. Em automação industrial há requisitos fortes de segurança funcional, disponibilidade e validação. Só que isso não é argumento contra práticas de IT; é argumento a favor de processos mais auditáveis e repetíveis.
Por que a falta de talento torna isto urgente
A escassez de mão de obra qualificada empurra a indústria para duas frentes ao mesmo tempo:
- Aumentar produtividade (fazer mais com menos).
- Reduzir dependência de especialistas raros (não concentrar conhecimento em duas pessoas que “sabem onde clicar”).
Quando a engenharia de automação depende de ferramentas e fluxos altamente manuais, o resultado é previsível:
- Onboarding lento de novos engenheiros.
- Baixa reutilização de componentes.
- Alterações pequenas que viram “mini-projetos”.
- Dificuldade em escalar iniciativas de fábrica inteligente (principalmente as que envolvem dados e IA).
A engenharia inspirada em IT ajuda porque aproxima a automação do ecossistema de desenvolvimento. Fica mais fácil atrair perfis com background em software (que já dominam Git, CI, testes), ao mesmo tempo que se mantém a disciplina de OT onde ela é necessária.
Um exemplo prático: PLC com ferramentas e hábitos de software
Uma das materializações mais conhecidas desta abordagem é uma cadeia de ferramentas baseada num IDE moderno (por exemplo, um ambiente centrado em Visual Studio Code) que leva para o desenvolvimento de PLC:
- Git nativo para controlo de versões (com branches, merge e histórico).
- Código em texto legível (em vez de projetos opacos difíceis de comparar).
- Extensões para qualidade e produtividade (testes, inspeção de código, revisão de alterações).
- Programação alinhada com padrões industriais (como IEC 61131-3 e programação orientada a objetos em Structured Text).
O ganho não é “porque é bonito”. É porque muda o dia a dia:
- Revisões deixam de ser “manda-me o ficheiro final” e passam a ser pull requests com alterações objetivas.
- O histórico permite descobrir quando e porquê algo mudou.
- Componentes tornam-se reutilizáveis, com versão e dependências explícitas.
Benefício 1: desenvolvimento moderno e rastreável
Quando o código de automação vira código como qualquer outro, a rastreabilidade melhora imediatamente. E isso é ouro em ambientes regulados ou com auditorias internas.
Além disso, há um efeito secundário que eu considero subestimado: clareza organizacional. A empresa passa a ter:
- Repositórios por linha/área/produto.
- Padrões de branching.
- Políticas de revisão.
- Um “jeito oficial” de trabalhar.
Esse “jeito oficial” é o que permite escalar iniciativas de IA industrial, porque a IA precisa de integração com sensores, eventos, alarmes, setpoints e lógica de controlo — e isso muda ao longo do tempo.
Benefício 2: “automatizar a automação” com CLI e CI/CD
O salto de produtividade costuma acontecer quando a equipa troca o fluxo “muito mouse, pouco teclado” por automação via linha de comando e pipelines.
No mundo IT, builds e testes rodam automaticamente a cada mudança relevante. Em automação, isto pode significar:
- Validar a compilação do projeto de PLC.
- Executar testes unitários (onde fizer sentido).
- Aplicar linters e regras de qualidade.
- Empacotar bibliotecas e gerir dependências.
- Preparar releases com rastreabilidade.
Uma forma prática de começar é definir um pipeline com gates simples:
- Commit com mensagem padronizada.
- Build automatizado.
- Testes (mínimo viável: testes unitários de funções críticas + verificações estáticas).
- Aprovação por pares para alterações em blocos sensíveis.
- Release versionada.
Isto reduz erros “bobos” que custam caro (e muitas vezes aparecem na fase mais cara: com a linha parada).
Benefício 3: colaboração real (não “cada um no seu ficheiro”)
Colaboração, em automação, não é só ter várias licenças. É conseguir que duas, cinco ou dez pessoas mexam no mesmo produto de forma previsível.
Com código em texto e Git:
- Conflitos são visíveis e resolvíveis.
- Mudanças são comparáveis.
- Dá para fazer modularização com padrões claros.
- A empresa constrói uma base de componentes internos com versão.
E há um ponto importante para o tema de IA na manufatura: colaboração entre disciplinas. Projetos com IA envolvem automação, dados, MES, qualidade, manutenção e, muitas vezes, TI. Se a automação estiver num “mundo à parte”, a integração vira gargalo.
Como isto prepara a fábrica para IA (de verdade)
A IA na indústria depende de um ciclo rápido: medir → aprender → ajustar → validar → repetir.
Quando a engenharia de automação fica mais rápida e padronizada, três casos de uso de IA ficam mais fáceis de operacionalizar:
1) Otimização de processo e setpoints assistida por IA
Se a IA recomenda ajustes de setpoints (com limites e validações), a equipa precisa de:
- Implementar rapidamente lógica de aceitação/rejeição.
- Versionar mudanças.
- Fazer rollback se o desempenho piorar.
Sem engenharia IT, esse ciclo costuma ser lento demais para capturar valor.
2) Manutenção preditiva integrada ao controlo
Modelos preditivos geram alertas e probabilidades. Para virar resultado, é preciso integrar com lógica de alarme, intertravamentos, paragens controladas e rotinas de inspeção.
Quando o fluxo de engenharia tem CI, testes e rastreabilidade, essas integrações deixam de ser projetos enormes e passam a ser incrementos frequentes.
3) Qualidade e rastreabilidade em tempo real
Sistemas de visão e modelos de classificação tendem a evoluir. O “último metro” é o PLC/HMI/SCADA.
Com um fluxo moderno:
- Mudanças pequenas são entregues com segurança.
- A validação fica documentada.
- A equipa reduz medo de mexer em produção.
Uma frase que vale guardar: IA na fábrica sem engenharia rápida vira uma fila de pedidos.
Por onde começar: um roteiro pragmático em 30–90 dias
Não recomendo tentar “migrar tudo” de uma vez. O melhor caminho é criar tração com um projeto piloto que tenha impacto, mas risco controlável.
Passo 1 (semana 1–2): definir padrão de versionamento
- Escolher um repositório por projeto/linha.
- Definir convenção de branches.
- Tornar obrigatório o histórico de mudanças.
Entrega esperada: rastreabilidade e “fonte de verdade” do projeto.
Passo 2 (semana 3–6): modularizar o que dá mais retorno
- Criar bibliotecas para funções repetidas (intertravamentos, diagnósticos, utilitários).
- Versionar bibliotecas e documentar interfaces.
Entrega esperada: reutilização real e menos cópia/cola.
Passo 3 (semana 7–10): colocar um CI mínimo viável
- Build automatizado.
- Verificações de qualidade.
- Testes unitários dos blocos mais críticos.
Entrega esperada: menos regressões e releases mais confiáveis.
Passo 4 (semana 11–13): preparar a ponte para dados e IA
- Padronizar tags/eventos relevantes.
- Definir como logs e alarmes serão consumidos por analytics.
- Criar contratos claros (nomenclatura, unidades, frequência).
Entrega esperada: base de dados sólida para projetos de IA.
Perguntas comuns que aparecem nas equipas
“Isto substitui as ferramentas OT tradicionais?”
Não necessariamente. Um caminho sensato é conviver: usar fluxos que permitam criar componentes e bibliotecas num ambiente moderno e, quando necessário, consumi-las em ferramentas OT já estabelecidas.
“CI/CD em PLC é seguro?”
É seguro quando é governado. Em ambiente industrial, o ponto não é “deploy automático sem ninguém ver”; é ter processos repetíveis com aprovações, testes e trilhas de auditoria.
“E a visualização (HMI/SCADA)?”
O próximo passo natural é aplicar os mesmos princípios em HMI/SCADA: código legível, versionamento, pacotes, automação via CLI e colaboração. Como UI é visual, faz sentido combinar isso com editores WYSIWYG, mas mantendo o projeto rastreável.
O que muda na prática, a partir de segunda-feira
Se eu tivesse de resumir a mudança cultural numa linha: parar de tratar automação como ficheiro e começar a tratar como produto.
- Produto tem backlog.
- Produto tem versão.
- Produto tem testes.
- Produto tem melhoria contínua.
Essa mentalidade é exatamente o que sustenta uma estratégia de fábrica inteligente com IA: não é um “projeto único”, é um sistema que evolui.
Se a tua operação está a sentir pressão por prazos, falta de engenheiros e pedidos constantes de melhorias (eficiência, qualidade, energia), a pergunta útil não é “quando vamos usar IA?”. É esta: o nosso processo de engenharia de automação aguenta o ritmo de mudanças que a IA exige?