Acesso seguro a dados na produção de baterias acelera decisões, reduz downtime e prepara a base para IA. Veja um roteiro prático e boas práticas.

Dados na produção de baterias: acesso seguro e ágil
A paragem não planeada numa linha de células pode custar mais do que sucata e horas extra. Costuma custar confiança: na qualidade do lote, na rastreabilidade, na previsão de entregas e — cada vez mais — na capacidade de provar conformidade. E, quase sempre, o problema começa no mesmo sítio: dados de produção dispersos, difíceis de aceder e ainda mais difíceis de proteger.
Na série “IA na Indústria e Manufatura”, tenho visto um padrão claro: a IA só entrega resultados quando existe uma base sólida de dados operacionais (OT) bem governados. Na fabricação de baterias, essa base tem uma exigência extra: acesso rápido para quem está no chão de fábrica, com segurança forte o suficiente para aguentar auditorias, incidentes e crescimento acelerado de volume de dados.
Este artigo mostra como desenhar essa base — do acesso web/móvel à autenticação biométrica, passando por boas práticas de defense-in-depth — e como ligar tudo àquilo que interessa em 2025: usar IA para reduzir downtime, estabilizar qualidade e acelerar decisões em tempo real.
O custo escondido dos dados fragmentados na manufatura de baterias
A fragmentação de sistemas é um multiplicador de perdas. Quando dados de PLC, SCADA, MES, qualidade e manutenção vivem em silos, a fábrica paga de três formas: demora a diagnosticar, demora a agir e demora a aprender.
Na prática, isto aparece assim:
- Um alarme dispara no coating, mas o histórico de condições (temperatura/humidade/viscosidade) está noutro sistema.
- A equipa de qualidade vê desvios no formation, mas não consegue correlacionar rapidamente com parâmetros de calandragem.
- A manutenção recebe ordens tarde porque o sinal “fraco” (vibração, consumo, microparagens) não está visível para todos.
IA e analítica avançada dependem de contexto. Um modelo de previsão de falhas ou de drift de qualidade precisa de dados sincronizados e rastreáveis: quem fez o quê, quando, em que máquina, com que receita e em que condições ambientais. Sem acesso transparente e consistente, o mais comum é “apagar fogos” com base em intuição — o que funciona… até deixar de funcionar.
O que muda em 2025 (e por que isto ficou mais difícil)
A realidade nas fábricas europeias de baterias está mais apertada:
- Exigências de qualidade e rastreabilidade aumentam com auditorias e requisitos de cadeia de fornecimento.
- Escassez de mão de obra especializada obriga a interfaces mais simples e processos mais guiados.
- Volume e velocidade de dados crescem com mais sensores, inspeção e monitorização.
A resposta não é “mais dashboards”. É um modelo de acesso a dados que seja simultaneamente flexível e seguro, pensado desde o início para suportar IA.
Segurança primeiro: acesso a dados sem abrir portas à fábrica
Acesso flexível sem segurança é um convite a incidentes. E, em OT, incidentes não são apenas ficheiros encriptados: podem ser linhas paradas, parâmetros alterados e qualidade comprometida.
A abordagem que funciona na indústria é defense-in-depth: várias camadas de proteção, para que uma falha não comprometa o todo. Um bom alinhamento é seguir as recomendações de normas de referência em cibersegurança industrial, como a IEC 62443, especialmente quando se trata de segmentação, gestão de identidades e comunicações seguras.
Na prática, isto traduz-se em decisões muito concretas:
- Sistemas atualizados e endurecidos (hardening) desde a instalação.
- Gestão de utilizadores e perfis por função (RBAC): operador, manutenção, engenharia, qualidade, TI, fornecedor.
- Gestão local e centralizada de identidades, com integração a domínio quando aplicável.
- Comunicação segura entre componentes OT (por exemplo, via TLS), com gestão de certificados para encriptação confiável.
Uma regra simples que recomendo: “Se não consegues explicar quem acede, ao quê, quando e porquê, então não tens controlo — tens esperança.”
Segurança que ajuda a produção (em vez de travar)
A melhor segurança em fábrica é a que reduz fricção. Quando o login é lento e o acesso é confuso, as pessoas criam atalhos: contas partilhadas, palavras-passe coladas no armário, sessões abertas no HMI. Isto é comum — e perigoso.
Por isso, a combinação “acesso fácil + autenticação forte” é decisiva para manter a operação rápida sem sacrificar controlo.
Acesso móvel e autenticação biométrica: menos fricção, mais controlo
Autenticação biométrica, quando bem implementada, resolve um problema real de OT: identificar rapidamente quem está a operar, sem criar atalhos inseguros. Em ambientes de baterias, onde há troca de turnos, áreas controladas e HMIs partilhados, o ganho operacional é imediato.
Um padrão cada vez mais comum é usar uma app num smartphone/tablet para autenticar via biometria do dispositivo (impressão digital/face ID), com comunicação encriptada e mecanismos de proximidade (por exemplo, Bluetooth). Na prática:
- O operador aproxima-se da estação/HMI e faz login rapidamente.
- O sistema indica em tempo real o estado da sessão e os painéis disponíveis na área.
- É possível fazer logout com o mesmo nível de simplicidade.
O detalhe importante — e muitas equipas de compliance perguntam isto logo — é: os dados biométricos ficam no dispositivo, não “vão para o servidor”. A infraestrutura valida a autenticação, mas não precisa armazenar biometria centralmente.
Porque isto acelera IA no chão de fábrica
IA em manufatura de baterias não é só um modelo num servidor. É decisão no momento certo: uma recomendação de ajuste, um alerta preditivo, um desvio de qualidade, uma instrução guiada.
Quando a identidade e o contexto do utilizador estão bem definidos (função, área, máquina, permissões), a IA pode:
- personalizar o que mostra (menos ruído, mais ação);
- registar decisões e intervenções para closed-loop learning;
- melhorar rastreabilidade: “quem alterou a receita”, “quem validou o desvio”, “quem aprovou o retrabalho”.
SCADA moderno como base para IA: do dado ao impacto operacional
Uma base de visualização e supervisão robusta (SCADA) é o “hub” que transforma dados OT em operação gerível. E, para baterias, “gerível” significa: monitorizar, controlar, otimizar e escalar sem perder visibilidade.
Um SCADA moderno suporta dois objetivos ao mesmo tempo:
- Operação em tempo real (alarmes, estados, receitas, sequências, permissões).
- Preparação para analítica e IA (históricos confiáveis, consistência de tags, contextualização, interfaces de integração).
Web e mobile: acesso sem depender de hardware extra
Acesso web/móvel bem feito reduz tempo de resposta. Não é só conveniência; é capacidade de atuar mais cedo.
Exemplos práticos:
- A manutenção recebe um alerta e valida tendências do motor sem ir ao painel local.
- A engenharia vê trends de um lote durante ramp-up de produção.
- A qualidade consulta parâmetros críticos durante investigação de não conformidade.
Isto só funciona com mecanismos sólidos de segurança:
- encriptação (ex.: SSL/TLS),
- gestão integrada de utilizadores,
- acesso por grupos/perfis e, idealmente, por área de responsabilidade.
Dashboards por função (e por que GraphQL aparece aqui)
Dashboards bons são específicos. Operador quer “o que faço agora”; engenharia quer “o que está a mudar”; direção quer “onde estou a perder capacidade”.
Uma abordagem moderna é permitir criação de dashboards de forma padronizada e flexível com ferramentas de TI, usando APIs (por exemplo, um servidor GraphQL) para consultar dados de produção e alimentar aplicações internas.
O benefício real não é “tecnologia bonita”. É isto:
- as equipas criam vistas por função sem parar a produção;
- é possível alternar dashboards por contexto (linha, produto, turno);
- reduz-se dependência de desenvolvimento sob medida para cada pedido.
Para IA, esta camada é estratégica: o modelo pode gerar insights e o dashboard entrega a ação, no formato certo e para a pessoa certa.
Roteiro prático: como implementar acesso seguro a dados (sem paralisar o projeto)
Implementar acesso flexível e seguro é um projeto de operações, não apenas de TI. O que tenho visto funcionar é um roteiro em fases, com resultados rápidos e sem comprometer governança.
1) Mapear decisões críticas e “donos” do dado
Comece por três perguntas objetivas:
- Quais decisões precisam de dados em minutos (não em horas)?
- Quem toma essas decisões (e com que permissões)?
- Que dados são indispensáveis (e onde vivem hoje)?
Saída esperada: uma lista curta de casos com alto impacto, como:
- reduzir microparagens no coating;
- estabilizar yield no assembly;
- antecipar falhas em sistemas de vácuo/fornos;
- correlação de desvios no formation com parâmetros anteriores.
2) Definir o modelo de identidade e perfis (RBAC)
Aqui é onde muitas fábricas falham por “pressa”. Não salte esta etapa.
- Perfis por função e por área.
- Princípio do menor privilégio.
- Auditoria: registos de acesso e ações.
3) Padronizar comunicação segura e certificados
- Encriptação de comunicações OT quando aplicável.
- Gestão de certificados e ciclos de renovação.
- Segmentação de rede e zonas/conduítes coerentes com defense-in-depth.
4) Entregar visualização consistente (local + remoto)
Vistas padronizadas reduzem custo de treino. Quando o operador vê a mesma lógica no HMI e no tablet, aprende mais rápido e erra menos.
Ganhos típicos na rotina:
- menor tempo para diagnóstico;
- suporte remoto mais eficaz;
- manutenção com melhor priorização.
5) Só então escalar IA: preditivo, qualidade e otimização
Com dados acessíveis e governados, a IA deixa de ser um piloto isolado e passa a ser capacidade industrial:
- manutenção preditiva (modelos baseados em tendências + contexto de operação);
- qualidade preditiva (detetar risco de defeito antes do fim do processo);
- otimização de parâmetros (recomendações com limites e aprovação por função);
- assistentes operacionais (respostas rápidas com base em eventos e históricos).
A minha posição é simples: não faz sentido investir pesado em IA antes de resolver acesso e segurança do dado OT. É onde a maioria do ROI se perde.
Perguntas comuns no chão de fábrica (e respostas diretas)
“Acesso remoto não aumenta o risco?”
Aumenta se for feito como exceção e sem governança. Quando é desenhado com autenticação forte, encriptação, perfis e auditoria, o risco passa a ser controlável — e a operação ganha velocidade.
“Biometria é compatível com requisitos de privacidade?”
É compatível quando a biometria fica no dispositivo e o sistema valida credenciais sem armazenar dados biométricos centrais. Ainda assim, vale alinhar com jurídico e DPO, e documentar o fluxo de dados.
“Isto serve só para mega fábricas?”
Não. Quanto menor a equipa, mais valor há em reduzir fricção e padronizar vistas. O segredo é começar por 1–2 casos de uso críticos e expandir.
Próximo passo: dados seguros para IA dar resultado na produção
A fabricação de baterias está a entrar numa fase em que ganha quem decide mais rápido e com mais confiança. Isso exige acesso a dados em tempo real, sim — mas exige também segurança de OT séria, com camadas, perfis e rastreabilidade.
Se este tema já está no vosso radar, a recomendação prática é escolher um processo (por exemplo, coating ou formation), mapear decisões, implementar acesso web/móvel com RBAC, reforçar comunicações seguras e só depois escalar analítica e IA. O ganho aparece cedo: menos tempo de diagnóstico, menos custo de treino e menos paragens por “caça ao dado”.
A pergunta que deixo para a próxima reunião de operações é direta: na vossa linha de baterias, quem tem acesso ao dado certo no minuto certo — e quem ainda está a decidir às cegas?