Queimadores de flare com IA e impressão 3D já atingem 98% de destruição do metano. Veja como aplicar isto na sua estratégia de energia e sustentabilidade.

IA no flare: queimadores que cortam 98% do metano
Acontece mais vezes do que se gosta de admitir: num campo de produção, a chama do flare está “acesa”, mas o metano continua a escapar. Não por falta de intenção — por física. Um pouco de vento lateral, turbulência, mistura de ar fora do ponto… e a eficiência de destruição do metano cai a níveis que tornam a estratégia quase simbólica.
Um estudo publicado em 03/03/2025 por equipas do Southwest Research Institute e da University of Michigan descreve um queimador de flare avançado, criado com fabrico aditivo (impressão 3D) e machine learning, que atingiu 98% de eliminação do metano em testes controlados, mesmo sob condições desafiantes. Este é um caso perfeito para a série “IA na Energia e Sustentabilidade”: não estamos a falar de IA “no ar”, mas de IA a mexer em metal, geometria e combustão — com impacto direto em emissões.
A minha opinião? A redução de metano é uma das poucas frentes climáticas onde dá para obter resultados rápidos e mensuráveis em semanas/meses, e não em décadas. E é exatamente aqui que a IA mostra valor: optimizar sistemas físicos onde a intuição e o “sempre fizemos assim” já não chegam.
Porque o metano é o alvo mais “urgente” nas emissões
Resposta direta: reduzir metano tem impacto climático mais rápido do que reduzir CO₂, porque o metano é muito mais potente no curto prazo.
O metano tem um potencial de aquecimento global de cerca de 28× o do CO₂ num horizonte de 100 anos e cerca de 84× num horizonte de 20 anos. Traduzindo para decisões de operação: se uma empresa quer reduzir o impacto climático agora, o metano é onde os ganhos aparecem primeiro.
Na produção de petróleo e gás, o metano surge como subproduto e, por razões de segurança e operação, é frequentemente encaminhado para flares. O problema é que o flare não é automaticamente sinónimo de destruição eficiente. Em queimadores convencionais de chama aberta, o vento lateral pode reduzir a eficiência, libertando 40% ou mais do metano para a atmosfera em determinadas condições.
Há uma frase que vale ser repetida como “regra de bolso” para gestores de energia e sustentabilidade:
Um flare ineficiente transforma um controlo de risco em risco climático.
O que torna um flare ineficiente (e porque o vento manda nisto)
Resposta direta: o vento e a turbulência alteram a mistura ar-metano e roubam tempo de combustão, fazendo o gás escapar sem queimar.
A combustão precisa de três coisas: combustível (metano), oxidante (oxigénio do ar) e tempo/estabilidade para a reação ocorrer. Num flare tradicional, a chama está exposta. Uma “brisa” atravessa o jato, distorce a chama, cria zonas pobres em oxigénio ou demasiado diluídas, e a queima deixa de ser completa.
A parte contraintuitiva (e muito relevante para quem opera no terreno) é esta: não é preciso vento forte. Os testes descritos mostram que mesmo pequenas componentes de vento cruzado já derrubam a eficiência da maioria dos queimadores.
O equilíbrio crítico: ar suficiente, mas não demasiado
Resposta direta: a mistura ideal ar-metano é estreita; ar a mais dilui, ar a menos sufoca.
Parece simples dizer “vamos puxar mais ar para queimar melhor”. Só que ar a mais pode:
- Arrefecer a zona de chama (menos temperatura, pior cinética)
- Diluir a mistura (fora do intervalo de inflamabilidade)
- Aumentar instabilidade com mais turbulência
É por isso que o desenho interno do queimador — e não só o “bico” — importa tanto.
O queimador de 98%: onde entram IA, CFD e impressão 3D
Resposta direta: a equipa combinou simulação (CFD), machine learning e fabrico aditivo para criar uma geometria interna que estabiliza a chama e mantém a mistura correta mesmo com vento.
O que o estudo descreve não é um “acessório”, é um redesign do coração do flare burner. O queimador tem uma base de nozzle complexa que divide o fluxo de metano em três direções e usa um desenho tipo impeller (como um rotor) para guiar o gás para a chama.
O objetivo é claro:
- Misturar ar e metano de forma mais uniforme
- Dar tempo à combustão para acontecer antes de o vento “roubar” a chama
- Manter estabilidade em condições de campo
A impressão 3D é o facilitador óbvio: permite fabricar geometrias internas difíceis (ou caras) de produzir por métodos tradicionais.
A IA entra onde muita gente ainda não está a olhar: na procura do desenho ótimo. Em vez de testar meia dúzia de variações “por feeling”, usa-se um ciclo de:
- gerar candidatos de geometria
- simular com CFD em múltiplas condições (incluindo vento cruzado)
- aprender padrões de desempenho com machine learning
- iterar para um design melhor
Isto é “IA na energia” na versão mais concreta: a IA encurta o caminho entre hipótese e protótipo.
Porque 98% é um número que muda a conversa
Resposta direta: a diferença entre 60% e 98% de destruição de metano é enorme no impacto climático e no risco reputacional.
Se um flare convencional perde 40% do metano em certas condições, e um design avançado destrói 98%, estamos a falar de uma redução de emissões de dezenas de pontos percentuais num único ponto de emissão.
Na prática, isto pode significar:
- menos emissões fugitivas reportadas
- melhor performance em auditorias ESG
- menor exposição a penalizações/regulação de metano
- ganhos reais em credibilidade (porque o resultado é mensurável)
Onde esta inovação encaixa na estratégia “IA na Energia e Sustentabilidade”
Resposta direta: é um exemplo de IA aplicada a eficiência energética e monitorização ambiental, com ganhos rápidos e mensuráveis.
Muita comunicação sobre IA no setor energético fica presa a previsões de demanda, dispatch de renováveis e otimização de redes. Tudo isso é crucial. Mas há uma frente igualmente pragmática: otimizar equipamentos físicos que já existem e que, por ineficiência, desperdiçam energia e aumentam emissões.
Este caso do flare mostra três “pontes” úteis para qualquer organização que queira avançar:
- IA para engenharia de produto/processo: machine learning como motor de design e melhoria contínua
- Eficiência como redução de emissões: queimar melhor é, aqui, poluir menos
- Sustentabilidade operacional: não depende de mudar toda a matriz energética; depende de corrigir pontos críticos
Se eu tivesse de resumir em uma linha para um comité executivo:
Quando a IA entra no desenho do hardware, a sustentabilidade deixa de ser promessa e vira especificação técnica.
Checklist prático: como avaliar um projeto de redução de metano com IA
Resposta direta: foque em medição, condições reais, integração e custo total, não só em “percentagens bonitas”.
Se está a avaliar tecnologias (flare melhorado, sensores, analytics, modelos de deteção), use este checklist para evitar projetos que soam bem mas falham no campo:
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Medição e verificação (MRV)
- Como se mede a eficiência de destruição?
- Há testes em condições com vento cruzado?
- O método permite auditoria independente?
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Robustez em ambiente real
- Performance muda com variação de caudal?
- O design aguenta sujidade, condensados, corrosão?
- Existe plano de manutenção e inspeção?
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Integração com operação e segurança
- Impacto na estabilidade da chama e segurança do site
- Compatibilidade com flare stacks existentes
- Procedimentos para arranque, paragem e falhas
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Economia do projeto (CAPEX + OPEX)
- Custo do burner vs. custo de emissões evitadas
- Paragens necessárias para instalação
- Disponibilidade de peças e suporte técnico
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IA com propósito (não cosmética)
- O ML está a otimizar uma variável clara (eficiência, estabilidade)?
- Existe processo de re-treino/atualização com dados novos?
- Há governança: quem valida, quem aprova mudanças?
Perguntas que decisores fazem (e respostas objetivas)
“Porque não capturar o metano em vez de queimar?”
Resposta direta: capturar é melhor quando é tecnicamente e economicamente viável; o flare eficiente é a solução de impacto rápido onde a captura não dá.
Em muitos locais remotos, com caudais variáveis ou sem infraestrutura, a captura pode ser cara ou impraticável. Aí, melhorar o flare reduz emissões já, enquanto se planeia uma solução estrutural.
“Isto vale para fora dos EUA?”
Resposta direta: sim, porque o problema é físico e comum; o que muda é a regulação e o modelo económico.
Regiões com maior pressão regulatória tendem a acelerar adoção; regiões com menor fiscalização tendem a precisar de incentivos (financeiros, reputacionais ou de acesso a capital).
“O que a IA acrescenta que a simulação tradicional não dava?”
Resposta direta: velocidade e abrangência de busca; a IA ajuda a explorar um espaço enorme de geometrias e condições sem depender de tentativa e erro humano.
CFD continua central, mas o ML torna o ciclo iterativo mais eficiente e orientado por dados.
O que esperar em 2026: mais eficiência e protótipos mais baratos
Resposta direta: a tendência é combinar designs mais complexos (viáveis por impressão 3D) com IA para reduzir custo e aumentar robustez.
O próprio projeto aponta continuidade em 2025 para chegar a protótipos ainda mais eficientes e custo-efetivos. O padrão que tenho visto em inovação industrial é este: a primeira versão prova desempenho; a segunda prova que dá para fabricar, manter e escalar.
Se a sua empresa está a estruturar um roadmap de IA aplicada à energia para 2026, este é um “tipo de aposta” que faz sentido: projetos onde o sucesso é medido por um número operacional (eficiência de destruição, estabilidade, emissões evitadas) e não por apresentações bonitas.
A pergunta que fica para quem lidera energia e sustentabilidade é simples e desconfortável: quantos pontos de emissão na sua operação ainda dependem de equipamentos “sensíveis ao vento”?
Se quiser, podemos mapear um conjunto de casos de uso de IA para redução de metano — do design de hardware (como este burner) à deteção por sensores e modelos — e transformar isso num pipeline de projetos com MRV desde o dia 1.