Da história da e-mobilidade à IA na manufatura: veja como otimizar energia, reduzir picos e ganhar eficiência com casos práticos e um roteiro claro.

Da e-mobilidade à IA na fábrica: a lição Siemens
Em 2025, a mobilidade elétrica já não é “o futuro” — é o presente a ganhar escala. O que muitas equipas industriais subestimam é que a transição para o elétrico não é só uma troca de motor: é uma mudança no sistema energético, na forma como se fabrica e na maneira como se decide, em tempo real, o que produzir, quando e com que consumo.
Foi por isso que um detalhe do workshop #SiemensBewegtSchule ficou comigo. Uma criança, ao tentar reconhecer um veículo elétrico, disparou: “E‑carros não fazem barulho — soam como um secador de cabelo.” É engraçado, sim. Mas também é uma síntese perfeita: quando a tecnologia muda, mudam os sinais, as métricas e as expectativas. Na indústria, o “barulho” que deixa de existir é o desperdício energético, as paragens não planeadas e a produção às cegas. E o “secador” é a nova realidade: mais elétrica, mais digital, mais mensurável.
Este texto pega nessa iniciativa educativa (centrada em Werner von Siemens e nas raízes da e‑mobilidade) e faz a ponte para o que realmente interessa a quem lidera operações hoje: como a IA na indústria e manufatura está a tornar a produção mais eficiente, sustentável e preparada para um sistema energético cada vez mais complexo — tema central da nossa série “IA na Energia e Sustentabilidade”.
O que uma aula sobre Werner von Siemens ensina à indústria de 2025
A lição principal é simples: inovação industrial não nasce de “ideias soltas”; nasce de engenharia aplicada, repetível e com impacto no quotidiano. No workshop, as crianças conheceram um percurso que vai do ponteiro telegráfico (Zeigertelegraf) à eletrificação de soluções urbanas como o elevador elétrico e a automação do transporte (como a rua e a eletrificação de sistemas de tração).
Essa narrativa tem um paralelo direto com o momento atual: estamos a sair de uma fase em que a digitalização era “projeto” e a entrar numa fase em que ela é infraestrutura. Hoje, a IA é para a fábrica o que a eletrificação foi para as cidades no século XIX: um novo “sistema nervoso” que redefine produtividade e competitividade.
Da curiosidade ao método: por que a educação importa (mesmo para leads)
Programas como o #SiemensBewegtSchule parecem “apenas” outreach. Eu vejo como estratégia industrial de longo prazo. O motivo é prático: não há transformação energética e digital sem pessoas capazes de operar, manter e melhorar sistemas complexos.
E a complexidade aumentou:
- A fábrica deixou de ser só consumo; muitas vezes é também flexibilidade (ajusta cargas) e até geração (solar, cogeração).
- A mobilidade elétrica liga-se à planta via infraestrutura de carregamento e gestão de picos.
- A exigência de rastreabilidade de carbono e eficiência energética já está a entrar nos contratos.
Quando uma criança compara um elétrico a um secador, ela está a fazer o primeiro passo de qualquer transformação: observar, comparar, criar hipótese. A indústria precisa do mesmo — mas com dados.
Da e-mobilidade ao chão de fábrica: energia é o novo gargalo
A resposta direta: a e‑mobilidade puxa a discussão para dentro da fábrica porque eletrifica a cadeia e aumenta a pressão sobre energia, custo e estabilidade.
Carros elétricos, autocarros elétricos, empilhadores elétricos, AGVs… tudo isso desloca energia do combustível para a eletricidade. E eletricidade, na prática industrial, significa:
- picos de potência mais caros,
- penalizações por fator de potência e harmónicos,
- necessidade de planeamento de carga (especialmente com carregamento),
- mais valor em armazenar energia (baterias) e orquestrar consumo.
O “barulho” que a IA ajuda a eliminar
Se num motor a combustão o barulho é literal, numa fábrica o barulho é operacional:
- linhas a parar por falta de material,
- máquinas a consumir energia fora da janela ideal,
- qualidade a oscilar sem se perceber porquê,
- manutenção reativa (cara) e urgente.
IA aplicada à energia e produção reduz esse ruído ao transformar dados em decisões. E não é misticismo: é estatística, modelos de previsão e otimização.
Onde a IA entra: eficiência energética e manufatura inteligente, na prática
A resposta direta: a IA na manufatura traz ganhos reais quando está ligada a três alavancas — previsão, otimização e controlo. Abaixo estão aplicações comuns que vejo funcionar melhor em ambientes industriais.
Previsão de consumo e picos (energia como variável de produção)
Se a sua fábrica paga energia com tarifa horária (ou sofre com picos de potência), prever consumo é meio caminho andado.
Com IA, dá para prever:
- carga elétrica por linha/turno,
- impacto de novos lotes e mudanças de setup,
- efeito de temperatura ambiente em HVAC e processos térmicos.
Resultado esperado (quando há dados e disciplina): melhor planeamento de produção para reduzir picos, deslocar consumos e negociar contratos com mais segurança.
Otimização de scheduling: produzir com menos energia sem perder OEE
Um mito frequente: “eficiência energética reduz produtividade”. Nem sempre. Muitas vezes, o que reduz produtividade é a falta de coordenação entre energia, manutenção e planeamento.
Modelos de otimização (frequentemente com IA + regras de negócio) podem:
- agrupar ordens com perfis energéticos semelhantes,
- evitar arrancadas simultâneas de equipamentos de grande potência,
- sincronizar carregamento de frotas internas com janelas de menor custo.
Frase para guardar: energia barata sem produto é desperdício; produto sem energia planeada é risco.
Manutenção preditiva: menos falhas, menos desperdício energético
Equipamentos degradados consomem mais energia. Um rolamento com atrito, uma bomba cavitar, um compressor com fuga… tudo isso vira custo silencioso.
A manutenção preditiva com IA cruza sinais como:
- vibração e temperatura,
- consumo elétrico (assinatura energética),
- pressão/caudal (em fluidos),
- alarmes e histórico de intervenções.
A diferença é que o consumo de energia passa a ser também um “sensor” indireto de saúde do ativo.
Integração de renováveis e armazenamento: IA como maestro
No contexto “IA na Energia e Sustentabilidade”, esta é a ponte mais direta: quanto mais renováveis e baterias entram, mais valiosa fica a orquestração.
A IA ajuda a decidir:
- quando carregar/descarregar baterias,
- quando autoconsumir vs. injetar/compensar,
- como adaptar produção quando há variação (por exemplo, nuvens em solar).
Isto torna-se ainda mais relevante no inverno europeu (dezembro), quando a sazonalidade afeta geração solar e o preço da energia pode ser mais volátil.
Um roteiro simples para começar (sem “projeto de 2 anos”)
A resposta direta: o melhor caminho é começar por um caso de uso com ROI claro e dados acessíveis, e só depois escalar. Eis um roteiro que costuma funcionar.
1) Escolha um KPI que una energia e produção
Sugestões objetivas:
- kWh por unidade produzida (por família de produto),
- custo energético por lote/turno,
- picos de potência por semana,
- emissões (escopo 2) por unidade.
2) Garanta dados mínimos (e confie menos em “médias”)
O que normalmente é suficiente para um primeiro piloto:
- leituras elétricas por quadro/linha (idealmente 15 min),
- dados de produção (ordens, volumes, rejeições),
- estados de máquina (parado/produção/setup).
Sem isto, a IA vira “adivinhação bonita”.
3) Comece com um piloto de 8–12 semanas
Um bom piloto tem:
- hipótese clara (ex.: reduzir picos em 10–15%),
- responsáveis definidos (produção + manutenção + energia),
- mudança operacional possível (não basta “ver dashboard”).
4) Escale com governança: quem decide quando o modelo recomenda?
O passo que separa demonstração de resultado é governança:
- Quem aprova alterações no plano?
- Que limites de segurança existem?
- Como se trata exceções (urgências, qualidade, prazos)?
IA sem processo é só um alerta a mais.
Perguntas que aparecem sempre (e respostas diretas)
“IA na indústria é só para grandes fábricas?”
Não. O que define viabilidade é a disponibilidade de dados e a clareza do caso de uso, não o tamanho. Muitas PME conseguem bons resultados com monitorização energética básica e um piloto de previsão/otimização.
“Preciso trocar máquinas para usar IA?”
Geralmente, não. Começa-se com o que existe: contadores, PLCs, SCADA/MES, ERP. Depois, adicionam-se sensores apenas onde houver lacunas.
“Como a e-mobilidade entra na minha operação se eu não fabrico automóveis?”
Entra pela energia e pela logística: frotas internas eletrificadas, carregamento no site, exigências de carbono na cadeia e pressão por eficiência. Mesmo setores tradicionais estão a sentir isso.
A linha que liga um ponteiro telegráfico à fábrica inteligente
A visita das turmas ao universo de Werner von Siemens mostra algo raro: tecnologia contada como história de pessoas, curiosidade e impacto real. E isso é exatamente o que falta em muitas iniciativas industriais de IA — começam pelo software e esquecem o “porquê”.
Se a sua prioridade para 2026 é energia (custos, emissões, resiliência) e produtividade (OEE, qualidade, prazos), a combinação IA + manufatura inteligente é um caminho pragmático. Não para “ter IA”, mas para tomar decisões melhores com o que já acontece na sua planta.
Se uma criança percebe que um elétrico “soa como um secador”, um gestor industrial pode (e deve) perceber o equivalente na fábrica: quando o ruído operacional baixa, sobra espaço para inovar.
O próximo passo é simples: qual é o processo na sua operação em que energia e produção entram em conflito todos os dias — e que já tem dados suficientes para um piloto em 2026?