IA na distribuição elétrica: do grid à fábrica

IA na Energia e SustentabilidadeBy 3L3C

Conecte distribuição elétrica inteligente e IA na fábrica. Veja como automação e dados confiáveis reduzem paragens e otimizam energia.

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IA na distribuição elétrica: do grid à fábrica

A eletrificação está a acelerar — e não é só por causa dos carros elétricos. No chão de fábrica, 2025 tem sido o ano em que muita gente “acordou” para um detalhe pouco glamoroso: a energia é, cada vez mais, o principal gargalo de produtividade. Uma linha pode ter robôs, visão computacional e MES impecáveis… mas basta uma falha de qualidade de energia, uma manobra mal coordenada ou um pico de demanda para a eficiência ir por água abaixo.

É aqui que soluções de automação e digitalização de redes de distribuição, como a família SICAM A8000 (muito usada em subestações e distribuição elétrica), ganham uma nova leitura: o que funciona no grid também funciona dentro de plantas industriais. E quando a camada de controle e dados é bem desenhada, a IA deixa de ser “um projeto à parte” e passa a ser um recurso operacional, aplicado a manutenção, otimização energética e resiliência.

Neste artigo da série “IA na Energia e Sustentabilidade”, vou ligar os pontos entre distribuição elétrica inteligente e o que isso significa na prática para indústria e manufatura: mais confiabilidade, menos perdas, melhor integração de renováveis e uma base sólida para analytics e IA.

O que a distribuição elétrica inteligente resolve (de verdade)

Distribuição elétrica inteligente resolve dois problemas centrais: confiabilidade e capacidade de decisão em tempo real. No grid, isso significa reduzir interrupções, isolar falhas e recompor serviço rapidamente. Numa fábrica, o impacto é ainda mais direto: evita paragens não planeadas, reduz sucata e melhora o OEE.

A maioria das empresas ainda trata energia como utilidade “que chega” — e mede apenas o consumo mensal. Só que a operação moderna precisa de outra abordagem: visibilidade por alimentador, por célula, por turno e por evento, com capacidade de atuação.

Do “quadro elétrico” ao sistema nervoso da planta

Quando falamos em plataformas como SICAM A8000 (em cenários de distribuição), falamos de uma arquitetura que combina:

  • Aquisição e agregação de dados (IEDs, medidores, sensores)
  • Telecontrolo e automação (comandos, intertravamentos, sequências)
  • Comunicações industriais (protocolos e redes robustas)
  • Eventos, alarmes e oscilografia (rastreabilidade de incidentes)

No ambiente industrial, esta mesma lógica vira o “sistema nervoso” da energia interna: subestações de planta, painéis de média tensão, UPS, geradores, bancos de capacitores, filtros harmónicos e, cada vez mais, micro-redes com solar e armazenamento.

Uma frase que resume bem: não dá para otimizar com IA aquilo que você não mede com granularidade e não controla com segurança.

O que muda quando a fábrica trata energia como processo

Quando energia entra na lista de processos críticos (como qualidade e manutenção), aparecem ganhos bem concretos:

  • Menos incidentes repetidos (porque a causa raiz fica rastreável)
  • Menos “paragens misteriosas” (queda momentânea, harmónicos, afundamento de tensão)
  • Manobras mais seguras (intertravamentos e sequências padronizadas)
  • Planeamento de carga (picos evitados, demanda mais suave)

E o melhor: estes ganhos são pré-requisitos para a próxima etapa — IA aplicada à eficiência energética e confiabilidade.

SICAM A8000 como referência: o que podemos aprender para a indústria

O valor do SICAM A8000, no contexto de distribuição, é atuar como uma plataforma de automação e gateway operacional entre o mundo elétrico e o mundo digital. A lição para a indústria é simples: a energia precisa de uma “camada de orquestração” com qualidade industrial, não de um conjunto de dashboards soltos.

Mesmo sem entrar nos detalhes proprietários do produto, o caso de uso típico em distribuição costuma exigir:

  • Alta disponibilidade (redundância e tolerância a falhas)
  • Cibersegurança (segmentação, controle de acesso, auditoria)
  • Sincronismo de tempo (eventos e perturbações com carimbo confiável)
  • Integração com sistemas superiores (SCADA, DMS, historiadores)

Tudo isso é extremamente relevante no chão de fábrica, onde energia, automação e TI convivem sob pressão.

Pontes diretas para “smart factory”

Da rede para a fábrica, as pontes mais úteis são três:

  1. Detecção e isolamento rápidos: falhou um alimentador? Isola-se o trecho, recompoe-se a operação e reduz-se o tempo de paragem.
  2. Observabilidade operacional: eventos elétricos passam a ter contexto (o que estava ligado, qual linha, qual turno).
  3. Base de dados para IA: sem eventos bem carimbados e dados confiáveis, a IA vira um exercício teórico.

Um exemplo comum: uma fábrica com fornos, variadores e solda robotizada sofre com harmónicos e micro-interrupções. Sem telemetria decente, a equipe “culpa” o fornecedor de energia, troca equipamentos e segue. Com uma camada de monitorização e automação, dá para identificar padrão, correlacionar com cargas e corrigir com engenharia (filtros, sequenciamento de partidas, compensação reativa, ajustes de proteção).

Onde a IA entra: previsões, anomalias e otimização energética

A IA entra quando você já tem dados bons, contexto e capacidade de agir. No tema da série “IA na Energia e Sustentabilidade”, os três casos mais práticos para indústria são: previsão, detecção e otimização.

Previsão de demanda e picos (e por que isso poupa dinheiro)

Prever demanda com IA reduz custos de energia e evita penalizações de ponta. Em muitas operações, o problema não é consumir muito; é consumir “mal”: picos curtos que estouram a demanda contratada.

Com dados por alimentador e por grandes cargas, modelos preditivos conseguem:

  • Antecipar picos com 15–60 minutos de antecedência
  • Sugerir ações (adiar partidas, escalonar compressores, reduzir HVAC em momentos críticos)
  • Coordenar com geração local (solar/gerador) e armazenamento, se existir

O ponto de vista que eu gosto aqui é pragmático: a previsão só vale se houver um “botão” para apertar — manual ou automático — e isso depende da automação e do controle.

Detecção de anomalias: manutenção preditiva elétrica

Anomalias elétricas dão sinais antes de virar paragem. A IA (e também métodos estatísticos simples) consegue identificar desvios em:

  • Perfil de corrente e fator de potência
  • Temperatura em conexões e barramentos (quando há termografia/IoT)
  • Frequência e padrão de eventos de proteção
  • Vibração/consumo de motores críticos (por correlação elétrica)

Isso cria uma manutenção preditiva “de energia”, que conversa com manutenção mecânica e automação. Em vez de trocar por calendário, você intervém quando o comportamento muda.

Otimização com renováveis e micro-redes

Micro-redes industriais estão a deixar de ser exceção. Solar em telhado, baterias para peak shaving, geradores para contingência — tudo isso precisa de coordenação.

A IA ajuda a decidir:

  • Quando carregar/descargar baterias
  • Como maximizar autoconsumo sem comprometer estabilidade
  • Como priorizar cargas (cargas críticas vs. flexíveis)

E aqui entra uma regra de ouro: resiliência vem antes de “economia bonita no Excel”. Se a automação não garante seletividade e segurança, qualquer estratégia agressiva de otimização vira risco operacional.

Arquitetura recomendada: do dado ao comando (sem criar um monstro)

A arquitetura vencedora é modular: medição + controle + dados + modelos. Numa planta industrial, isso evita o clássico cenário em que cada área compra uma ferramenta e ninguém integra nada.

Camada 1: instrumentação e medição com granularidade

Comece pelos pontos que realmente explicam o consumo e os incidentes:

  • Entrada da planta e subestações internas
  • Alimentadores de grandes cargas (fornos, compressores, chillers)
  • Linhas críticas (onde paragem custa caro)
  • Qualidade de energia (THD, afundamentos, flicker, desequilíbrio)

Camada 2: automação elétrica e segurança operacional

Aqui entram funções de:

  • Supervisão e comando
  • Intertravamentos e permissivos
  • Sequências de recomposição
  • Registro de eventos com sincronismo de tempo

Este é o “território” onde plataformas como as usadas em distribuição (ex.: SICAM A8000 em cenários típicos) mostram por que existem.

Camada 3: dados para IA (contexto é tudo)

Dados sem contexto viram ruído. O mínimo que funciona bem:

  • Historiador com tags bem nomeadas
  • Modelo de ativos (ativo, local, criticidade, manutenção)
  • Integração com produção (turno, produto, velocidade da linha)

Camada 4: modelos e rotinas de decisão

Comece simples e útil:

  1. Alarmes inteligentes (anomalias)
  2. Previsão de demanda com ação recomendada
  3. Otimização com restrições claras (segurança, qualidade, produção)

A pergunta certa não é “dá para usar IA?”. É: qual decisão você quer automatizar e qual risco você aceita?

Perguntas que aparecem sempre (e respostas diretas)

“Preciso de IA para começar?”

Não. Primeiro você precisa de medição confiável, eventos bem registados e capacidade de comando. Sem isso, a IA não tem base. Com isso, a IA vira aceleração.

“Isso é só para grandes plantas?”

Também não. O tamanho importa menos do que o custo de paragem e a complexidade elétrica. Uma operação média com picos de demanda e sensibilidade a qualidade de energia já tem ROI.

“Qual o primeiro passo prático em 30 dias?”

Mapeie 10–20 cargas que explicam a maior parte do consumo e do risco, instale/valide medição onde falta, e monte um painel de eventos e demanda por turno. Sem promessa milagrosa — só visibilidade útil.

Próximos passos: como transformar energia em vantagem competitiva

Distribuição elétrica inteligente não é um tema “do pessoal da subestação”; é infraestrutura para a IA na indústria. Se a sua planta quer aplicar IA para eficiência energética, manutenção preditiva e integração de renováveis, precisa de uma base operacional parecida com a do grid: dados confiáveis, controle robusto e segurança.

O meu conselho é tratar isso como um roadmap em duas trilhas que andam juntas: (1) automação e observabilidade elétrica; (2) casos de uso de IA com impacto mensurável (picos, anomalias, otimização). Em poucas semanas dá para provar valor; em poucos meses dá para padronizar.

Se você tivesse de escolher uma prioridade para 2026: reduzir paragens por eventos elétricos ou cortar custos por picos de demanda? A resposta costuma revelar exatamente por onde começar.

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