Conheça a Ciência Aberta no CNPEM/Sirius e veja como visitas escolares impulsionam talentos para IA na saúde, biotecnologia e sustentabilidade.

Ciência Aberta no Sirius: escolas, IA e saúde no Brasil
Em 2023, 16 mil pessoas passaram por um único evento de divulgação científica em Campinas e circularam por 85 atrações dentro de um dos complexos mais estratégicos para a pesquisa brasileira. Esse tipo de número não é “curiosidade de agenda cultural”: é sinal de que a ciência, quando abre as portas, cria uma ponte real entre educação, infraestrutura e inovação.
O Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), onde fica o Sirius (o laboratório de luz síncrotron de 4ª geração do Brasil), repetiu a dose com uma novidade importante: um dia exclusivo para escolas e grupos de estudantes, além do dia aberto ao público geral. Para quem trabalha (ou quer trabalhar) com IA na saúde e biotecnologia, e para quem acompanha a série “IA na Energia e Sustentabilidade”, isso importa por um motivo simples: não existe inovação aplicada sem gente qualificada e sem cultura científica.
O que a Ciência Aberta do CNPEM faz de diferente
A resposta direta: ela coloca estudantes e público lado a lado com cientistas e infraestrutura de ponta, no mesmo espaço, com atividades práticas e explicações acessíveis.
Eventos científicos costumam sofrer de dois problemas: ou são “técnicos demais” (e afastam quem está começando), ou viram entretenimento desconectado do mundo real. A proposta do CNPEM costuma acertar o meio do caminho: a pessoa vê equipamento, fala com pesquisadores, entende aplicações e sai com uma ideia melhor do que é ciência aplicada.
Em termos práticos, o “Ciência Aberta” é um acelerador de vocação e repertório. Eu gosto de resumir assim:
Divulgação científica de verdade não ensina só conteúdo — ela ensina “como o mundo funciona” e como a gente pode melhorá-lo.
Datas e formato (para planejar com antecedência)
- Dias: 09/08 e 10/08 (programação em agosto, conforme divulgado pelo CNPEM)
- 09/08: dedicado a instituições de ensino e grupos (com inscrição)
- 10/08: aberto ao público geral (sem cadastro prévio)
- Local: Polo II de Alta Tecnologia de Campinas (Rua Giuseppe Máximo Scolfaro, 10.000)
- Horário do sábado: a partir das 09h, com último horário de admissão às 15h
Para escolas e grupos, a grande virada é ter um dia “pensado para excursão”: logística, fluxo e experiência tendem a ser mais adequados para quem vem de ônibus, com alunos e professores.
Sirius: por que um “raio X superpotente” interessa a IA, saúde e bio
A resposta direta: porque o Sirius gera dados de altíssima qualidade sobre materiais e estruturas biológicas, e IA boa depende de dados bons.
O Sirius funciona como uma espécie de “raio X superpotente” que permite analisar materiais em escalas de átomos e moléculas. O princípio é elegante: elétrons acelerados quase à velocidade da luz percorrem um anel de cerca de 500 metros, completando voltas em altíssima frequência; ao serem desviados por ímãs, emitem luz síncrotron (muito brilhante, embora invisível a olho nu). Essa luz alimenta as chamadas linhas de luz, onde os experimentos acontecem.
Quando a gente conecta isso com saúde e biotecnologia, fica mais concreto:
- Estruturas de proteínas e alvos terapêuticos: entender forma e comportamento molecular ajuda a desenhar fármacos e terapias.
- Biomateriais e próteses: caracterização fina de materiais pode melhorar resistência, biocompatibilidade e desempenho.
- Nanotecnologia e entrega de medicamentos: o “tamanho importa” quando falamos de nanoestruturas para levar um medicamento ao lugar certo.
E onde entra a IA? Em três camadas:
- Planejamento e otimização de experimentos (seleção de parâmetros, controle de qualidade, detecção de anomalias)
- Processamento e reconstrução de imagens/sinais (redução de ruído, segmentação, classificação)
- Descoberta de padrões (modelos que aprendem relações entre estrutura e função, estrutura e eficácia, estrutura e degradação)
Um bom laboratório de grande porte é, na prática, uma fábrica de dados complexos. E isso conversa diretamente com o que a série “IA na Energia e Sustentabilidade” vem discutindo: infraestrutura científica também é infraestrutura digital — porque o gargalo não é só produzir energia ou construir equipamentos, é transformar medições em decisões.
Ciência aberta como política de inovação (e não só “visita guiada”)
A resposta direta: abrir laboratórios para estudantes aumenta o estoque de talentos e melhora a compreensão pública sobre tecnologia — dois pré-requisitos para o Brasil avançar em IA aplicada à saúde.
Quando a população entende o básico do método científico, duas coisas melhoram:
- A confiança (com cobrança) nas instituições de pesquisa: menos espaço para desinformação, mais espaço para debate sobre prioridades.
- A base de formação: mais alunos consideram carreiras em computação, biologia, engenharia, física, ciência de dados.
Esse efeito não é instantâneo, mas é cumulativo. Um estudante do ensino médio que visita um síncrotron hoje pode, em alguns anos, estar:
- treinando um modelo de IA para análise de imagens médicas;
- atuando em bioinformática para genômica;
- construindo sensores para monitoramento ambiental e saúde pública;
- ou trabalhando com eficiência energética em data centers de saúde (tema cada vez mais relevante).
Aqui vai um ponto de opinião: o Brasil perde tempo quando trata divulgação científica como “perfumaria”. Num cenário em que IA e biotecnologia dependem de gente, dados, laboratórios e governança, aproximar escola de infraestrutura de ponta é uma ação de base — e das mais baratas, comparada a construir tudo do zero.
A ponte com “IA na Energia e Sustentabilidade”
Pode parecer que energia e síncrotron são assuntos distantes de saúde. Não são.
- Grandes instalações científicas exigem gestão de energia, confiabilidade e eficiência.
- Pesquisa em materiais e biociências influencia biorrenováveis, novos polímeros e processos industriais mais limpos.
- O ciclo completo (experimentação → dados → IA → aplicação) tem custo energético, e otimizar isso é parte da sustentabilidade.
Se a IA vai crescer na saúde, ela também precisa crescer com responsabilidade: modelos mais eficientes, computação melhor dimensionada, e infraestrutura com menor pegada.
Como escolas e professores podem tirar o máximo da visita
A resposta direta: a visita rende mais quando existe pré-briefing, tarefas de observação e pós-atividade com projeto curto.
Visita sem preparação vira passeio. Visita com método vira aprendizagem. Eis um roteiro simples que tenho visto funcionar bem:
1) Antes do evento (7 a 10 dias)
- Escolha 3 temas para “caça ao conhecimento”: biociências, nanotecnologia, biorrenováveis.
- Monte um glossário curto (10 termos):
síncrotron,linha de luz,nanopartícula,proteína,biomarcador,algoritmo,aprendizado de máquina,imagem,dados,sustentabilidade. - Divida a turma em grupos com papéis:
- repórter (anota e entrevista),
- fotógrafo/ilustrador (registra com autorização),
- “tradutor” (explica em linguagem simples depois),
- analista (transforma achados em hipótese ou mini-projeto).
2) Durante o evento
- Defina uma missão por grupo: “encontrar um exemplo de como a ciência vira solução para saúde” ou “identificar onde a IA poderia ajudar”.
- Incentive perguntas objetivas para cientistas:
- “Que tipo de dado vocês geram aqui?”
- “O que mais dá trabalho: coletar, limpar ou interpretar?”
- “Que habilidade você gostaria de ter aprendido mais cedo?”
3) Depois (até 2 semanas)
Transforme a visita em entrega curta (não precisa virar TCC):
- Mini-projeto de IA sem programação: desenhar um fluxo de dados (coleta → limpeza → modelo → decisão) para um problema de saúde.
- Poster de sustentabilidade: onde entra energia, resfriamento, logística e descarte na pesquisa e na tecnologia.
- Pitch de 2 minutos: “uma ideia de solução” inspirada no que viram.
Essa estrutura dá repertório e ainda fortalece competências que o mercado exige: comunicação, pensamento crítico e alfabetização em dados.
O que estudantes ganham ao ver ciência de perto (especialmente em dezembro)
A resposta direta: ver ciência ao vivo ajuda o aluno a escolher caminho no começo do ano seguinte — e dezembro é um mês ótimo para isso.
Como estamos em 21/12/2025, muita gente está fechando semestre, montando planejamento escolar e também revendo metas de carreira. Nessa época, a conversa sobre futuro fica mais concreta: vestibular, cursos técnicos, olimpíadas científicas, iniciação.
Eventos como o “Ciência Aberta” funcionam quase como um “teste vocacional honesto”: o estudante entende se gosta de laboratório, de dados, de engenharia, de pesquisa aplicada. E, para o país, isso é uma forma prática de alimentar as áreas que mais vão crescer:
- IA na saúde (diagnóstico por imagem, triagem, automação de laudos, descoberta de fármacos)
- Biotecnologia (engenharia de proteínas, biofabricação, genômica)
- Sustentabilidade e energia (processos limpos, biorrenováveis, monitoramento)
Talento não aparece do nada; ele é cultivado por exposição e oportunidade.
Próximos passos: como sua instituição pode usar esse impulso
Se você é gestor escolar, professor, coordenador pedagógico ou lidera um grupo de estudantes, eu iria por um caminho bem pragmático: trate o evento como parte do currículo de inovação, não como atividade extracurricular isolada.
- Crie um “ciclo anual” (visita + projeto + feira interna).
- Use problemas locais (saúde, água, resíduos, energia na escola) como contexto.
- Traga IA de forma responsável: dados, ética, privacidade, vieses e impacto.
E se você atua em empresas ou organizações que querem gerar leads no ecossistema de IA e biotecnologia, a leitura é igualmente direta: os próximos bons profissionais estão sendo inspirados agora. Apoiar iniciativas de ciência aberta (com palestras, mentorias, desafios e bolsas) costuma gerar retorno real em marca empregadora e pipeline de talentos.
O futuro da IA na saúde no Brasil vai depender menos de “promessas” e mais de uma engrenagem funcionando: escola → infraestrutura → dados → aplicações. A Ciência Aberta no Sirius mostra que dá para fazer essa ponte com clareza.
Qual parte dessa engrenagem você consegue fortalecer já no próximo semestre?