Argamassa com PET e aerogel corta perdas de calor

IA na Energia e SustentabilidadeBy 3L3C

Argamassa com PET reciclado e aerogel reduz perdas de calor até 55%. Veja como melhora eficiência energética e como a IA mede e optimiza poupanças.

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Argamassa com PET e aerogel corta perdas de calor

A maior parte das pessoas pensa em eficiência energética como “painéis solares no telhado” ou “janelas melhores”. Só que, no inverno, uma parcela nada pequena do calor vai embora por um detalhe bem menos glamoroso: as juntas entre tijolos. É aí que nasce a tal da ponte térmica — e é aí que uma nova argamassa desenvolvida por investigadores da Universidade de Newcastle pode fazer diferença real.

O dado que chama a atenção é simples e directo: ao substituir parte da areia por sílica aerogel e plástico PET reciclado, a equipa reportou redução de perdas de calor (condutividade térmica) até 55% face a argamassas convencionais, mantendo a resistência exigida para alvenaria. Menos energia para aquecer/arrefecer, menos desperdício plástico. Para a série “IA na Energia e Sustentabilidade”, esta inovação encaixa como uma luva: materiais melhores reduzem a procura; IA ajuda a medir, prever e optimizar esse ganho em escala.

Porque é que a argamassa pesa tanto na conta de energia

A resposta curta: porque a argamassa ocupa exactamente os “caminhos fáceis” por onde o calor escapa.

Em paredes de alvenaria, o tijolo pode até ter um desempenho térmico razoável, mas as juntas criam uma rede contínua de material que atravessa a fachada. Se a argamassa for mais condutora do que o conjunto (e frequentemente é), ela funciona como um “atalho” para o calor sair no inverno e entrar no verão.

Pontes térmicas: o inimigo silencioso do conforto

Pontes térmicas não são só um tema de engenharia; são um tema de experiência do utilizador:

  • Zonas frias junto às paredes, mesmo com aquecimento ligado
  • Condensações em cantos e juntas (ambiente perfeito para bolor)
  • Picos de consumo porque o sistema AVAC tem de compensar continuamente

Quando falamos de edifícios novos (ou reabilitações), reduzir pontes térmicas é uma forma directa de baixar a procura energética antes de pensar em produção renovável. E isto é, na minha opinião, a hierarquia certa: primeiro reduzir necessidade, depois optimizar a produção.

O que esta nova argamassa tem de diferente (e porquê funciona)

A resposta directa: o aerogel reduz drasticamente a condução de calor e o PET reciclado substitui agregados, baixando densidade e reaproveitando resíduos.

Segundo o estudo publicado em Construction and Building Materials (2025), a equipa criou várias formulações e identificou uma combinação particularmente eficaz:

  • 7% de sílica aerogel (não tratada) a substituir areia natural
  • 3% de PET reciclado (partículas de garrafas trituradas, 2,5–3,5 mm)

O aerogel é conhecido por ter altíssima capacidade de isolamento (é usado também em aplicações aeroespaciais). Em termos práticos, misturá-lo em argamassas pode reduzir a condutividade térmica do material final — e é isso que ataca o problema na origem.

“Mas aerogel dentro de cimento não dá problemas?”

Dá trabalho — e é aí que está o mérito. O artigo destaca que a implementação bem-sucedida dependeu de passos como a modificação de superfície das partículas de aerogel, para melhorar compatibilidade com o ligante cimentício. Em obra, isto importa porque não basta ser isolante “no laboratório”; precisa ser trabalhável, ter tempo de presa adequado e cumprir resistência mecânica.

A equipa analisou:

  • Tempo de presa
  • Fluidez/trabalhabilidade
  • Densidade
  • Resistência
  • Condutividade térmica

E reportou que a argamassa proposta cumpre normas internacionais relevantes (incluindo BS-EN 413-1:2011, ASTM C270-10, AS 1012/AS 3700), sinal importante para adopção.

Uma frase que fica: “Eficiência energética pode ser uma decisão de material, não apenas de equipamento.”

Impacto real: energia, carbono e economia circular

A resposta directa: reduzir perdas de calor corta consumo; usar PET reciclado reduz pressão sobre aterro e matérias-primas; juntos, melhoram o balanço ambiental do edifício.

1) Menos consumo de aquecimento e arrefecimento

Se a argamassa reduz a transferência de calor nas juntas, o edifício perde menos energia no inverno e ganha menos calor no verão. O efeito final depende do projecto, clima, espessuras e qualidade de execução — mas a direcção é inequívoca: menos carga térmica = menos kWh.

E em dezembro (como agora, 21/12/2025), este tema fica ainda mais concreto: em muitos edifícios, o consumo cresce precisamente por falhas de envelope. Melhorar a “pele” do edifício é uma medida que funciona 24/7.

2) PET reciclado: do resíduo ao componente de desempenho

O estudo usa PET de garrafas trituradas, lavadas e secas por 24 horas. O detalhe é importante: transformar resíduo em insumo de construção exige processo minimamente controlado.

Num cenário de economia circular, isto cria um caminho interessante:

  • Resíduos plásticos pós-consumo
  • Triagem e processamento (granulometria e limpeza)
  • Aplicação em materiais de construção com requisitos normativos

O ganho aqui não é só “ambiental” em abstracto. É operacional: menos extração de areia e potencial redução de custos de matérias-primas (dependendo da cadeia local).

3) “E o carbono do cimento?”

Aqui vai uma posição clara: o cimento continua a ser um problema climático. Esta argamassa não resolve isso sozinha.

Mas duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo:

  1. Melhorar o isolamento do envelope reduz emissões operacionais (energia ao longo dos anos).
  2. O sector precisa, em paralelo, de estratégias para reduzir o carbono incorporado (substituições cimentícias, cimentos alternativos, optimização de traços, projecto para durabilidade).

Esta argamassa é uma peça do puzzle — uma peça útil porque ataca um ponto crítico (pontes térmicas) sem exigir que o utilizador “mude de comportamento”.

Onde entra a IA: do material ao desempenho medido

A resposta directa: a IA ajuda a transformar uma melhoria de material em poupança comprovada, optimizando projecto, execução e operação do edifício.

No contexto de IA na Energia e Sustentabilidade, eu vejo três usos práticos (e muito “pé no chão”) para IA quando materiais como esta argamassa começam a chegar a projectos-piloto e, depois, ao mercado.

IA para previsão de procura energética com “materiais reais”

Modelos de previsão de consumo (para edifícios ou portfólios) ficam mais úteis quando conseguem incorporar variáveis do envelope: tipo de parede, pontes térmicas, qualidade de execução, etc. Se uma obra adopta argamassa de baixa condutividade, a IA pode:

  • Ajustar perfis de carga térmica previstos
  • Reduzir margens de segurança exageradas em dimensionamento de AVAC
  • Priorizar medidas com melhor retorno (por zona, por tipologia)

Resultado prático: menos sobredimensionamento e melhor planeamento energético.

IA para optimização de operação (BMS/AVAC)

Com um envelope mais eficiente, o edifício responde de forma diferente. Sistemas de gestão (BMS) com controlo inteligente podem:

  • Reduzir setbacks agressivos que geram picos de recuperação
  • Antecipar aquecimento/arrefecimento com base em previsão meteorológica
  • Identificar anomalias: se uma fachada “deveria” reter calor e não retém, há falha de execução ou infiltração

Aqui, a ponte com sustentabilidade é directa: menos energia, menos emissões, mais conforto.

IA para monitorização e verificação (M&V) de poupanças

Uma barreira clássica em eficiência energética é provar o ganho. A combinação de sensores (temperatura superficial, humidade, consumo) com modelos de IA permite:

  • Detectar padrões de perdas térmicas por zona
  • Comparar edifícios semelhantes com e sem a nova argamassa
  • Gerar relatórios de poupança com confiança estatística para financiadores

Isto é o tipo de evidência que acelera adopção no sector — porque tira o debate do “parece bom” e leva para o “está medido”.

Perguntas que decisores fazem (e respostas directas)

Esta argamassa serve para obra nova ou reabilitação?

Serve para as duas, mas brilha mais em obra nova, onde a execução e especificação podem ser controladas desde o início. Em reabilitação, faz sentido em intervenções de alvenaria e reparações em que a argamassa seja substituída.

O que eu deveria pedir num piloto?

Se eu estivesse a estruturar um piloto com uma construtora, pediria três coisas:

  1. Comparativo lado a lado (parede/área com argamassa padrão vs. nova argamassa)
  2. Instrumentação mínima: sensores de temperatura e humidade + medição de energia do sistema de climatização
  3. Critérios de aceitação: resistência, trabalhabilidade em obra, tempo de cura, incidência de fissuração

Quais são os riscos mais prováveis?

Os riscos não são “misteriosos”; são os de sempre em materiais novos:

  • Variabilidade do PET (origem, limpeza, granulometria)
  • Ajustes de trabalhabilidade (água/aditivos) para equipas em obra
  • Disponibilidade e custo do aerogel na cadeia local
  • Necessidade de ensaios de durabilidade (ciclos térmicos, humidade, envelhecimento)

O lado bom: são riscos geríveis com especificação e controlo de qualidade.

O que faria a adopção acelerar em 2026

A resposta directa: demonstração em escala real + dados abertos de desempenho + integração com modelos digitais.

A equipa de investigação quer testar a mistura em ambiente real e procurar parceiros para construir uma casa com a “receita” de argamassa. É exactamente o caminho certo. Para acelerar, eu acrescentaria uma camada digital:

  • Criar um gémeo digital do edifício (modelo térmico calibrado)
  • Alimentar esse modelo com dados de sensores
  • Usar IA para estimar poupanças e identificar factores de confusão (ocupação, clima, ventilação)

Quando o sector vê evidence-based building, a conversa muda: do marketing para a engenharia, da promessa para o desempenho.

Próximo passo: transformar material eficiente em estratégia energética

Argamassa com PET reciclado e sílica aerogel é um exemplo claro de como sustentabilidade não precisa ficar presa a “grandes projectos”. Às vezes, o ganho está numa decisão que passa despercebida — mas que se repete milhares de vezes numa fachada.

Para quem acompanha a série “IA na Energia e Sustentabilidade”, a mensagem é simples: materiais melhores reduzem a procura; IA torna essa redução previsível, verificável e optimizável. Se a sua organização trabalha com construção, energia, operação de edifícios ou financiamento de eficiência, vale a pena olhar para estas inovações agora — antes que virem “obrigatórias” por norma ou por custo.

Se pudesse medir, em tempo real, o impacto de escolhas de materiais no consumo energético do seu portfólio de edifícios, quais decisões mudariam já no seu próximo projecto?