Como o Brasil pode crescer com juros menores e gasto melhor? IA no setor financeiro reduz risco, amplia crédito e acelera produtividade — inclusive no agro.

IA no financeiro: o atalho para o Brasil crescer melhor
O Brasil não precisa “inventar” um novo modelo de país para voltar a crescer. Precisa voltar a fazer o básico bem feito: planejar, gastar melhor, reduzir a incerteza fiscal e baixar o custo do capital. Quando o economista Felipe Salto resume o desafio em juros mais baixos, controle permanente das contas públicas e incorporação tempestiva de novas tecnologias, ele está apontando uma verdade incômoda: crescimento não é um discurso, é um sistema.
E aqui entra um ponto que, na prática, está mudando a velocidade desse sistema: inteligência artificial (IA) no setor financeiro e nas fintechs. IA não resolve o déficit público, não substitui uma reforma orçamentária e não faz política pública sozinha. Mas ela encurta o caminho entre intenção e execução — e isso tem impacto direto em produtividade, inclusão financeira e, sim, crescimento.
Como este texto faz parte da série “IA na Agricultura e Agritech”, vou puxar o fio até o agronegócio, onde crédito, seguro rural, gestão de risco climático e eficiência de cadeia estão cada vez mais dependentes de dados e modelos. Quando o financeiro fica mais inteligente, o campo também produz mais e com menos desperdício.
O travamento do crescimento começa no custo do capital
A trava mais cruel do crescimento brasileiro é o custo do dinheiro. Juros reais altos por longos períodos reduzem o número de projetos viáveis na economia real — do varejo à indústria, do saneamento ao agro. Se deixar o dinheiro parado “ganha” mais do que investir, o investimento perde a disputa.
Salto aponta a raiz: um Estado que gasta muito e gasta mal, com dificuldade de sinalizar um futuro menos opaco. Em termos diretos, é isso que alimenta um prêmio de risco persistente. E prêmio de risco alto vira:
- crédito mais caro;
- prazos mais curtos;
- menos investimento produtivo;
- menor crescimento potencial.
O dado citado no artigo ajuda a enquadrar a ambição: o Brasil teve crescimento do PIB em dois dígitos nos anos 1970, mas nunca mais voltou a esse patamar. O objetivo realista hoje não é repetir os anos 70; é criar crescimento sustentado com produtividade e estabilidade.
Onde a IA entra nessa equação (sem fantasia)
IA não derruba juros por decreto, mas reduz custos e perdas do sistema financeiro. Menos inadimplência, menos fraude, melhor precificação e melhor alocação de capital significam um mercado de crédito mais eficiente. No agregado, isso ajuda a reduzir spreads e a ampliar acesso.
Um sistema financeiro que precifica risco com mais precisão consegue:
- ofertar crédito com taxas mais compatíveis com o risco real;
- aumentar prazos para bons pagadores;
- diminuir perdas operacionais;
- ampliar competição (principalmente via fintechs).
Esse é o tipo de eficiência que, quando ganha escala, vira macroeconomia.
Planejamento público: a oportunidade menos óbvia para IA
O Brasil já tem instrumentos de planejamento — o problema é uso e continuidade. O artigo destaca o Plano Plurianual (PPA) como estrutura constitucional subaproveitada e defende uma reforma orçamentária que coloque a discussão sobre gasto público “na boca do povo”. Concordo: sem transparência e foco em resultado, a disputa vira só “corta aqui / aumenta ali”.
A ponte com IA é direta: planejamento e execução orçamentária são problemas de dados, previsões e controle.
IA aplicada a gasto público e risco fiscal (na prática)
Há três usos muito objetivos:
- Detecção de ineficiência e desperdício: modelos identificam padrões atípicos em compras públicas, reajustes, contratos e aditivos — um radar para auditoria e priorização.
- Previsão de demanda e custo: saúde, transporte e educação têm sazonalidade e variação regional. Prever melhor reduz gasto emergencial caro.
- Simulação de políticas (“what-if”): estimar impacto de mudanças de regra (benefícios, subsídios, desonerações) com mais granularidade.
“Gastar melhor vale mais do que apenas gastar menos.”
Isso conversa com a provocação do artigo: separar o joio do trigo em educação, programas sociais, saúde, segurança e infraestrutura. O ganho não é só contábil; é confiança institucional. E confiança reduz risco.
Fintechs e bancos com IA: produtividade e justiça distributiva
Crescimento com justiça distributiva passa por crédito mais inteligente e serviços financeiros mais úteis. No Brasil, uma parte grande da desigualdade econômica é também desigualdade de acesso: a pessoa paga mais caro porque tem menos histórico, menos garantias, menos relacionamento bancário.
IA ajuda a corrigir isso quando bem aplicada, porque permite:
- crédito com dados alternativos (com consentimento): comportamento de pagamento, fluxo de caixa, notas fiscais, histórico transacional;
- ofertas personalizadas: limite, prazo e taxa ajustados ao perfil real;
- cobrança preditiva e humanizada: agir antes do atraso virar inadimplência crônica;
- educação financeira contextual: recomendações baseadas na vida real do cliente (e não em um “perfil genérico”).
A minha experiência é que a maior mudança não é “a IA decidir”. É a IA organizar o caos: segmentar, prever, priorizar e automatizar o que antes era lento, manual e cheio de regra fixa.
Riscos que precisam ser tratados (para não virar tiro no pé)
Se o objetivo é prosperidade com justiça, não dá para ignorar:
- viés e discriminação algorítmica (modelos que penalizam grupos por dados históricos ruins);
- explicabilidade (decisão de crédito precisa ser justificável);
- LGPD e consentimento (dados alternativos sem governança viram passivo);
- cibersegurança (mais automação aumenta superfície de ataque).
IA boa é IA governada. Sem isso, o ganho de eficiência vira crise reputacional.
Por que este tema é central para “IA na Agricultura e Agritech”
O agro brasileiro vive de capital e risco. Capital para custeio, investimento, armazenagem e logística. Risco climático, risco de preço, risco operacional. Se o Brasil quer crescer de forma sustentada, o agro é parte da resposta — e o sistema financeiro é a infraestrutura invisível que sustenta o campo.
Três aplicações de IA no financeiro que mexem direto com o agro
1) Crédito rural com precificação mais justa
Modelos que combinam histórico do produtor, dados de produtividade, imagens de satélite, calendário agrícola e fluxo de caixa reduzem assimetria de informação. Resultado esperado: menos “taxa média para todo mundo” e mais taxa coerente por perfil.
2) Seguro rural e risco climático com menos litígio
IA para detecção de sinistro, estimativa de perda e validação por dados (clima, NDVI, laudos, fotos georreferenciadas) acelera indenizações e reduz fraude. Isso diminui custo do seguro e aumenta adesão.
3) Cadeia mais eficiente: recebíveis, barter e risco de contraparte
Fintechs especializadas podem usar IA para monitorar risco de cooperativas, tradings e fornecedores, antecipando recebíveis com spreads menores quando há evidência de robustez operacional.
Quando isso escala, o impacto macro aparece onde interessa: produtividade, exportação, investimento e renda no interior.
Comércio internacional, COP 30 e o “financeiro verde” orientado por IA
A agenda ambiental deixou de ser um debate paralelo; virou condicionante de comércio e financiamento. O artigo aponta a COP 30 como marco para reposicionar o Brasil no centro de temas como mercado de carbono, Amazônia e fontes limpas.
No mundo real do crédito, isso se traduz em:
- exigências de rastreabilidade;
- metas de descarbonização;
- auditorias de cadeia;
- financiamento atrelado a desempenho ESG.
IA é o motor que viabiliza isso em escala, porque rastreabilidade e monitoramento contínuo exigem análise de dados massivos (satélite, IoT, documentos, transações). Para bancos e fintechs, a pergunta prática é: como provar que o risco ambiental está sendo medido e gerido?
Uma visão pragmática: IA como “compliance operacional”
Em vez de tratar sustentabilidade como relatório anual, instituições podem usar IA para:
- classificar risco socioambiental em tempo quase real;
- detectar inconsistências documentais;
- monitorar áreas e fornecedores com sinais de alerta;
- ajustar limites, garantias e pricing conforme risco.
Isso reduz risco de carteira e melhora acesso a funding. E, para o Brasil, aumenta competitividade.
Checklist: por onde começar (sem projeto faraônico)
Se você atua em banco, cooperativa de crédito, fintech, agritech ou área de risco, há um caminho seguro para gerar valor em 90 a 180 dias:
- Escolha um caso com ROI claro (fraude, inadimplência, cobrança, KYC, monitoramento de risco).
- Garanta dados minimamente confiáveis (cadastro, transações, histórico, trilha de auditoria).
- Defina métrica antes do modelo (ex.: reduzir fraude em X%, aumentar aprovação sem subir default).
- Implemente governança desde o dia 1 (LGPD, vieses, explicabilidade, logs).
- Integre com operação (modelo que não entra no fluxo vira POC eterna).
O Brasil não tem tempo para projetos que só rendem slides.
Crescer de novo exige menos improviso e mais inteligência aplicada
O diagnóstico do artigo é direto: sem resolver a equação fiscal (o texto cita déficit total perto de 8% do PIB e dívida em torno de 80% do PIB), os juros continuam pressionados e a economia segue presa no baixo crescimento. Planejamento e qualidade do gasto são a rota mais racional para destravar confiança.
A minha aposta é que a IA no setor financeiro vira um acelerador desse processo: melhora alocação de capital, reduz perdas, amplia inclusão e fortalece o financiamento de setores com vantagem comparativa — como o agro, especialmente quando conectado a agritechs e a práticas sustentáveis.
Se 2025 está fechando com empresas mais cuidadosas com caixa e com o debate climático ganhando tração rumo à COP 30, a pergunta mais útil para bancos, fintechs e players do agro não é “se vamos usar IA”. É: quais decisões financeiras precisam ficar mais rápidas, mais justas e mais auditáveis antes de 2026 começar?
Quer mapear 3 casos de uso de IA com ROI para crédito/risco no agro? Organize seus dados, defina a métrica e trate governança como produto — não como burocracia.