O AgTech andino cresce com 90 agfoodtechs e agfintechs. Veja lições práticas de IA na agricultura de precisão e monitoramento de safras para 2026.

AgTech andino e IA: lições para o agro brasileiro
O Banco Interamericano de Desenvolvimento mapeou 90 empreendimentos de agfoodtechs e agfintechs na região andina. Não é só um número bonito para relatório: é um sinal de que a inovação no agro está a ganhar tração fora dos “suspeitos do costume” e, mais do que isso, está a virar negócio sustentável, com receita a crescer e expansão para outros países.
Para quem trabalha com IA na agricultura no Brasil — seja como produtor, consultor, cooperativa, revenda, startup ou investidor — o recado é direto: os Andes estão a construir um ecossistema que combina produtividade, sustentabilidade e inclusão. E há lições práticas aqui, especialmente para agricultura de precisão, monitoramento de safras e gestão orientada por dados.
O que eu gosto neste tema é que ele foge do hype. O relatório mostra um caminho pé no chão: boas equipas, problemas reais da fazenda, tecnologia útil (muitas vezes a funcionar offline) e um ecossistema a aprender a financiar e validar soluções.
O que explica o avanço do AgTech andino
Resposta direta: o AgTech andino cresce porque resolve dores locais com tecnologia aplicável, e porque as startups têm equipas equilibradas entre campo e software.
A região andina tem uma agricultura diversa — cultivos anuais e perenes, pecuária, cadeias exportadoras e mercados locais — e isso cria uma “lista de problemas” grande: variabilidade climática, topografia complexa, logística, produtividade por talhão, gestão de risco, acesso a crédito e seguro. Quando a cadeia tem muitas fricções, há mais espaço para soluções digitais com retorno claro.
Outro ponto forte é o perfil das equipas fundadoras: negócios relativamente jovens (em geral com menos de 10 anos) e com uma combinação que aparece sempre que uma agtech dá certo:
- alguém que entende do agro por dentro (engenharia agronómica, experiência em operação, assistência técnica, originação)
- alguém capaz de construir produto (software, dados, integração, UX, engenharia)
Esse “casamento” evita dois erros comuns: tecnologia que não encaixa na rotina da fazenda e soluções agrícolas que não escalam por falta de produto e dados.
Sustentabilidade do negócio não é bônus — é pré-requisito
O relatório destaca um processo de consolidação: aumento de receitas, mais utilizadores e expansão regional. Isso importa porque, no agro, o ciclo de venda é mais longo e a confiança conta muito. Se a startup não aguenta 2–3 safras a aprender, ajustar e provar valor, ela desaparece.
E a realidade é simples: IA na agricultura só cria impacto quando está embutida num serviço que o produtor quer pagar e usar.
IA na agricultura de precisão: onde os Andes estão a acertar
Resposta direta: o ecossistema andino mostra que IA funciona melhor quando começa pelo básico bem feito: dados consistentes, recomendação acionável e integração com a operação.
Quando se fala em IA e agricultura de precisão, muita gente pensa primeiro em modelos sofisticados. Só que, na prática, o que separa um piloto de um produto é a disciplina operacional:
- captura de dados confiáveis (campo, clima, solo, manejo, pragas)
- processamento e padronização (limpeza, georreferência, séries históricas)
- recomendação que cabe na rotina (alerta, plano de ação, priorização)
- medição do resultado (produtividade, custo, insumo, risco)
É exatamente aqui que as agtechs andinas parecem evoluir: elas não vendem “IA” — vendem decisão melhor.
Exemplos de aplicações de IA que fazem sentido no campo
Sem depender de promessas vagas, dá para traduzir o que esse tipo de ecossistema normalmente entrega em aplicações concretas de monitoramento de safras e gestão:
- Detecção precoce de estresse (hídrico ou nutricional) com imagens de satélite/drones e modelos de classificação
- Alertas de pragas e doenças com base em clima, histórico e observações de campo (modelos preditivos)
- Recomendação de adubação e calagem por zona de manejo (clusterização + resposta esperada)
- Previsão de produtividade para planeamento de colheita, logística e venda (modelos de séries temporais)
- Otimização de aplicação de defensivos com foco em janela ideal e redução de desperdício (modelos + regras agronómicas)
O ganho real vem quando isso vira rotina: menos “achismo”, mais priorização do que fazer hoje no talhão certo.
Uma frase que guia boas implementações: “O produtor não compra IA; compra menos risco e mais margem.”
“Falta de internet” não é o centro do problema (e isso muda a estratégia)
Resposta direta: a limitação de conectividade existe, mas muitas agtechs crescem porque desenham soluções que funcionam offline e sincronizam depois.
Muita gente trava projetos de digitalização no agro por causa do sinal. Só que o que o relatório sugere é mais interessante: as startups que prosperam não esperam a infraestrutura perfeita. Elas projetam:
- apps que registam dados e operam offline
- sincronização quando há ligação
- compressão e envio inteligente de dados
- suporte a dispositivos simples, sem exigir o “smartphone mais recente”
Isso é uma lição ótima para o Brasil, especialmente em áreas onde a conectividade é irregular. A pergunta certa não é “tem internet?”, mas:
- qual dado precisa ser coletado no campo?
- qual decisão precisa ser tomada em poucas horas?
- que parte pode sincronizar no fim do dia/semana?
Quando desenhamos o produto assim, IA e agricultura de precisão deixam de ser um projeto “de TI” e passam a ser um projeto de eficiência operacional.
O ecossistema que acelera agtech (e como replicar no Brasil)
Resposta direta: incubadoras, aceleradoras, cooperativas, universidades e políticas públicas orientadas a protótipo e validação encurtam o caminho entre ideia e impacto.
O relatório do BID aponta recomendações que, honestamente, valem como checklist para qualquer região que queira aumentar a densidade de agritechs:
O que realmente destrava inovação (na prática)
- Programas de inovação com parceiros locais: cooperativas, associações, consórcios e revendas ajudam na distribuição e na confiança
- Acesso a financiamento no estágio inicial: dinheiro para protótipo e pilotos evita que a startup morra antes de provar valor
- Parcerias com universidades e centros de pesquisa: acesso a especialistas, dados, metodologias e validação
- Redes de contacto entre empreendedores e stakeholders: produtor, indústria, seguradora, banco, assistência técnica
- Metodologias padronizadas de avaliação: medir impacto de forma comparável (produtividade, economia de insumos, emissões, risco)
Eu tomo uma posição aqui: o Brasil tem ecossistema, mas ainda mede pouco o impacto de forma padronizada. Sem métrica, a conversa vira opinião. Com métrica, vira orçamento.
Validação: o “buraco” entre piloto e escala
Muitas soluções até funcionam num grupo pequeno, mas falham ao escalar porque:
- o dado de entrada muda (cada fazenda regista de um jeito)
- a equipa de campo não foi treinada
- a recomendação não vem com plano de ação
- ninguém “fecha a conta” do ROI
O caminho mais seguro (e que combina com a agenda de LEADS) é oferecer projetos com:
- escopo curto (8 a 12 semanas)
- 1–2 indicadores de sucesso bem definidos (ex.: redução de custo por ha, aumento de produtividade, redução de perda)
- rotina de adoção (quem faz o quê, quando, com que ferramenta)
- relatório final com decisão: escalar, ajustar ou parar
Oportunidades claras para 2026: precisão, carbono e risco
Resposta direta: a próxima onda de valor para IA no agro latino-americano está em três frentes: eficiência de insumos, rastreabilidade ambiental e gestão de risco (crédito/seguro).
Estamos em dezembro de 2025, com produtores a fecharem contas da safra e a planearem 2026. Esse é o momento em que decisões de tecnologia ganham espaço, porque a pergunta fica mais objetiva: onde dá para ganhar margem sem aumentar risco?
Três áreas tendem a puxar investimento e adoção:
1) Agricultura de precisão focada em custo por hectare
Se o modelo de IA ajuda a aplicar melhor (e menos), ele paga a conta. Aqui entram mapas de produtividade, zonas de manejo e recomendação variável.
2) Sustentabilidade com verificação (não só discurso)
Rastreabilidade, relatórios ambientais, evidência de boas práticas e métricas comparáveis. Quem medir melhor, negocia melhor.
3) Agfintech: crédito e seguro orientados por dados
Modelos de risco com dados de manejo e clima tendem a melhorar precificação e acesso. Para o produtor, isso pode significar taxas mais justas e menos burocracia.
Perguntas comuns (e respostas que evitam desperdício)
“IA substitui o agrónomo?”
Não. IA aumenta a escala do agrónomo. Ela filtra ruído, prioriza talhões e sugere ações; a decisão final e a contextualização continuam humanas.
“Por onde começo o monitoramento de safras?”
Comece com o que dá retorno rápido: cadastro de talhões + histórico de manejo + rotina de observação + alertas climáticos. Depois, acrescente imagens e modelos preditivos.
“Como provar ROI em agricultura de precisão?”
Defina antes do piloto: qual custo ou perda será reduzido (insumo, retrabalho, quebra, logística) e qual métrica será medida (por ha, por talhão, por período).
Próximo passo: usar o exemplo andino para acelerar no Brasil
O avanço do AgTech andino mostra um caminho replicável: resolver problemas reais do produtor, criar produtos que funcionam mesmo com limitações (como conectividade), e medir impacto de forma séria. Quando isso acontece, IA na agricultura deixa de ser “projeto de inovação” e vira linha de resultado.
Se você está a avaliar agricultura de precisão ou monitoramento de safras para 2026, eu recomendo uma abordagem objetiva: escolha um problema (ex.: perda por estresse hídrico, aplicação fora de janela, falha de estande), rode um piloto curto e feche a conta com dados.
Se a região andina conseguiu avançar com 90 iniciativas mapeadas e um ecossistema a consolidar, a pergunta que fica para nós é: que parte da sua operação ainda está a ser gerida por hábito, quando já poderia ser gerida por evidência?